Com 96 afastados da UTI por Covid na pandemia, HC de Ribeirão Preto vê dobrar procura por psicólogos

MARCELO TOLEDO
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RIBEIRÃO PRETO, SP (FOLHAPRESS) - O avanço dos casos de Covid-19, além de sobrecarregar a estrutura das UTIs do HC (Hospital das Clínicas) de Ribeirão Preto, tem feito com que cada vez mais servidores procurem ajuda psicológica para superar a ansiedade causada pela pandemia do novo coronavírus. Principal referência em saúde num raio de 200 quilômetros no interior paulista, o HC viu 96 funcionários serem afastados das UTIs por terem contraído Covid-19 num período de 12 meses, entre março de 2020, quando a cidade registrou os primeiros casos e mortes, e fevereiro deste ano. Eles fazem parte de um total de 573 licenças envolvendo servidores que atuam nas UTIs de atendimento a casos de Covid-19. Ou seja, os afastamentos provocados pelo novo coronavírus representam 16,75% do total. No mesmo período, 46 servidores que atuavam em leitos intensivos para atender vítimas da pandemia pediram demissão, o que corresponde a 15% do quadro de 305 funcionários. Entre os motivos dos pedidos de saída está o medo de trabalhar no setor, segundo o superintendente do HC, Benedito Carlos Maciel. "Houve demissões para [o funcionário] não trabalhar em área Covid-19, mas não dá para atribuir o total a nenhuma causa específica. Quando comparamos o cenário da Covid-19 dentro do hospital, a maior proporção de casos está fora da área Covid, porque dentro dela as equipes se cuidam muito mais", afirmou. Na unidade hospitalar, houve aumento de 100% de pedidos de consulta na psicologia de uma quinzena para outra, no último mês, motivados por ansiedade causada pelo trabalho por causa do longo período da pandemia e estresse por perda de algum familiar ou amigo por Covid-19. O fenômeno não é exclusivo do HC de Ribeirão, vinculado à USP (Universidade de São Paulo). No HCPA (Hospital de Clínicas de Porto Alegre), na capital gaúcha, a procura pelo serviço de atendimento psicológico por seus funcionários quadruplicou durante a pandemia. Segundo o hospital, foram 4.467 consultas psicológicas individuais, presenciais ou a distância, nos últimos 14 meses, incluindo para pessoas na linha de frente anti-Covid-19. Em 2019, sem a pandemia, foram 1.088. "Aqueles que procuram ajuda temos estrutura para atender, conversar, até afastar em casos mais graves. Tentamos resolver da melhor maneira possível. Não é uma situação muito fácil, porque está todo mundo esgotado", disse o superintendente do HC de Ribeirão. Ele afirmou que, apesar das dificuldades, tem percebido um forte engajamento dos funcionários, inclusive durante a decretação do lockdown na cidade, entre os dias 17 e 21 de março, período em que o transporte coletivo, meio utilizado por ao menos 1.300 servidores do hospital, deixou de operar. "Entramos em pânico por pensar como os funcionários conseguiriam chegar, mas eles se organizaram e vieram, demonstraram como se empenham. O hospital não pode parar, principalmente num momento como esse." O cenário é crítico no hospital, tanto na unidade campus quanto na de emergência. Dos 72 leitos de UTI existentes para Covid-19, só 2 estavam disponíveis nesta terça-feira (31). Na enfermaria, as 32 vagas estavam ocupadas. No dia anterior, porém, o quadro era ainda pior, pois não havia nenhuma vaga em UTIs, cenário que tem se repetido com frequência em outros hospitais de Ribeirão Preto. Com 292 vagas existentes para pacientes com Covid-19 no total, 273, ou 93,5%, estavam ocupadas nesta terça. "Há pessoas que estão subestimando a doença, colaborando para que outras que estão adotando as medidas corretas fiquem doentes e paguem por essas pessoas. Muito difícil como prefeito tomar as medidas restritivas que estamos tomando, mas não há outro caminho nesse momento. Se as pessoas não adotarem as medidas corretas, as práticas sanitárias, vamos ficar enxugando gelo", disse o prefeito de Ribeirão, Duarte Nogueira (PSDB). O total de UTIs existentes hoje na cidade supera o maior número de 2020, registrado em 4 de agosto, com 245 vagas. O aumento gradativo a partir de janeiro se deu devido à gravidade do atual momento, atribuído à circulação da variante brasileira. Por isso, nos dois próximos finais de semana, só poderão funcionar na cidade atividades emergenciais das 20h de sábado às 5h de segunda. Supermercados poderão atender apenas por delivery. "Precisamos que aqueles cinco dias [de lockdown] tenham uma janela de oportunidade agora para avançar mais. Em Araraquara [que fez lockdown de dez dias a partir de 21 de fevereiro], a partir do 13º dia a cidade começou a perceber queda de internações. A última coisa que aparece é a diminuição no número de óbitos", disse Sandro Scarpelini, secretário da Saúde de Ribeirão. Um outro problema que atinge o HC local é a dificuldade para contratar servidores. Em média, o hospital registra 360 pedidos de demissão por ano, mas não consegue preencher todas as vagas. "Das 360, autorizaram [o estado] 166. Não estamos conseguindo repor. Vamos correndo, tentamos contratar", disse o superintendente. Maciel afirmou que até seria possível ampliar mais 10 vagas de UTI, mas as dificuldades são a contratação de médicos e a remoção de pacientes de outras áreas. "Para ampliar, teríamos de fechar leitos de outras áreas não Covid-19, com pacientes que estão em estado grave também."