Com 50% dos votos apurados na Bolívia, Evo e opositor estão empatados

SYLVIA COLOMBO
SÃO PAULO, SP, 20.10.2019 - BOLÍVIA-ELEIÇÕES - Bolivianos residentes em São Paulo votam no ISFP, no bairro do Pari, para o primeiro turno das eleições gerais na Bolívia. (Foto: Ricardo Matsukawa/Folhapress)

LA PAZ, BOLÍVIA (FOLHAPRESS) - Com pouco mais da metade dos votos apurados na Bolívia (53,46%), até as 18h locais (19h em Brasília), o atual presidente e líder indígena de esquerda Evo Morales e o segundo colocado na disputa presidencial, o centro-esquerdista e ex-presidente Carlos Mesa, estavam tecnicamente empatados. Evo tinha 42,51% contra 42,44% de Mesa.

Os bolivianos viveram 24 horas de tensão e expectativa. Quando foram dormir, no domingo (20), após a eleição, já tinham como fato consumado um resultado inesperado. Pelos números oficiais divulgados pelo órgão eleitoral até às 22h40 locais (23h40 no Brasil), já tinham sido computados mais de 80% dos votos e era quase certo que haveria um segundo turno.

Já a manhã desta segunda-feira (21) foi de espanto e preocupação. Durante toda a noite, nenhum voto mais havia sido computado e a contagem oficial, que vinha sendo feita por meio das atas (fichas com o resumo dos votos de cada mesa), tinha sido suspensa. No momento da interrupção, elas marcavam 45,28% de Evo, contra 38,16% de Mesa.

Na Bolívia, para ser eleito em primeiro turno, o candidato precisa ter 50% dos votos mais um, ou 40%, desde que com dez pontos percentuais de diferença com o segundo. Portanto, o resultado divulgado até então dava segundo turno, marcado para 15 de dezembro.

O tribunal eleitoral, porém, explicou que tinha cancelado a contagem da véspera porque uma segunda apuração, paralela à que estava sendo divulgada e que computava os votos por outro método (um por um), estava mostrando resultados diferentes.

Houve um princípio de confusão, alguns buzinaços pela cidade, gente caminhando nas ruas com a bandeira laranja usada na campanha de Carlos Mesa. Do lado de fora do Palácio Quemado, sede do governo, havia apoiadores do governo com bandeiras do partido de Evo Morales, o MAS (Movimento ao Socialismo).

Mesa reuniu a imprensa local e estrangeira no hall de um hotel de La Paz, às 10h (11h no Brasil) para dizer que o governo estava montando uma “fraude”, que o resultado claro era que “haveria um segundo turno” e que a interrupção na contagem era apenas uma justificativa “para ganhar tempo e inventar novas desculpas para inventar uma vitória no primeiro turno”.

Além disso, Mesa convocou a militância a sair às ruas de modo pacífico e à comunidade internacional a “acompanhar de perto” a contagem. "Há segundo turno e estamos nele."

Em entrevista à reportagem, o ministro das comunicações, Manuel Canelas, disse que a interrupção da contagem na noite anterior havia sido “um erro”, mas que agora todos deveriam se concentrar na nova contagem, a tal que seria feita voto a voto, e que, portanto, demoraria mais.

“O órgão eleitoral errou ao não deixar claro que havia duas contagens. Uma vez que percebeu que a contagem dos votos estava dando outro resultado, resolveu interromper a das atas, para não causar confusão. Mas foi um erro, porque está dando à oposição espaço para dizer que houve uma fraude”, resumiu Canelas.

Assim como havia dito Evo Morales na noite anterior, em discurso no Palácio Quemado, Canelas confirmou que o governo boliviano estava convencido de que ganharia no primeiro turno. “Os votos rurais demoram mais em chegar, ainda não estão computados, e em geral são votos mais pro-Evo. Por isso estamos confiantes numa vitória no primeiro turno”, disse.

Mesa se opôs a essa “narrativa do voto rural”, dizendo que o órgão eleitoral já tinha todos os votos e que o estava divulgando seletivamente.

Em apoio a Mesa, o ex-presidente de direita Jorge Quiroga disse que “falar de voto rural hoje como se fosse algo que vem a cavalo e demora dias para chegar é uma enganação. Estamos na época do WhatsApp, há smartphones e computadores na Bolívia, Evo usa uma desculpa de mais de 20 anos atrás. Isso é história para ganhar tempo e inventar um modo de fraudar a eleição.”

O novo método, de fato, é mais lento, os resultados vão saindo a conta-gotas e ainda podem demorar horas ou mesmo dias. Em caso de haver de fato segundo turno, os candidatos que estão em terceiro e quarto lugar, o pastor evangélico de origem coreana Chi Hyun Chung e o senador de direita Óscar Ortiz, já declararam que apoiarão Carlos Mesa.