Com ajuda de Covas e Doria, vereador de SP amplia 'Miltonlândia'

ARTUR RODRIGUES
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*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 02.01.2017 - Milton Leite, vereador durante entrevista em seu gabinete. (Foto: Avener Prado/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 02.01.2017 - Milton Leite, vereador durante entrevista em seu gabinete. (Foto: Avener Prado/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Desculpe o transtorno. Estamos trabalhando para melhorar seu bairro. Família Milton Leite", diz a faixa, no muro de um bairro do extremo sul de São Paulo.

É praticamente impossível andar pelos diversos distritos da zona sul sem encontrar propaganda do vereador Milton Leite (DEM), muitas vezes perto de obras da prefeitura recém-realizadas ou em andamento.

Principal aliado no Legislativo do prefeito Bruno Covas e do antecessor, João Doria, ambos do PSDB, Leite amplia seu poder por meio da canalização de centenas de milhões de reais em verbas estaduais e municipais para obras no ano eleitoral em seus redutos. Tudo amplificado pela campanha a vereador mais cara do Brasil.

O resultado é que, em algumas áreas mais distantes, o nome de Leite é mais conhecido que os de candidatos a prefeito. Se algumas partes do extremo sul ficaram conhecidas como "Tattolândia", pela influência da família dos irmãos Tatto do PT, essas áreas hoje foram engolidas por uma região mais abrangente, a "Miltonlândia".

Ex-presidente da Câmara paulistana, Leite foi o articulador político de Doria e seu cabo eleitoral na periferia. Com Covas, não foi diferente.

Ele indica cargos no Executivo e influencia nas políticas, principalmente quando relacionadas a empresas de ônibus, das quais é próximo. Na campanha, foi um dos que participaram da escolha do vereador Ricardo Nunes (MDB) para vice na chapa do prefeito.

Uma das maiores vitrines propagandeadas por Leite foi o anúncio da duplicação da estrada do M'Boi Mirim, uma obra de DER (Departamento de Estradas de Rodagem), do governo Doria, em convênio com a prefeitura, que vai receber investimentos de R$ 446,8 milhões.

O DER está sob o guarda-chuva da Secretaria de Estado de Logística e Transporte, cujo titular é João Octaviano Machado Neto, uma indicação de Leite.

Embora o edital tenha sido paralisado pelo TCE (Tribunal de Contas do Estado), o anúncio já foi capitalizado por Leite em sua propaganda.

"Por se tratar de uma SP [SP 214], eu fiz o pedido ao governador João Doria e estava com ele no dia do lançamento do projeto", afirmou Leite, acrescentando que é um compromisso de campanha do governador. Outro pedido de Leite a Doria, diz ele, foi a retomada das obras da estação Varginha, da CPTM.

Na esfera municipal, as subprefeituras em reduto eleitoral do vereador também têm sido mais contempladas. Para se ter uma ideia, a regional de Parelheiros, um dos principais redutos de Leite, já teve R$ 98 milhões em verbas liquidadas ainda antes das eleições, um aumento de 287% em relação ao total do ano passado.

Parelheiros se tornou, neste ano, a subprefeitura com mais verbas, acima da Sé. Cidade Tiradentes (zona leste), mais populosa e também em área pobre, recebeu 20% do enviado à subprefeitura de Parelheiros. Outras regionais na área de influência de Leite também estão entre as que tiveram mais dinheiro.

O vereador não vê injustiça na distribuição. "A destinação de verbas para Parelheiros corrige injustiça histórica na distribuição de recursos. Há desequilíbrio entre a média de investimentos na região por km², per capita e também de IDH [Índice de Desenvolvimento Humano]".

A reportagem circulou por diversos bairros e ouviu de moradores que nos últimos meses as obras de zeladoria da prefeitura começaram a pipocar.

Não raro, dizem, aparecem junto as faixas com a imagem da família de Milton Leite, composta também pelos filhos Milton Leite Filho, deputado estadual, e Alexandre Leite, federal, todos do Democratas.

