Com Anhembi ameaçado e Anhangabaú sob mudança, legado de seu autor é objeto de exposição

GUILHERME SETO
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 26/06/2019: Fotos do complexo do Anhembi, na zona norte de São Paulo. Na foto pavilhão de exposições. (Foto: Jardiel Carvalho/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um banco de praça, uma árvore frondosa, pássaros, uma roda de conversa com jovens interessados em discutir as cidades.

Esse singelo projeto pessoal do urbanista e arquiteto ítalo-brasileiro Jorge Wilheim (1928-2014), responsável por obras como a construção do parque Anhembi e as reurbanizações do Páteo do Colégio e do Vale do Anhangabaú, servirá de guia para a exposição “Conversas na Praça: o urbanismo de Jorge Wilheim”, que será abrigada pelo Sesc Consolação a partir de 19 de setembro, com data de encerramento prevista para 14 de dezembro.

Por acaso, a exposição acontece no momento em que duas das obras mais conhecidas de Wilheim têm suas identidades colocadas em xeque. O Vale do Anhangabaú passa por ampla reforma feita pela prefeitura e que deverá ser entregue em 2020, e o Anhembi passará por leilão à iniciativa privada em breve —nesta quarta (14), uma primeira tentativa de vendê-lo não encontrou interessados e fracassou.

O banco da praça era um plano dos últimos anos de Wilheim, que desejava continuar em interlocução com a juventude. Dialogar com eles “para que ideias transformem mentes, pois a revolução cultural é a fonte de todas as mudanças na sociedade”, escreveu o sociólogo espanhol Manuel Castells sobre a ideia do amigo. O banco condensava a vinculação entre espaços abertos e exercício cívico que perpassa o pensamento de Wilheim.

A expografia da mostra, do arquiteto Pedro Mendes da Rocha, será em grande parte inspirada no Anhangabaú, com plotagem no solo fazendo referência às pedras portuguesas que compunham o piso do Vale —recentemente retiradas pelas obras— e diversos bancos para as pessoas se sentarem.

O andar térreo do Sesc Consolação, que costuma ser atravessado por divisórias em períodos de exposições, ficará, desta vez, aberto.

“Em nosso caso, vamos potencializar o espaço como praça pública. Vamos abrir tudo e a presença da comedoria do Sesc e do guichê é boa. Vai funcionar como uma extensão da calçada do lado de fora”, diz o arquiteto e curador da exposição Guilherme Wisnik.

A exposição terá também grande painel com uma linha do tempo pontuando a trajetória de Wilheim; uma mesa-vitrine com fotos, projetos, livros e desenhos técnicos; e quatro telas com projeções de filmes sobre os principais trabalhos do arquiteto.

A exposição projetará o raio de abrangência da atuação de Wilheim, que passou pela arquitetura, pelo urbanismo e também pela política, tendo elaborado planos diretores da cidade de São Paulo para as gestões Mário Covas (PSDB) e Marta Suplicy (PT), entre diversas outras. Foi secretário municipal de Planejamento de São Paulo em duas ocasiões (1983-1985 e 2001-2004); secretário estadual do Meio Ambiente (1987-1990); e presidente da Emplasa, empresa pública de planejamento que o atual governador João Doria (PSDB) tenta extinguir.

A ameaça ao legado de Wilheim torna o evento momentoso. Com a iminente venda do Anhembi e a reforma em processo no Anhangabaú, a exposição ganha “acento de denúncia”, nas palavras de Wisnik. “Mais do que a defesa intransigente, trata-se de colocar a discussão dos projetos.”

Tido atualmente por muitos como ultrapassado, o Anhembi foi um exercício de arrojo concebido e coordenado por Wilheim ao longo da década de 1960.

Encomendado por Caio de Alcântara Machado, o homem por trás das feiras e salões da época, a missão continha um desafio estrutural: cobrir os 67 mil m2 do pavilhão de exposições. As soluções convencionais implicavam em excesso de altura do teto ou perda de espaço com muitas colunas.

