Coletivos de funcionários negros levam o debate sobre igualdade racial para dentro das empresas

Amanda Pinheiro

A diversidade étnico-racial no mercado de trabalho tem sido pauta constante nas empresas. E, em busca de ampliar a discussão, funcionários estão se organizando em coletivos para propor soluções efetivas. Segundo pesquisa do Instituto Ethos, 150 anos é o tempo que as companhias vão demorar para igualar o número de pessoas negras em seus quadros, tendo em vista a proporção dessa população no Brasil.

— Há uma necessidade vital de evitar o retrocesso nos (poucos) avanços já conquistados, principalmente pelo atual momento a que estamos submetidos. As pessoas negras que deram alguns passos adiante não vão admitir mais perder esse território — afirma Aída Barros, de 41 anos, consultora em equidade racial e analista de conteúdo de programação da TV Globo. Antes de ir para a TV, Aída criou junto com Consuelo Cruz e Renatta Novaes o coletivo Junta negra e diversa, no canal GNT, da Globosat.

Fundado em 2018, o grupo nasceu a partir de discussões sobre a falta de representatividade na empresa, sobretudo na programação do canal. Com isso, as três criaram um plano de ação e realizaram cursos, painéis e entretenimento para os funcionários. Hoje, além de se chamar Diáspora, o coletivo cresceu e atende todo o grupo Globosat. Para a editora do GNT Consuelo Cruz, de 40 anos, a mudança, ainda que lenta, é eficaz:

— A equipe do GNT, no geral, tinha uma quantidade considerável de pessoas negras, mas ainda faltava. E, como empresa de comunicação, é fundamental esse debate de representatividade. Depois das nossas ações em conjunto, houve um aumento de dois para cinco no número de apresentadores. Na área digital, criamos o programa “Fora do eixo”, que está na segunda edição, com a equipe majoritariamente negra. Acredito que as conquistas são lentas, mas quando acontecem, elas não voltam. No Brasil, as pessoas não admitem o racismo e nem a própria identidade racial, mas é importante a gente se unir nesses lugares e promover discussões e ações contínuas. Só assim, vamos conseguir sair desse quadro de desigualdade no país — diz Consuelo.

'A diversidade contribui positivamente para a produtividade e rentabilidade das empresas'

Ainda de acordo com a pesquisa do Instituto Ethos, realizada com as 500 empresas de maior faturamento do país, cerca de 57% a 58% dos aprendizes e trainees são negros. Mas, nos cargos de gerência, o número cai para 6,3%. Na área executiva, o cenário é ainda pior: somente 4,7% são ocupados por pessoas negras.

, gerente de categoria de compras de exploração e produção da Shell, é uma das criadoras do B-Power, a rede pela equidade racial. Desde março deste ano, o grupo realiza debates semanalmente com os mais de 30 componentes. Para ela, existem dois objetivos: o aumento do número desses profissionais e a conscientização:

— Identificamos que tínhamos redes com grupos importantes dentro da companhia, mas que ainda faltava o debate sobre negritude e inclusão racial no ambiente corporativo. Com isso, realizamos discussões sobre o racismo e suas esferas (individual, institucional e estrutural), workshops de nivelamento sobre negritude para média liderança com empresas engajadas em Diversidade & Inclusão, sessões educativas sobre o tema para funcionários, além de rodas de conversa — comenta Denise, que reitera a importância desses coletivos.

— Há um interesse maior dos funcionários em saber sobre o tema e a nossa História. Além disso, percebi que muitos passaram a se identificar como negros. Essa mudança é um dos pontos-chave para promovermos a transformação que buscamos. Diversos estudos já demostraram que a diversidade contribui positivamente para a produtividade e a rentabilidade das organizações; e lideranças negras têm se manifestado quanto à falta de representatividade no mercado. Hoje há uma preocupação maior das pessoas sobre como lidamos com as questões de diversidade sejam elas de gênero, raça ou nacionalidade, entre outras. Acho que todo esse movimento tem gerado um ambiente favorável para a discussão — completa.

O papel de pessoas brancas nesses lugares

Sendo maioria no quadro de funcionários, sobretudo em cargos de liderança, as pessoas brancas também demonstram interesse nas reuniões e questões colocadas por esses coletivos. Para a consultora em equidade racial Aída Barros, a participação de pessoas brancas é importante na busca pela mudança e fortalecimento dos coletivos negros.

— Adotar uma liderança antirracista é entender de antemão que é preciso dividir o lugar de privilégio. Então, pessoas brancas podem contribuir abrindo espaço para que negros e negras atinjam as posições de poder, demandando aos departamentos responsáveis que haja equidade de oportunidades para todos. Por exemplo, se há uma vaga de gerência (ou qualquer outra liderança), é preciso que o/a líder direcione o recrutamento para ter 50% de negros e brancos.