Com África dependendo de 50% do trigo russo e ucraniano, presidente da União Africana diz a Putin que continente é 'vítima' da guerra

Com partes do continente já tendo que enfrentar diferentes crises, como guerras civis, seca, ataques jihadistas, golpes militares, as consequências das mudanças climáticas e da Covid, tudo que a África menos precisava era de uma nova. Então, a Rússia invadiu a Ucrânia — desencadeando uma crise alimentar internacional.

Guerra dos grãos: EUA acusam Rússia de impedir exportações e usar alimento como arma

Cem dias de guerra: O que pode encerrar o conflito na Ucrânia?

Alerta: Guerra na Ucrânia tem duro impacto na África, trazendo risco de aumentar fome e instabilidade social

A situação levou Macky Sall, presidente da União Africana (UA) e do Senegal, a pedir nesta sexta-feira ao líder russo, Vladimir Putin, que "tome consciência" de que os países africanos são "vítimas" da guerra na Ucrânia. O continente africano importa cerca de 44% do trigo da Rússia e da Ucrânia, além de outros produtos, como fertilizantes e outros grãos. Na reunião a portas fechadas, a expectativa era que Sall solicitasse a Putin que levante o bloqueio de suprimentos da Ucrânia.

O Banco Africano de Desenvolvimento afirmou em abril que a guerra na Ucrânia elevou o preço do trigo em 60% na África e que o continente perderá até US$ 11 bilhões em alimentos devido ao conflito. A produção de alimentos pode cair em 20%, porque os agricultores estão tendo que pagar 300% a mais pelo fertilizante importado

— Vim aqui para pedir que tome consciência de que nossos países, mesmo distantes do teatro [da guerra], são vítimas econômicas desta crise — disse Sall no início de uma reunião entre os dois chefes de Estado em Sochi, no Sul da Rússia.

Países como Moçambique, Togo e Quênia dependem em cerca de 40% do trigo dos países em guerra. Outros como Tanzânia, Madagascar e o Senegal, de Sall, dependem em 60%. No Egito, essa taxa sobe para 80%.

A Somália e o Benin dependem da Ucrânia e da Rússia em 100% de seus suprimentos de trigo.

'Golpe constitucional': Como presidentes na África vêm alterando a Constituição para não sair do poder

Na quinta, o Chade declarou uma "emergência alimentar" por causa da "constante deterioração da situação nutricional" devido à guerra na Ucrânia. Em 2021, mais de um terço de sua população — 5,5 milhões de pessoas — já precisava de "ajuda humanitária urgente", segundo a ONU.

Putin, que convidou Sall para o encontro, não abordou o assunto antes da reunião. O Kremlin afirmara anteriormente que a conversa se trataria "da interação da Rússia com a União Africana, incluindo a ampliação do diálogo de cooperação política, econômica e humanitária".

Moscou vem estreitando seus laços com diversos países da África no decorrer dos anos, principalmente por meio do comércio de armas, o envio de mercenários, acordos comerciais e investimentos em setores como de cereais, energia e minerais.

Mais de um terço das armas que a África compra vem da Rússia, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, fazendo de Moscou o principal fornecedor do continente. Pelo menos 17 países africanos já tiveram mercenários russos identificados em seus território entre 2016 e 2021, de acordo com o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. No fim de abril, Camarões assinou um acordo de cooperação militar com a Rússia.

Em meio a essa crescente influência, que incomoda países do Ocidente — particularmente a França, que viu seu apoio ser varrido em ex-colônias, como o Mali —, a Rússia consegue também se beneficiar. Um exemplo foi a votação na Assembleia Geral da ONU que condenou a invasão na Ucrânia — na qual cerca de metade das nações africanas se abstiveram ou estiveram ausentes.

Mas agora a África está pagando um preço alto pela guerra, em uma crise na qual os Estados Unidos acusam a Rússia de impedir as exportações da Ucrânia e de utilizar os alimentos como uma arma. Moscou, por sua vez, acusa Kiev de instalar minas nos portos, afirmando que o cenário é produto também das sanções impostas pelos EUA e pela União Europeia.

Putin chegou a afirmar que a Rússia estaria pronta para ajudar a resolver a crise alimentar internacional — mas desde que o Ocidente suspenda as sanções. A ONU confirmou nesta sexta que conduz intensas negociações para reabrir os portos ucranianos no Mar Negro, a fim de mover dezenas de milhões de toneladas de cereais ucranianos, mas sem dar detalhes sobre as conversas.

Enquanto isso, a crise afeta diferentes países já atingidos por uma série de fatores. No Chifre da África, uma "seca severa", agravada pela pandemia e conflitos, já deixou mais de 14 milhões de pessoas — cerca de metade delas crianças — enfrentando a fome.

O Programa Mundial de Alimentos prevê que entre 7 e 10 milhões de pessoas na África Ocidental podem ficar em situação de insegurança alimentar por causa das implicações da guerra, calculando que 33,4 milhões devem precisar de assistência alimentar entre junho e agosto deste ano.

"As previsões de insegurança alimentar para a África Ocidental e a região do Sahel eram preocupantes", escreveram três especialistas do Banco Mundial. "A alta incidência de insegurança alimentar na região está enraizada em uma combinação de desafios estruturais – como fragilidade, altos níveis de pobreza, mudanças climáticas e degradação ambiental – e baixa produtividade agrícola. As sucessivas ondas da pandemia e os impactos associados nas cadeias de abastecimento agravaram a situação da segurança alimentar na região."

Na prática, um dos efeitos mais visíveis na África Ocidental é no aumento do preço do pão. Em Burkina Faso, padeiros entraram em greve no mês passado após o governo fechar padarias que aumentaram o preço de uma baguete. Na Costa do Marfim, os trabalhadores diminuíram o tamanho da baguete diante do aumento dos custos do trigo.

Radicalização: Estado Islâmico amplia operação na África e número de ataques, que ameaçam civis, dispara

Na Nigéria, a inflação anual dos alimentos foi de 17,2% em março, com os preços do pão, arroz e inhame disparando em mais de 30%. Na Somália, o preço de um recipiente de 20 litros de óleo de cozinha saltou nos últimos meses de R$ 158 para R$ 271. Na Gâmbia, um supermercado informou à revista African Business que o preço da farinha de trigo aumentaram 15% em um ano, enquanto o do óleo de cozinha cresceram um terço.

Mesmo assim, Sall, o presidente do Senegal e da União Africana, disse que saiu "tranquilo" de sua reunião com Putin, afirmando que considerou o líder russo "comprometido e consciente de que a crise e as sanções criam sérios problemas nas economias mais fracas, como as da África".

— Saímos daqui muito tranquilos e felizes com nossa conversa — disse Sall após a reunião de três horas.

Enquanto Sall está tranquilo, em Camarões o padeiro Sylvester Ako viu sua clientela diária cair de 300 pessoas por dia para apenas 100 desde que os preços do pão aumentaram 40% devido à falta de importação de trigo.

* Com informações do New York Times

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos