Com Alexandre Frota, PSDB abre as portas para os bolsonaristas arrependidos

Deputado Alexandre Frota durante sessão na Câmara dos Deputados


DEM e PSDB disputaram ombro a ombro o passe de Alexandre Frota, deputado federal eleito em 2018 pelo PSL de São Paulo com quase 153 mil votos (o 17º mais votado no estado).

Os tucanos levaram a melhor – para alegria da nova direção e risos nervosos dos velhos caciques da intelectualidade social-democrata, cuja ferida narcísica se alarga à medida que a chamada “nova política” começa a dar as caras e pautar a nova formulação do partido. O ex-ator pornô é uma dessas caras, goste-se ou não.

A filiação é um recado de João Doria e companhia de que o PSDB está de braços abertos a bolsonaristas arrependidos. Eles já formam uma fileira, e tendem a ser uma multidão até o fim do governo do capitão. Não por incompatibilidade ideológica, mas porque se tem algo que o presidente sabe fazer é dinamitar apoios e enfileirar desafetos.

A porta dos fundos de sua administração, pela qual já passou gente como o general Santos Cruz e Gustavo Bebianno, é um exemplo do presidencialismo de colisão (sic) vigente.

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Bolsonaro tende a perder mais aliados porque pensa pouco e fala muito, centraliza as decisões e deixa pouco espaço para quem tem qualquer projeção pessoal ou política além dos filhos. Frota, como muitos que se enveredaram nesse caminho, é um sujeito vaidoso e orgulhoso demais para aceitar a subserviência. Tanto que não demorou a demonstrar incômodo, o que acabou sendo fatal em seu destino na legenda.

Como esperado, Frota caiu atirando para cima. Em entrevista à Folha de S.Paulo, chamou Bolsonaro de “idiota ingrato que não sabe de nada”. Disse ainda que “aquela cadeira de presidente ficou grande pra ele e ele se lambuzou no mel da Presidência”.

O governador paulista, de olho nas duas próximas eleições, em 2020 e 2022, sabe que o Planalto é hoje um manancial de defecções e não demonstra pudor em ampliar seu arco de apoio. Frota pode não ser o herdeiro sonhado pelos tucanos de alta plumagem, mas é o que tem pra hoje: o ator, possivelmente à vontade para interpretar qualquer papel, se tornou uma figura importante nos protestos pelo impeachment e está disposto a vestir o figurino de deputado dedicado, alinhado com a agenda econômica que não faria corar os dirigentes do novo partido. Pelo contrário.

Doria já formalizou também o convite para Tabata Amaral (PDT-SP), sexta deputada mais votada por São Paulo, se filiar ao PSDB. Que ninguém estranhe se amanhã um convite parecido bater às portas de Joice Hasselman (PSL), da tropa de choque de Bolsonaro, que em 2018 abraçou o slogan Bolsodoria e com quem tem boas relações.

A estratégia, se vingar, abocanharia três dos deputados federais mais bem votados por São Paulo, uma das poucas trincheiras tucanas que sobreviveram ao tsunami de 2018. O partido elegeu naquele ano 29 deputados e nenhum deles figura entre os 20 mais votados em seu estado. Quatro anos antes, a bancada eleita tinha 54 membros.

Os democratas, por sua vez, saíram das urnas com o mesmo número de cadeiras dos tucanos (29), mas conseguiram eleger os presidentes da Câmara e do Senado e emplacaram três dos mais importantes ministros do governo Bolsonaro (Casa Civil, Agricultura e Saúde).

A tentativa de trazer Frota para o barco mostra que o partido quer expandir o eleitorado para além da imagem da velha oligarquia pefelista – embora o galanteio tenha partido de ACM Neto, mais puro representante da linhagem do velho PFL, um marco da fisiologia dos anos 1990.

Outro herdeiro com sobrenome, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, é hoje uma espécie de fiel da balança entre a agenda econômica de Bolsonaro e o destempero do chefe do Executivo. Mas, embora pudesse provocar suspiros nos representantes de mercado, está longe de ser uma alternativa viável a um cargo executivo.

A movimentação em torno de Frota é uma entre tantas demonstrações de que em política não existe espaço vazio.

Em 1998, a bancada do PFL na Câmara ostentava 105 deputados eleitos. Era, para o governo FHC, o que o PMDB foi para o PT nos anos Lula e Dilma 1.

O fim do namoro levou os petistas ao impeachment e os peemedebistas a encolherem: de 65 deputados eleitos em 2014 para 34 no ano seguinte. É neste cenário que o DEM tenta retomar o protagonismo aniquilado nos anos petistas.

Em 2014 a legenda chegou perto do volume morto ao eleger 21 deputados, e cresceria quatro anos depois. Ainda é pouco para quem quer recuperar o prestígio do passado distante, mesmo tendo lançado puxadores de votos como Kim Kataguiri, terceiro deputado mais votado do país com 465.310 votos.

O namoro não oficializado com Alexandre Frota sugere que o partido também está de olho nas defecções da barca bolsonarista. Como o partido servirá de contraponto tendo tantos nomes instalados no governo ainda é uma incógnita.

Enquanto se reorienta, seu velho aliado, o PSDB, sai na frente na disputa pelas sobras. Em 2022, isso pode fazer a diferença.