Coletivo de mulheres denuncia casos de agressão e estupro na Ilha Grande e reclama de descaso da polícia

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Era fim de tarde no domingo passado (24/10) quando Jéssica, dona de um restaurante na Ilha Grande, teve que sair em defesa de uma de suas funcionárias que estava sendo assediada por um homem no local. Depois de pedir para ele se retirar do estabelecimento, Jéssica ligou para a polícia. O homem saiu e voltou com um comparsa, que iniciou uma série de agressões no restaurante segundo testemunhas presentes: além de Jéssica, duas funcionárias, um funcionário e duas clientes teriam sido agredidas pelo rapaz. Depois de cinco ligações, enfim a polícia chegou. A atuação dos policiais, no entanto, não foi suficiente para frear o agressor. Enquanto relatava o caso, Jéssica levou um soco no nariz desferido pelo agressor na frente dos militares. Depois, as vítimas e os dois homens foram levados pela polícia, no mesmo barco, para fazer boletim de ocorrência em Angra dos Reis.

Até o momento, o caso não deu em nada e os agressores continuam soltos na Ilha Grande. O caso é um entre outros que aconteceram recentemente por lá e tem assustado os moradores da região. Cerca de 60 mulheres de diferentes idades, todas moradoras da ilha, formaram um coletivo para protestar contra a violência crescente e para cobrar atitudes efetivas das autoridades.

— Muitos casos de violência contra a mulher estão acontecendo. Violência doméstica, estupros e violência na rua estão sendo cada vez mais recorrentes. A violência contra a mulher aqui é normalizada, e temos muitos agressores vivendo entre nós. Além disso, a polícia e à segurança pública é quase inexistente — diz a argentina Antonela Frascarelli, de 32 anos, moradora da Ilha Grande desde 2013 e uma das integrantes do coletivo. — A inoperância da esfera policial é preocupante. Imagina ter que ir na delegacia depois de ser agredida no local de trabalho, depois de ter ligado varias vezes, depois de ser agredida duas vezes na cara, uma delas com o policial presente, e aí escutar que não tem como fazer um boletim de ocorrência aqui na ilha, que tem que atravessar de lancha pra Angra dos Reis na mesma embarcação que o agressor, pra depois chegar lá e saber que os criminosos vão estar soltos daqui a pouco. É muita coisa né?

Em janeiro, Giuliana Giglio Fontoura, de 36 anos, estava caminhando em direção à Praia Preta quando um homem saiu da escuridão e a agarrou por trás. Após entrar em confronto com o agressor, Giuliana conseguiu fugir. Ao denunciar o caso, no entanto, se surpreendeu com a ausência da polícia diante do caso. Apenas bombeiros teriam procurado por ela, que se limitou a fazer um boletim de ocorrência on-line. O homem até hoje não foi identificado.

No carnaval do ano passado, uma mulher que não deseja se identificar também foi agarrada à noite por um indivíduo que tentou estuprá-la. Enquanto ele arrancava suas roupas, batia em seu rosto com uma pedra. Um turista, ao ouvir os gritos de socorro da vítima, evitou que a violência continuasse. A mulher ficou internada por dias, teve uma mão quebrada, hemorragias internas e passou por uma cirurgia maxilofacial. Desta vez, o agressor foi preso depois de ser capturado por dois moradores da ilha. Entretanto, a vítima reclama de ter sido colocada pela polícia no mesmo barco com o estuprador à caminho da delegacia em Angra dos Reis.

— Esses são só alguns casos. Mas tem incontáveis casos de violência doméstica, agressão e assédio na rua e no trabalho, tentativas de estupros. Muitos dos agressores são moradores da ilha. Temos que conviver com o medo e com o perigo aqui mesmo. Quem cuida da gente? Como é possível tanta inoperância por parte da polícia? Por que a gente não conta com acolhimento e suporte por parte das instituições? Por que aqui não tem um pessoal policial preparado para lidar com essas situações? — questiona Frascarelli.

Com mais de 600 seguidores em um perfil criado recentemente no Instagram, o coletivo de mulheres da Ilha Grande já fez dois protestos na Vila do Abraão para cobrar ação da polícia diante dos casos. O último protesto, neste sábado (30), reuniu cerca de 100 pessoas. Com velas e cartazes, o grupo se reuniu em frente ao 33º Batalhão da Polícia Militar, localizado na Vila do Abraão.

— Nosso paraiso está ficando perigoso, para quem mora aqui e para os turistas. Precisamos que esse nosso lar seja de novo um lugar tranquilo e seguro, precisamos fazer valer aquele “patrimônio da Unesco” e que não fique só numa etiqueta — finaliza Frascarelli.

Procurada pela reportagem, a polícia Militar ainda nao se posicionou sobre o casos.

Em nota, a polícia Civil afirma que em julho inaugurou a ‘Projeção Ilha Grande’, ligado a 166ª (Angra dos Reis) e da Delegacia de Atendimento à Mulher (DEAM) de Angra naquele local.

"A unidade possibilita o atendimento na própria ilha, evitando o deslocamento dos moradores e turistas para a delegacia da cidade. Apenas em outubro, foram realizados 12 indiciamentos por estupro e estupro de vulnerável. A DEAM-Angra, inclusive, tem se reunido constantemente com o Ministério Público e com o Judiciário a fim de debater melhorias no combate à violência contra a mulher e a delegacia está de portas abertas para receber vítimas e colaboradores a fim de proporcionar um atendimento de excelência.", diz trecho da nota.

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