Comício de Crivella com bolsonaristas teve funcionários da prefeitura na organização e ‘guardiã’ no palco

Felipe Grinberg
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Foto: Foto: Felipe Grinberg
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RIO — Sem conseguir convencer o presidente Jair Bolsonaro a vir ao Rio antes do primeiro turno, o prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), que tenta a reeleição, organizou um evento, na noite desta quinta-feira, com diversos nomes da ala bolsonarista da política carioca, entre eles o ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB). O comício intitulado “Encontro de Gigantes”, realizado em uma casa de shows da Barra da Tijuca, teve a participação de funcionários da prefeitura na organização, a presença de carro oficial do município e até de uma “guardiã” no palco junto ao prefeito.

Logo na entrada do evento, os eleitores eram recepcionados com um “seja bem vindo” e diversos adesivos de Crivella que Daniela Rocha Pinto de Jesus, apontada como participante do grupo “Guardiões do Crivella”, colocava na lapela dos presentes. O GLOBO apurou que a organização do evento partiu de membros do movimento “Elas com Crivella”, que conta com a participação da primeira dama Sylvia Jane e de Daniela Rocha. Além delas, várias pessoas que trabalham no cerimonial oficial da prefeitura do Rio também participaram da organização. Em uma agenda na última semana, Daniela confirmou que trabalhava na campanha do prefeito “fora do horário de seu expediente”. Na prestação de contas da campanha de Crivella para a Justiça Eleitoral não há nenhuma menção ao aluguel do espaço.

Além de candidatos, deputados e políticos, ao lado de Crivella estavam sentados seis membros do primeiro escalão do município do Rio, como os secretários de Infraestrutura e Habitação, Sebastião Bruno, e a de Saúde, Beatriz Busch. Todos foram recebidos com aplausos tímidos da plateia, à exceção de Talma Romero Suane, secretária de educação, que recebeu gritos acalorados de cerca de 20 pessoas. O grupo estava sentado junto. Sobre as suas cadeiras havia papéis escritos à mão com a sigla “SME”, a mesma usada pela prefeitura para se referir à Secretaria de Municipal de Educação. Já no estacionamento que fica atrás da casa de show, o GLOBO flagrou um carro da Casa Civil estacionado com o adesivo oficial. O veículo saiu logo após o término do evento.

Questionada, a prefeitura do Rio disse, por meio de nota, que abrirá uma sindicância para investigar o porquê do carro oficial estar próximo ao evento, e que os funcionários do município que participaram “estiveram após o horário do expediente, e como apoiadores informais da campanha à reeleição de Marcelo Crivella, um direito democrático assegurado a todas as pessoas.” Já a campanha confirmou que o comício foi organizado pelo grupo que se intitula “Elas com Crivella”, e que não teve participação na organização. Porém, a campanha afirma ter pago um aluguel pelo espaço de R$ 17 mil e que em breve o valor será lançado no sistema eleitoral.

Ataques a Lula, Martha e Paes

A nacionalização da eleição tomou o debate nas mais de duas horas de comício, e até a disputa americana foi tema das falas. Os discursos pró-Crivella eram baseados principalmente nas ações da prefeitura no combate à Covid-19, como a compra de equipamentos, que ocorreu antes da pandemia. Mas o que uniu praticamente todos que discursaram foram os ataques contra os candidatos do DEM, Eduardo Paes, e do PDT, Martha Rocha.

— Ela (Martha Rocha) é tão humilde, ela tem cara de uma senhora que parece uma religiosa. Ela é tão humilde que se assumir a prefeitura do Rio não vai ver nada de errado. Sabe por que? Ela foi chefe de polícia do Cabral e nunca viu nada de errado dele. Onde estava a inteligência da Polícia Civil? — discursou o deputado Capitão Paulo Teixeira (Republicanos).

É com Martha Rocha que Crivella disputa a ida ao segundo turno. Segundo a última pesquisa Datafolha, divulgada na última quarta-feira, o prefeito aparece em segundo lugar nas intenções de voto com 16%, mas está tecnicamente empatado com a deputada estadual, que possui 14%

A chuva fina que caiu na região foi o suficiente para atrasar o início do comício, marcado inicialmente para as 19h. Enquanto o público olhava para as 30 cadeiras vazias que estavam no palco, as caixas de som embalavam duas músicas ao ritmo de funk — nenhuma delas é o jingle oficial da campanha. Uma foi gravado na rua durante uma agenda com o Bispo Inaldo Silva (Republicanos) há algumas semanas e estava sendo usado repetidamente pelo prefeito em suas caminhadas. A outra é uma paródia de “Oh Juliana” que tem como alvo Eduardo Paes (DEM): “Esse cara é 171 e em bandido não voto não / Conhecido como o tal nervosinho/Dudu Ladrão/Diz o carioca que vai te dar uma lição/Cuidar do nosso Rio só tem uma opção / Oh Eduardo o que tu quer de mim? / Já falei que sou Crivella e não vou mais no seu papim (sic)”.

Entre os convidados da noite, foi com o ex-deputado Roberto Jefferson o abraço mais longo e caloroso do prefeito. O PTB chegou a lançar a ex-deputada federal Cristiane Brasil, filha de Jefferson, para disputar a Prefeitura do Rio, mas ela foi presa no fim de setembro e o partido desistiu de sua candidatura. Cristiane Brasil é acusada de se beneficiar de um esquema de pagamento de propinas de prestadoras de serviço na área social da prefeitura e do estado. A ex-deputada foi solta no dia 15 de outubro.

— Do que carece o Brasil? Mais que saneamento, asfalto, enfeitar praça? Moral. E moral não é discurso, é prática, e Crivella pratica. E como crente e homem de Deus, faz em silêncio e humildade.

Crivella tenta se consolidar entre o eleitorado conservador. No comício, diversas falas citaram que ali só estavam “os convertidos” e era o público que poderia virar votos dos indecisos até o dia da votação .