Com 70% dos leitos de UTI ocupados, ES ainda vê cenário controlado com coronavírus

FERNANDA CANOFRE
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BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - O Espírito Santo ultrapassou a barreira de 70% de ocupação dos leitos de UTI reservados a casos suspeitos ou confirmados de infecção pelo novo coronavírus na quinta-feira (30). Das 238 vagas da rede estadual, 171 estavam ocupadas. Os números acenderam o alerta no governo de Renato Casagrande (PSB). Ainda que a situação siga dentro das projeções feitas, mesmo com o estado ampliando leitos (28 entre quinta e sexta), a taxa de internações em UTI se mantém --ficou em 68,8% nesta sexta, praticamente estável em relação a quinta. Enquanto na Grande Vitória e em outras regiões consideradas de risco alto apenas o comércio essencial está autorizado a funcionar, o isolamento social registrado nesta semana no estado foi de 46%. "Precisávamos no mínimo de 50% de isolamento social", afirmou Casagrande em transmissão nas redes sociais na quinta. "A demanda está muito forte. O número de pessoas procurando o sistema de saúde para internar, especialmente em UTI, está muito alto". Com uma população de pouco mais de 4 milhões de habitantes, segundo o IBGE, o ES chegou a 2.913 casos confirmados e 101 mortes nesta sexta. A cada quatro pessoas investigadas para a doença, uma tem teste positivo, diz o governador. Com um plano de expansão de leitos dividido em cinco fases, ativadas conforme a evolução da pandemia, o estado acelerou obras em hospitais e decidiu contratar leitos na rede privada, caso necessário, ao invés de criar hospitais de campanha temporários. A segunda fase do plano de contingência, elaborado ainda em fevereiro, foi iniciada esta semana. Ela deve dobrar o número de leitos de UTI e enfermaria. A estimativa inicial era que a aceleração da curva de casos aconteceria entre abril e maio, com a crise se estendendo até junho. As restrições adotadas ajudaram a postergar o pico. "Nós estamos inaugurando fases que nos estão garantindo uma adequada capacidade de administração da crise no estado", avalia o secretário de saúde, Nésio Fernandes de Medeiros Junior. Com a capacidade baixa nos necrotérios dos hospitais de referência, também foram adquiridos dois contêineres com câmaras refrigeradas, capazes de receber de quatro a seis corpos. Eles foram colocados no Hospital Jayme Santos Neves. Como um paciente suspeito ou confirmado da Covid-19 mexe com a estrutura do local onde chega para ser atendido, pelo risco de contágio, o governo também vai adotar um novo protocolo para triagem de quem precisa de internação e quem pode se recuperar em casa. Pacientes acima de 45 anos que busquem unidades de pronto-atendimento com tosse, febre e comorbidades serão submetidos a teste rápido --84% dos pacientes se encaixam nesse perfil. Se o resultado for positivo e a frequência respiratória for adequada, ele é encaminhado para casa e acompanhado pela vigilância. Caso mude o quadro, é internado. "A estratégia não é só ter leitos e ventiladores. É ter uma capacidade de organização do fluxo em todos os níveis de atenção", diz o secretário. Apesar do colchão de segurança pela antecipação de ações, há relatos de racionamento de materiais e falta de EPIs (equipamentos de proteção individual) em instituições de saúde, segundo o Coren-ES (Conselho Regional de Enfermagem) e o CRM (Conselho Regional de Medicina). O governo nega e diz que um milhão de EPIs foram distribuídos na metade de abril, como luvas, aventais, álcool em gel. Um carregamento com 1,5 milhão de máscaras chegou na quarta-feira ao estado. O Coren recebeu 102 denúncias sobre falta de EPIs entre 25 de março e 29 de abril, nas redes pública e privada, e apurou 95 delas. Em 35 instituições ficou constatada a falta ou dificuldade para acesso a EPIs, principalmente máscaras e capotes. Em 50 instituições, os fiscais constataram que a equipe de enfermagem não havia recebido treinamento para atender pacientes da Covid-19. Citando dados do governo, o conselho diz que 868 profissionais da saúde estão entre os casos confirmados no estado. "As máscaras N95 estão sendo utilizadas com prazo muito estendido, há recomendação aqui para que tenham que durar até 30 dias", diz Paulo Gouvêa, conselheiro do CRM. Em condições normais, a vida útil de uma máscara do tipo é um turno. Gouvêa reforça, porém, a percepção de que a situação segue sob controle dentro de hospitais e outros locais de atendimento no estado. Segundo Casagrande a maior dificuldade hoje é com relação a respiradores e habilitação de leitos. Com uma população cerca de cinco vezes menor que Minas Gerais, o Espírito Santo passou os números de mortos e casos confirmados do estado de Romeu Zema (Novo) nesta quinta. "Eu olho para Minas Gerais, aqui do lado, que tem poucos casos confirmados, poucas mortes de Covid, olho para nosso estado também. Será que é isso mesmo ou é subnotificação?", questionou Casagrande na transmissão ao vivo de quinta-feira. "A gente hoje pode ver um ou outro estado que está bem, mas daqui a pouco pode não estar".OL