A 42 quilômetros da praça da Sé, o bairro de Colônia é um dos pontos em que o combo de faixas e obras de zeladoria proliferaram no ano eleitoral.

Após um abaixo-assinado entregue à equipe de Milton Leite, uma viela foi reformada bem em frente ao comércio de Cleide da Silva Irênio, 42. Depois, diz ela, apareceu também uma faixa com a imagem da família.

Segundo ela, a obra era uma demanda de mais de três anos, que só foi concretizada há poucos meses. "Aqui nunca não aparece ninguém, só em época de eleição. Mas também tenho que dizer: ele [Leite] foi o único que fez, pois outros prometeram e não fizeram", diz.

Perto dali, no bairro de Vargem Grande, várias ruas estão sendo calçadas com pedras. Nos muros, há outra variação de publicidade, dizendo que os moradores agradecem a Leite e a Covas pelas obras.

Segundo o advogado Amilton Augusto, especializado em direito eleitoral, a publicidade que liga um candidato a obras pode incorrer tanto em irregularidades eleitorais, como propaganda irregular e eventual abuso de poder político, quanto em improbidade administrativa, uma vez que fere o princípio da impessoalidade.

Contudo, segundo ele, geralmente é difícil provar o vínculo.

Milton Leite, por sua vez, disse desconhecer as placas e afirmou que, "se existem, é dever da subprefeitura fiscalizar e retirar".

Aos moradores, soa insólita a possibilidade de alguém pagar do próprio bolso para agradecer a um político, ainda mais usando faixas padronizadas que se repetem por vários bairros.

A imagem do parlamentar passa por uma propaganda massiva, que se alastra por muros, casas, pontes, postes e canteiros de avenidas. Também há publicidade de vereadores petistas, como os irmãos Arselino e Jair Tatto, Alfredinho e Reis, mas em menor escala e em território limitado.

Funcionário de um bar com cartazes de apoio ao vereador, Everton Siqueira, 33, diz que aceitou o material de campanha porque um conhecido pediu. Ele admite que ali a população conhece mais Leite que os candidatos a prefeito.

Além de faixas cartazes, a reportagem viu dezenas de pessoas segurando placas com o nome de Leite. Elas dizem estar nas ruas há um mês, ganhando R$ 600 para trabalhar a cada 15 dias.

A campanha do vereador custou até agora R$ 1,8 milhão, o dobro do que gastou, por exemplo, Celso Russomanno (Republicanos), que disputa o cargo de prefeito. O candidato a vereador que chegou mais perto disso foi Cesar Maia, também do DEM, com R$ 925 mil no Rio de Janeiro.

Leite diz que o valor é compatível com o da última eleição, quando só ficou atrás do vereador Eduardo Suplicy (PT) em votação.

Agora, o vereador tenta expandir sua influência para outras regiões, como leste e norte. Questionado sobre ambições eleitorais, nega ter intenção de concorrer a cargos para o Executivo.

A gestão Doria, em nota, afirma que a presença de vereadores em anúncios públicos não significa que exerçam influência no governo.

Diz ainda ser "descabida a afirmação de influência do vereador Milton Leite nas obras de duplicação e modernização da via [M'Boi Mirim], uma vez que essas melhorias são de fato atribuições do estado".

Sobre a estação Varginha, a administração afirmou se tratar de uma demanda antiga que foi retomada em janeiro, ao custo de R$ 945 milhões.

Sobre as obras no ano eleitoral, Covas tem repetido que não pode deixar de governar no último ano.

Já a respeito da concentração de verba nas áreas de influência de Leite, a prefeitura afirmou que segue critérios técnicos. "A análise nominal de investimentos por distritos leva a distorções, pois desconsidera importantes características locais e, também, diversas outras intervenções executadas por meio do orçamento das secretarias".

Citou também que a zona sul é densamente povoada e a de maior extensão territorial, "aspectos fundamentais para o desenvolvimento de políticas públicas".