Colisão na Ponte Rio-Niterói foi 'tragédia anunciada', aponta especialista; há 58 embarcações abandonadas

Mapeamento realizado pela Escola de Engenharia Industrial Metalúrgica da Universidade Federal Fluminense (UFF) aponta que trecho entre Niterói e Paquetá da Baía de Guanabara tem ao menos 58 embarcações abandonadas, que se deterioram com a ação do tempo. Na noite da última segunda-feira, o navio São Luiz, que estava há seis anos atracado no entorno da Ponte Rio-Niterói se colidiu com a estrutura, causando transtornos com a interdição da via em plena hora do rush, que durou três horas. Segundo Sérgio Ricardo, cofundador do movimento Baía Livre, que atua desde a década de 1980, o incidente podia ser previsto.

— É uma tragédia anunciada: uma embarcação enferrujando, apodrecendo, há seis anos ancorada quase embaixo da Ponte Rio-Niterói. Nós do Movimento Baía Livre tiramos fotos, encaminhamos para o poder público. Estão esperando o que? É uma sujeira que está sendo colocada embaixo do tapete, que é o ecossistema da Baía de Guanabara — explica Sérgio, que cobra de diversos órgãos uma ação efetiva.

— Estamos alertando que é um passivo ambiental de 30 anos, um verdadeiro cemitério de navios abandonados na Baía de Guanabara. Há risco ambiental, pois boa parte das embarcações está afundada há 30 anos. Tem metal pesado, óleo pode estar vazando para a Baía e contaminando tudo, em um impacto sobre a pesca e o turismo, é uma Baía completamente assoreada — aponta o integrante do Baía Livre.

Além do entorno de Niterói, com destaque ao Canal de São Lourenço, Sérgio alerta para o mesmo problema de assoreamento no Gradim, em São Gonçalo, e em trechos da capital: entre o Caju e a Ilha do Fundão; no entorno da Ilha do Governador; e no Canal do Cunha.

Uma das reclamações de Sérgio Ricardo é que falta um inventário, por parte dos órgãos competentes, que trate da questão dos barcos abandonados. Uma das soluções apontadas para isso está em um mapeamento feito por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense:

— O projeto trata da análise das embarcações abandonadas na Baía de Guanabara e a potencialidade de reciclagem delas. Fizemos um mapeamento dessas embarcações em situação de abandono: a maioria não tem identificação, e parte delas são de madeira, outro percentual de aço — explica o professor Newton Narciso pereira, do Departamento de Engenharia de Produção da UFF, que entregará o resultado do estudo em janeiro do ano que vem. Ele explica que o navio São Luiz, que colidiu com a Ponte Rio-Niterói nesta segunda-feira não fez parte de sua análise por não estar na região costeira de Niterói, município parceiro na pesquisa desenvolvida pela UFF.

— Em 2021, identificamos 61 embarcações em situação de abandono, percorrendo a Baía de Guanabara entre Niterói e Paquetá, sem entrar na área de fundeio, onde estava o navio São Luiz. Em 2022, identificamos 58 embarcações na mesma rota: temos ali os cascos de aço, alguns parcialmente soterrados, precisaria de todo um trabalho para remoção; e os de madeira, que restam só destroços. Além da poluição visual, tem o risco ambiental — conclui.

Tanto o pesquisador da UFF quanto o integrante do Baía Livre apontavam o Canal de São Lourenço, em Niterói, como uma área crítica quanto à concentração de barcos e os seus restos.

No entanto, na região também foi montado o Terminal Pesqueiro de Niterói. Inaugurado em 2013 como potencial gerador de empregos, numa área de 7,2 mil metros quadrados, com presença inclusive do então ministro da Pesca e Aquicultura, Marcelo Crivella, que viria a se tornar prefeito da capital do estado em 2016. Em anúncio da prefeitura de Niterói, à época, o empreendimento era anunciado como tendo custado R$ 10 milhões.

— Esse terminal nunca funcionou um único dia e enquanto houver o cemitério de embarcações no Canal de São Lourenço, nenhuma embarcação poderá atracar no píer. Essa é uma responsabilidade compartilhada da Capitania dos Portos, Inea e Ibama — explicou Sérgio Ricardo.

Para Miguel Fernández, presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental do Rio de Janeiro (ABES/Rio), é preciso que as autoridades repensem o tipo de operação que querem na Baía de Guanabara:

— A Baía hoje tem uma função muito importante para a operação naval. Além disso, com essa perspectiva de despoluição da Baía de Guanabara, isso abre um novo debate sobre qual o uso se quer para esse corpo hídrico. Não dá para usar a Baía de Guanabara como estacionamento de navio velho. É risco ambiental e para as infraestruturas existentes. A Baía é um recurso hídrico e um patrimônio, principalmente para a população da Região Metropolitana.

Entre os riscos ambientais de navios abandonados na Baía de Guanabara, Fernández citou descarga ilegal de esgoto sanitário de navio, vazamento de óleo, água de lastro de navio com micro-organismos, além do risco de colisão, como ocorreu nesta segunda feira na Ponte Rio-Niterói. O engenheiro, no entanto, ressalta a importância da indústria para a região.

— Não acho que a indústria tenha que sair do estado do Rio, mas até que ponto a gente quer indústria com essa proporção na Baía de Guanabara? Temos quase cem navios ancorados. É um volume grande. Queremos que esse patrimônio seja ancoradouro de navio ou vamos pensar num turismo ecológico, outros atrativos para essa região, dando destaque para essa exploração do turismo verde? Talvez esse acidente abra oportunidade de se discutir isso — destaca Fernández.

A prefeitura de Niterói confirma que o empreendimento não está em funcionamento, mas atribui a responsabilidade sobre o Terminal Pesqueiro ao governo federal, assim como as obras de desassoreamento da região. O município, no entanto, informa que realizará dragagem na localidade, com investimento de R$ 772 mil, que está em fase de preparo de edital de licitação.

Niterói atribui à Capitania dos Portos a responsabilidade sobre o mapeamento de barcos abandonados na Baía de Guanabara. O Instituto Estadual do Ambiente (Inea) também informa que o "controle das embarcações ancoradas na Baía de Guanabara e abandonadas é atribuição da Marinha do Brasil".

Ibama, Marinha do Brasil e o atual Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento não enviaram posicionamento até a publicação desta reportagem.