Colonialismo: Apenas quatro edições da COP ocorreram em África

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Foto: Pedro Borges/Alma Preta Jornalismo
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  • A próxima edição do evento será em Sharm El Sheik, no Egito; ativista egípcio acredita que a COP na África é importante para se buscar a justiça climátic

  • O continente que mais recebeu edições do evento foi o europeu, que sediou a COP em 14 oportunidades

  • Já no caso da América Latina, apesar de integrar o G20, o Brasil nunca recebeu o encontro

Quênia (2006), África do Sul (2011), Marrocos (2001 e 2016) foram os países africanos a sediar as quatro edições da COP que ocorreram no continente. A região que mais recebeu edições do evento foi a Europa, que sediou o evento em 14 oportunidades. A Alemanha hospedou a conferência em quatro oportunidades: em 1995, 1999, 2016 e 2018. A Polônia foi a anfitriã três vezes, em 2008, 2013 e 2017.

Diosmar Filho, geógrafo e doutorando em Geografia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), acredita que a dinâmica das COPs é um reflexo do colonialismo.

"Quem vai decidir os processos do mundo não está no continente africano, mas naqueles países que se colocam na condição do G20, das nações que se colocam como colonizadoras, incluindo o Brasil", afirma.

"A agenda da COP é definida a partir de quem tem dinheiro e não de quem é afetado", completa Diosmar Filho.

A próxima COP retorna à África depois de seis anos, quando a cidade de Marraqueche, no Marrocos, organizou o encontro em 2016. O encontro de 2022 ocorrerá no Egito.

Hossam Emam, engenheiro civil e fundador da Ação Sustentável no Egito, destaca a importância da próxima COP ser no continente.

"A COP na África vai transformar o evento em acessível para os africanos se engajarem cada vez mais nas negociações. E isso significa um passo mais próximo na direção da justiça climática", finaliza.

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Isabella Teixeira, ex-Ministra do Meio Ambiente entre 2010 e 2016, explica que uma das dificuldades para sediar a COP é o alto custo do evento, fator que pesa para as nações africanas e latino-americanas. Toda a estrutura da Organização das Nações Unidas (ONU) deve ser garantida pela nação sede.

"Custa muito caro. A COP não é barata. Toda a estrutura da ONU é bancada pelo país anfitrião. Essa é uma dificuldade muito grande para países em desenvolvimento. Não é barato trazer chefe de Estado e delegações", explica.

Apesar de a África, assim como os demais países do Sul global, ser bastante afetada pelas mudanças climáticas, Hossam Emam afirma que o continente sofre mais do que as demais nações do hemisfério para acessar espaços como a COP.

"Quando a COP ocorre em países do Norte, a acessibilidade é difícil, começando pela questão do passaporte e do visto. Algumas nações não precisam disso para entrar na Europa e nos EUA", explica.

"Na África, às vezes, você precisa viajar para outro país, onde existe uma embaixada, apresentar muitos documentos e ter sorte pra conseguir. No final, você vai ter a autorização de dias ou uma semana", completa.

Brasil e a COP

Apesar de integrar o G20, o Brasil nunca recebeu o encontro. Na América Latina, a COP aconteceu em quatro oportunidades: na Argentina (1998 e 2004), no México (2010) e no Peru (2014).

"As COPs acontecem nos países signatários e cada ano ocorre em uma região. Esse ano na Europa, ano que vem na África. O grupo regional da América Latina vota para que os grupos que queiram sediar sejam aprovados. O critério é o da alternância", afirma a ex-Ministra do Meio Ambiente.

Havia a expectativa do Brasil receber a COP de 2019, que foi transferida para o Chile. O vizinho sulamericano vivia manifestações massivas na época e decidiu abrir mão do encontro, que ocorreu em Madrid, Espanha.

"O Brasil foi o unico país a apresentar candidatura. Quando veio o atual governo, ele tirou a candidatura do Brasil", conta Isabella Teixeira.

Ela acredita ser fundamental dialogar e receber outros países do mundo. Como exemplo, cita a Rio92, evento organizado pelo governo brasileiro para discutir meio ambiente e clima.

"O Brasil era muito questionado sobre o desmatamento da Amazônia. O governo brasileiro resistiu às críticas no começo e depois optou por chamar todo o mundo para discutir sobre o Brasil, no Brasil. E isso se tornou a cara da política externa brasileira para a área. Nós somos um países continental. Trazer o mundo para o Brasil é importante, para entender a nossa realidade".

A Rio92 reuniu 178 líderes de estado, contou com a participação da sociedade civil e teve ampla cobertura da imprensa internacional. O encontro construiu a Agenda21, acordo que sinalizou a importância da mudança dos padrões de consumo, necessidade de transferência de recursos para os países pobres e o estabelecimento de áreas de ação, como a atmosfera e as florestas.

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