Coletivo de judeus critica tentativa de impedir comparações do governo Bolsonaro com o Holocausto

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Oswiecim, Poland - February 16, 2018: The famous arch of the concentration camp Auschwitz. Inscription: Arbeit macht frei.
Coletivo Judeus pela Democracia reconhece que há diferenças no contexto, mas critica tentativa de sacralizar o Holocausto (Foto: Getty Images)
  • Coletivo Judeus pela Democracia divulgou nota com críticas às tentativas de impedir comparações entre governo Jair Bolsonaro e o Holocausto

  • Segundo o grupo, é necessário aprender com o passado para combater as violências do presente

  • Carta foi uma resposta à Confederação Israelita do Brasil, que condenou a capa da revista IstoÉ

O coletivo Judeus pela Democracia divulgou uma carta em que repudia a tentativa de impedir comparações feitas entre o governo de Jair Bolsonaro (sem partido) e o Holocausto. 

“Não aceitamos, por responsabilidade e atenção à herança que o Holocausto nos legou, é a tentativa de alguns grupos e instituições de silenciar aqueles que protestam contra o terror do projeto político-ideológico que governos de extrema-direita têm levado a cabo”, diz o texto.

Na carta, o grupo afirma que, de fato, as condições são diferentes do período que Adolf Hitler esteve no poder na Alemanha, mas, “não podemos deixar de ouvir o apelo das testemunhas do Holocausto para que fortaleçamos nossa responsabilidade e atenção frente aos perigos do presente e de um governo que se assemelha ao nazifascismo”.

As diferenças, segundo o grupo, não podem levar a uma “sacralização” do Holocausto, que deixou 6 milhões de judeus mortos.

A carta cita a CPI da Covid e o caso Prevent Senior e lembra que o uso de pacientes com covid-19 para testes sobre o uso de cloroquina. “Ao invés de fecharmos os ouvidos para a memória da Holocausto e os olhos para o horror de hoje, escutemos o passado para melhor combatermos as violências do presente”, diz o coletivo Judeus pela Democracia.

Ao longo da semana, membros da comunidade judaica entraram em embate após a capa da revista IstoÉ, que retratava Jair Bolsonaro como Hitler. No bigode, estava a palavra “genocida”. Enquanto alguns judeus acreditam que se trata de uma “banalização do Holocausto”, outros defendeu que práticas do atual governo se assemelham ao que ocorria no regime nazista.

A carta do Judeus pela Democracia foi uma resposta à Confederação Israelita do Brasil (Conib), que condenou as comparações. A entidade é a representante política da comunidade judaica brasileira. 

"A CONIB (Confederação Israelita do Brasil) mais uma vez condena comparações descabidas e insustentáveis do momento atual com as atrocidades cometidas pelo regime nazista contra a população judaica e outras minorias e grupos políticos. As políticas nazistas buscavam deliberadamente o extermínio de minorias e oponentes políticos em circunstâncias completamente diferentes das atuais. O uso reiterado dessas comparações, por diversos grupos políticos, banalizam o Holocausto e a memória de suas vítimas."

Leia a carta do coletivo Judeus pela Democracia na íntegra:

Hoje, a poucos dias da entrega do relatório final da CPI da Covid-19 que deverá indiciar criminalmente o atual presidente da República por crime contra a humanidade e crime de genocídio contra os povos indígenas, há ainda quem condene aqueles que trazem à tona a memória do Holocausto para pensar os perigos do presente. É como se tudo o que aconteceu entre 1933 e 1945, por ter se dado em "circunstâncias completamente diferentes das atuais", devesse ser sepultado na memória e sacralizado sob o argumento do risco de banalização.

O que nós, membros do coletivo Judeus pela Democracia de São Paulo, não aceitamos, por responsabilidade e atenção à herança que o Holocausto nos legou, é a tentativa de alguns grupos e instituições de silenciar aqueles que protestam contra o terror do projeto político-ideológico que governos de extrema-direita têm levado a cabo.

A ideologia mórbida do nazifascismo parece ecoar nas violências do governo atual do Brasil: propagação do vírus na pandemia; genocídio contra os povos indígenas; difusão de fake news, de conspirações negacionistas, de discursos de ódio e de violência misógina, racista e homofóbica; financiamento com dinheiro público da destruição da floresta Amazônica; naturalização da fome de dezenas de milhões de brasileiros; organização estratégica de milícias para a defesa de seu governo e de sua ideologia.

Para nós, preservar a memória quer dizer que, apesar das circunstâncias atuais serem diferentes daquelas de 1933 a 1945, não podemos deixar de ouvir o apelo das testemunhas do Holocausto para que fortaleçamos nossa responsabilidade e atenção frente aos perigos do presente e de um governo que se assemelha ao nazifascismo.

Não à toa, após ouvir, na CPI da Covid-19, os depoimentos de um paciente e de um ex-médico da rede Prevent Senior, um senador não encontrou outra palavra para descrever a violência da política em curso: 'Nazismo! Não tenho como não chamar isso de nazista, o que assistimos hoje [no Brasil], com todas as letras dessa palavra'.

Enfim, não podemos aceitar a banalização do mal como política de Estado. Nem banalização da memória, nem banalização do presente. Anos atrás, o sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz, Primo Levi, já notara o caráter "endêmico" e "epidêmico" da violência nazi-fascista no "Terceiro Mundo", alertando que ela estava à espera de um novo bufão que a organizasse, a legalizasse e a declarasse necessária.

Ao invés de fecharmos os ouvidos para a memória da Holocausto e os olhos para o horror de hoje, escutemos o passado para melhor combatermos as violências do presente.

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