Com anúncio conjunto, China e EUA sinalizam que vão cooperar na COP26

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***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 23.11.2016 - Ana Toni, diretora do Instituto Clima e Sociedade. (Foto: Reinaldo Canato/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 23.11.2016 - Ana Toni, diretora do Instituto Clima e Sociedade. (Foto: Reinaldo Canato/Folhapress)

GLASGOW, ESCÓCIA (FOLHAPRESS) - Uma declaração conjunta publicada pelos Estados Unidos e pela China na COP26 trouxe otimismo para as negociações da conferência da ONU, que busca concluir a regulamentação do Acordo de Paris e aumentar a ambição das metas climáticas.

O texto afirma que os países buscam responder à crise climática com ações imediatas e também "por meio da cooperação em processos multilaterais, incluindo o processo da Convenção do Clima, para evitar impactos catastróficos".

Anunciada no fim da tarde desta quarta-feira (10), a declaração foi interpretada por negociadores e observadores da COP como um sinal político de que os dois países devem cooperar para encontrar soluções para as negociações climáticas.

"A geopolítica entre os Estados Unidos e a China mudou muito desde o Acordo de Paris e este é o único tema em que estão cooperando hoje", afirmou Ana Toni, diretora do Instituto Clima e Sociedade.

Além das competições comercial e tecnológica, com a disputa pelo mercado do 5G, os dois países experimentam um aumento de tensões nos últimos anos, incluindo provocações diplomáticas e militares, principalmente na região de Taiwan e do Mar do Sul da China.

O receio entre observadores das negociações era de que esse conflito entre Pequim e Washington pudesse bloquear avanços na COP26, o que contribuiria decisivamente para o fracasso das negociações climáticas, já que os dois lideram o ranking dos maiores emissores globais de gases-estufa.

O presidente americano, Joe Biden, fez duras críticas à ausência do líder chinês, Xi Jiping, na abertura da conferência -a atitude foi interpretada nos corredores do evento como uma forma de evitar atritos.

"Acho que foi um grande erro, francamente, que a China não apareceu", disse Biden em entrevista coletiva , acusando o rival de "virar as costas" ao "gigantesco" problema que o planeta enfrenta.

"É realmente encorajador ver que os países que estavam em desacordo em tantas áreas, em um relacionamento muitas vezes acrimonioso, encontraram um terreno comum em um assunto que transcende tudo o mais, e esse é o da crise climática. Este é um sinal muito poderoso", disse o vice-presidente da Comissão Europeia (o braço Executivo da União Europeia), Frans Timmermans, na COP26. "Está tendo um impacto nesta conferência, nos ajuda a chegar num acordo", avaliou o holandês, principal autoridade climática dentro da burocracia europeia.

Além de reafirmar compromissos já declarados pelos países em abril, o novo texto traz um novo anúncio do lado chinês: a eliminação das importações ligadas ao desmatamento.

"Os dois países pretendem se engajar de forma colaborativa no apoio à eliminação do desmatamento ilegal global por meio da aplicação efetiva de suas respectivas leis de proibição de importações ilegais", diz a declaração conjunta.

No ano passado, a China já havia anunciado que passaria a exigir a rastreabilidade da soja brasileira para evitar a importação de produções ligadas a desmatamento. Com o anúncio desta semana, o país indica que deve ampliar a exigência para outras cadeias com alto risco de desmatamento -a principal delas é a pecuária.

"Os dois são nossos maiores parceiros comerciais, então é muito importante para a perspectiva brasileira que ambos estejam falando com uma mesma voz, em vez de jogar um contra o outro", avalia Toni, citando os compromissos conjuntos citados na declaração para a redução das emissões de metano e a eliminação das importações ligadas a desmatamento ilegal.

Com 16 itens, a declaração reafirma o compromisso de cooperação para a implementação das metas climáticas, anunciado pelos dois países no último abril, incluindo de políticas de incentivo, regulamentação e investimento tecnológico.

O texto também reforça metas individuais de cada país, como o plano americano para redução de emissões de metano e o objetivo da China de reduzir o consumo de carvão a partir da segunda metade desta década.

Por outro lado, uma outra reafirmação gerou decepção para a COP26. O texto reforçou a importância da entrega dos US$ 100 bilhões de financiamento climático, prometido pelos países ricos em 2009 e que não deve ser inteiramente arrecadado antes de 2023, segundo análise da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Durante a conferência em Glasgow (no Reino Unido), os países ricos tem sido pressionados a aumentar o financiamento climático para a casa dos trilhões. Nações em desenvolvimento tem colocado o tema como uma pré-condição para se comprometerem com metas climáticas mais ambiciosas.

Os anúncios feitos na COP26 ainda colocam o mundo em uma rota de aquecimento superior a 2,4ºC, enquanto a ciência climática indica 1,5ºC como um limite mais seguro para evitar cenários catastróficos.

A jornalista viajou a convite do Instituto Clima e Sociedade.

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