Coletânea de contos redimensiona visão do período romântico

Bolívar Torres

RIO — Nos 10 anos em que trabalharam na organização de “O sino e o relógio — Uma antologia do conto romântico brasileiro” (Editora Carambaia), os professores de literatura da Universidade de São Paulo (USP) Hélio de Seixas Guimarães e Vagner Camilo foram pouco a pouco redimensionando suas visões sobre a literatura romântica nacional. Mapeando textos fora do cânone, encontrando autores até então desconhecidos, ou simplesmente desprezados, perceberam que essa produção ia muito além dos temas geralmente associados a ela, como o nacionalismo, o indianismo, e a exaltação à natureza.

Publicadas na imprensa durante o período temporal associado ao romantismo (entre 1836 e 1879), as 25 histórias curtas da coletânea abrangem tanto o lado B de autores ilustres (como Casimiro de Abreu, José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo) quanto textos obscuros escritos por anônimos. O leitor familiarizado com a produção da época pode se deparar com facetas surpreendentes, como a notação realista, a chave cômica e satírica e o feminismo crítico. Uma diversidade de registros que coloca em xeque um velho clichê: o de que o conto era um formato incaracterístico ou pouco praticado no período.

— Mesmo quem trabalha com romantismo se surpreende com esses textos — afirma Guimarães. — Até passei a levar essas questões para as minhas aulas, para os alunos repensarem o que estão acostumados a estudar sobre o período.

Em jornais e revistas, os organizadores encontraram uma miríade de textos anônimos de qualidade, algo inusitado em um período em que a questão de autoria ganhava força. Tanto que a dupla incluiu na coletânea dois contos sem assinatura: “Que desgraça” (1839) e “O baú” (sem data).

Noção imprecisa

Camilo e Guimarães também percorreram a obra de enigmas como Flávio d’Aguiar, nome do qual não se tem nenhuma referência biográfica e que pode ser um pseudônimo. O autor aparece na coletânea com “O grande vaso chinês” (1877), sobre um garoto que fantasia com a figura feminina estampada em um vaso na sala de seus pais. Com um orientalismo exótico que era muito mais comum na produção europeia, o texto foge dos parâmetros do romantismo brasileiro.

— A pesquisa nos mostrou que esses autores desconhecidos não tinham uma produção episódica — diz Camilo. — Um autor como D’Aguiar poderia ter deixado apenas um exemplo de qualidade nas páginas de jornal. Mas vimos que ele tem pelo menos sete contos em periódicos, que poderiam render um volume inteiro só dele.

Alguns dos títulos de “O sino e o relógio” já apareceram em outras coletâneas. É o caso de “Carlotinha da mangueira”, de Gentil Braga, publicado em “O conto romântico”, organizada por Edgar Cavalheiro em 1961. No prefácio deste livro, que se encontra há anos fora de catálogo, o crítico Mário da Silva Brito afirmava que a prolixidade do romantismo, além do seu “sentimentalismo” e de suas “expansões derramadas”, afastavam-no do formato, que exige contenção e precisão.

Mas Camilo e Guimarães mostram que, entre 1836 e 1879, a própria noção de conto era imprecisa e flutuante aqui no Brasil. As histórias curtas eram frequentemente apresentadas como “anedotas”, “apólogos” ou “lendas”. Até então silenciada, essa produção alternativa ajuda a entender justamente como o gênero foi ganhando definição ao longo dos anos. Tanto que o último conto da coletânea, “O relógio de ouro” (1873), de Machado de Assis, mostra uma consciência e um domínio muito maior do formato como o entendemos hoje. Ele usa a marcação do tempo para criar o mistério em torno do verdadeiro dono do relógio do título.

—Ele tem algo raro na época, que é a cronometragem da narrativa: o tempo está correndo desde o início — explica Guimarães.

Para comprovar a abrangência do conto no período, os organizadores também optaram por incluir escritores geralmente associados a outros gêneros, como os poetas Fagundes Varela (“A guarida de pedra”) e Casimiro de Abreu (“Carolina”), o editor Francisco de Paula Brito (“A revelação póstuma”) e o dramaturgo Martins Pena (“Minhas aventuras numa viagem de ônibus”).

Olhar feminino

Segundo Camilo, nem mesmo os especialistas em Visconde de Taunay (mais conhecido como romancista) dão atenção ao inédito conto “Camirã, a quiniquinau” (1874), incluído na coleção. E “Inocêncio” (1869), de Joaquim Manuel de Macedo, está longe de ser um dos escritos mais conhecidos do autor de “A moreninha”, mas traz observações argutas das relações de poder e dos arrivismos sociais.

— “Inocêncio” admira pela representação que faz do século XIX. Tem procedimentos que inclusive seriam vistos depois na ficção de Machado de Assis — diz Camilo.

De acordo com Guimarães, a própria ideia de mulheres escrevendo contos naquela época já é surpreendente por si só, já que o gênero é praticado predominantemente por homens. Algumas escritoras que aparecem na coletânea são até conhecidas em outros registros (caso de Maria Firmina dos Reis, autora do romance “Úrsula”, que teve sua obra recuperada nos últimos anos, e da pedagoga e feminista Nísia Floresta), mas há outras ainda pouco publicadas. A jornalista e escritora Corina Coaracy começou colaborando na imprensa aos 16 anos, mas sua obra permanece dispersa em jornais antigos. E o que se sabe hoje da misteriosa Escolástica P. de L. se resume ao pseudônimo.

— Os contos dessas autoras chamam a atenção pelo humor, o distanciamento do olhar e a crítica arguta das relações afetivas, do casamento — observa Guimarães. — Elas olhavam com ironia o papel que lhes era reservado na literatura na época.