Em dezembro de 1969, a equipe liderada por Wilheim efetiva a proeza de erguer uma estrutura metálica de quase 70 mil m2, feita de tubos de alumínio, com o uso de 25 guindastes ao longo de oito horas. Era possível ver à distância uma “nuvem metálica” flutuando na zona norte da cidade. É considerada a maior estrutura metálica construída no solo e levantada em uma só peça em algumas horas.

O formato plissado da cobertura do amarelo Palácio das Convenções também se estabeleceu como marca arquitetônica do Anhembi.

No entanto, o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico (Conpresp) decidiu, em 2017, que o legado do complexo estaria suficientemente preservado por meio de documentos e preferiu não tombá-lo. Dessa forma, os empresários que assumirem o espaço poderão fazer as intervenções que desejarem.

No caso do Anhangabaú, Wilheim juntou-se aos paisagistas Rosa Kliass e Jamil Kfouri para elaborar um projeto e participar de concurso público organizado pela prefeitura. Nas palavras de Wilheim, o espaço havia se tornado “um caudaloso rio de veículos”, canalizando 1 milhão de pedestres e gerando o drama dos atropelamentos de “jovens afoitos”.

Em 1981, com um projeto que propôs a “reconquista para os pedestres de um vasto espaço central” na cidade, Wilheim vence o concurso e, anos depois, iniciam-se as obras —a reurbanização seria inaugurada apenas em 1991.

A proposta de Wilheim foi a de construir um túnel para o tráfego motorizado e, assim, afundar o “rio de trânsito”, criando no vale uma laje para circulação de pedestres —mais uma vez, uma praça pública, ampla, debaixo da qual circulavam os carros, percorrendo o eixo norte-sul da cidade.

A pavimentação foi feita com pedras portuguesas brancas e vermelhas, que compuseram por décadas a identidade visual do Anhangabaú, além de jardins, esculturas, fontes e as chamadas “ilhas”, onde até há pouco tempo alguns se sentavam e outros andavam de skate.

Isso tudo tem sido retirado pela gestão Bruno Covas (PSDB), que, com base em projeto do arquiteto dinamarquês Jan Gehl, promete entregar um vale com piso mais acessível, mais bancos, mais sanitários, além de quiosques de comércio, floriculturas e 850 pontos com jatos de água no chão.

Questionada na Justiça, a obra ficou parada por uma semana devido a liminar, mas já foi retomada.

Para a socióloga Ana Wilheim, filha do arquiteto e principal divulgadora de seu legado, a intervenção da prefeitura não foi discutida com a sociedade e por isso não tem transparência e promove a descaracterização de um espaço que se coloca como referência estética da cidade.

"As pedras portuguesas constroem uma imagem que diz 'isso é São Paulo'. Quando você homogeiniza o piso e tira uma identidade de imagem, você perde a referência que está em muitos lugares. Quando você muda as referências de paisagem você mexe com o sujeito, porque nós somos seres que nos referenciamos com os nossos sentidos: visão, cheiro, vivência", diz Ana.

"Deveriam ter feito adaptações e reformas para resolver questões, como a de acessibilidade. Sou pela preservação da memória daquilo que é referência paisagística e afetiva das pessoas. O compromisso com a cidade nasce dessas relações comprometidas com o espaço. A destruição de paisagens é também a destruição de afetos", completa.

Além do Anhembi e do Anhangabaú, Wilheim também foi autor dos planos diretores de diversas cidades. O que teve mais repercussão concreta foi o de Curitiba. Datado de 1965, ele foi a gênese do desenvolvimento da capital paranaense como cidade-modelo tal como é conhecida atualmente.

“Ele planejou dois eixos de desenvolvimento linear, que são eixos de transporte com corredores de ônibus nos quais você pode construir mais alto, pois faz mais sentido ter mais adensamento ao longo dos eixos de transporte. Ele definiu isso em 1965 e é vanguarda até hoje. O último plano diretor de São Paulo, por exemplo, tem isso”, afirma Wisnik.

O plano diretor curitibano também será abordado em diferentes frentes pela exposição com a apresentação dos projetos elaborados por Wilheim e também a exibição de uma animação sobre o tema.