Com alta da Covid-19 e falta de políticas sociais, favelas não tem dinheiro para comida, diz presidente da Cufa

Raphaela Ramos
·6 minuto de leitura

RIO — Com o avanço da Covid-19 no Brasil, cresce também outro problema: a fome. Cerca de sete em cada dez pessoas que vivem em comunidades no país tiveram piora em sua alimentação em 2021 segundo uma pesquisa do Data Favela, parceria da Central Única das Favelas (CUFA) com o Instituto Locomotiva. Presidente da Cufa, o escritor, produtor cultural e empreendedor Preto Zezé afirma que grande parte das famílias nestas comunidades de baixa renda não têm condições de se alimentar e pagar contas básicas.

Nesse momento crítico, a CUFA, com as organizações Gerando Falcões e Frente Nacional Antirracista, lançaram o movimento Panela Cheia, iniciativa que pretende arrecadar recursos para distribuir 2 milhões de cestas básicas em todo o país.

Em entrevista ao GLOBO, Preto Zezé fala sobre a fome, os impactos da pandemia sobre as favelas, e relata a preocupação com o agravamento de problemas estruturais.

A fome está atingindo níveis muito altos no Brasil. Uma pesquisa da Rede Penssan mostrou que pela primeira vez em 17 anos mais da metade da população está em situação de insegurança alimentar. Como o senhor tem percebido esse impacto da pandemia sobre a fome?

A fome foi um item a mais. No ano passado, já tinha um número alto de desempregados, mais da metade da população da favela vivendo na informalidade e ainda sem muito conhecimento da doença. O auxílio emergencial e as doações ajudaram, mas parte tem que sair de casa justamente para manter serviços essenciais. E outra parte já é isolada socialmente, não tem acesso à água e sabão regularmente, o que impede que possam fazer o básico para se proteger, que é lavar as mãos.

Como a pandemia afetou a alimentação nas favelas?

A pandemia fez piorar a alimentação de sete em cada dez moradores. Nos últimos 15 dias, 68% relataram que pelo menos um dia faltou dinheiro para comprar comida. E a média diária de refeições caiu para 1.9. Agora, com agravamento do contágio, colapso do sistema de saúde, não estabelecimento de políticas sociais nacionais, três meses sem receber auxílio, temos um quadro de que oito em cada dez famílias nas favelas não têm condições de se alimentar, comprar material de limpeza e pagar suas contas básicas. Essas pessoas estavam recebendo doações, se não estivessem… É um quadro muito complicado.

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E também houve aumento do desemprego...

Se a gente cruza a questão da fome com a economia, na favela, 75% das pessoas que tinham seu pequeno negócio tiveram que fechar. Outra parte deixou de fazer bico, mais da metade deixou de trabalhar por 6 meses ou mais. Todo mundo está com medo de perder seu emprego. Para 78% da população das favelas, a renda é menor hoje do que antes da pandemia. Levando em conta que a maioria da favela não tem dinheiro guardado, e a maior parte do que receberam do auxílio emergencial foi para comprar comida, ou para ajudar amigos e parentes, a fome aparece no topo de prioridade dessas pessoas.

Na sua avaliação, onde erramos para atingir esse nível de retrocesso?

O primeiro erro foi ignorar a desigualdade brasileira. Desde o início da pandemia, se falava em usar álcool em gel e ficar em casa. Como, se metade não tem água, sabão e saneamento? Quando a avaliação é equivocada tudo depois vai ser equivocado. Depois foi o negacionismo da importância das questões sanitárias, a desinformação: um grande percentual de pessoas acredita que a vacina pode mexer no DNA e levar à morte. A outra é que todo mundo está elogiando o que o Biden faz nos Estados Unidos, mas ninguém diz que podemos fazer isso no Brasil também. Um grande programa de transferência de renda ou criação de renda mínima. Para salvar a economia, salvar a vida das pessoas, ajudar a ficarem em casa e manter as medidas restritivas. Se não tem economia, a saúde está em colapso, as empresas estão fechando, as pessoas vão para a rua, com risco de pegar o vírus, em vez de ficar em casa inertes e com fome.

A iniciativa Panela Cheia foi lançada essa semana, com participação da Cufa. Qual a importância de que a sociedade se mobilize?

A Cufa, com a Frente Nacional Antirracista e a Gerando Falcões lançaram esse movimento com a meta de arrecadar recursos para ajudar em média 10 milhões de pessoas. Tem apoio também da União São Paulo, e chancela da Unesco. Lançamos no sentido de produzir um sentimento de engajamento na sociedade, porque está todo mundo meio inerte. O movimento chega num momento de extrema gravidade, com milhares de mortos e impactos sociais gravíssimos se acumulando.

Iniciativas como essa têm sido suficientes, ou o que mais podemos fazer?

O estado tem que intervir de maneira articulada, coordenada, para cobrir as frentes econômica, de saúde e essa mais emergencial de alimentação. A ação da sociedade civil é para inspirar, orientar e mostrar inclusive como se faz. Se a Cufa, uma ONG, conseguiu produzir distribuição de recursos por meio de plataformas digitais, entregou alimento do extremo sul do Rio Grande do Sul até tribos indígenas do Acre e Amazonas dentro de barcos, não é possível que com esse movimento da sociedade civil organizada os governos não possam se inspirar.

Quais foram outras consequências da pandemia para as favelas?

Temos problemas estruturais agravados. Na área da saúde, milhares de trabalhadores perderam empregos porque ficaram doentes e não voltaram para a área de trabalho. Muitos, com sequelas da Covid, não estão tendo assistência no sistema de saúde que já está lotado com pessoas morrendo, além de pessoas que já tinham outras doenças. Eles também não têm seguro econômico para ficar em casa se cuidando. Na educação, a desigualdade no desenvolvimento educacional de jovens e adolescentes do Brasil já era grande, e com a pandemia aumentou. Muitos jovens estão inclusive achando que podem ficar sem aula, porque já ficaram um ano com escola fechada. Temos a emergência que é a fome, mas temos a questão de médio prazo dos impactos dos problemas acumulados estruturalmente pela Covid, muito difíceis de solucionar. Isso me preocupa demais.

O que deve ser feito para lidar com esses problemas?

O sistema de saúde já deveria estar se preparando para cuidar dessas pessoas. Precisamos de mais orçamento para o Sistema Único de Saúde. É preciso pensar uma economia baseada no cuidado. Até porque já está provado que não existe essa dicotomia de trabalho, economia e vida. A vida é que gera economia.

No Rio, os casos de Covid-19 em favelas cresceram em março mais que o dobro da média da cidade. Como o senhor vê esse impacto da doença nas favelas pelo país, e acredita que os números possam ser ainda maiores?

Com certeza. Temos casos de pessoas morrendo em casa, que não estão nem no cadastro. É muita gente se contagiando, e não estamos nem falando apenas dos trabalhadores essenciais, que são essenciais para trabalhar, mas depois vão pegar trem, ônibus, metrô, e não são prioritários para vacinar. Por exemplo, as pessoas que trabalham no supermercado, porteiros, trabalhadores de aplicativo, que estão mantendo os tais serviços essenciais andando. Temos que discutir os critérios de prioridade para vacinar, ter um olhar mais amplo.