Com apagão no Amapá, quilombolas perdem carne, peixe e polpa de fruta

VINICIUS SASSINE
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MACAPÁ, AP (FOLHAPRESS) - Moradores de quilombos do Amapá, um estado com dezenas dessas comunidades tradicionais, perderam carne, frango, peixe e polpas de frutas desde o apagão iniciado no dia 3, o que obrigou essas pessoas a retomarem métodos antigos de conservação dos alimentos, como salgar a carne. A persistência do apagão também levou quilombolas de volta à luz da lamparina. A falta de energia já era rotina nessas comunidades. Em um mês, nos lugares onde a eletricidade já chegou há mais de dez anos, são comuns três ou quatro blecautes, que duram dias. Agora, o apagão agravou a situação e fez com que comunidades quilombolas regredissem no usufruto de direitos conquistados ao longo de décadas. Segundo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), existem 33 processos abertos de regularização de territórios quilombolas no Amapá. Vinte deles são na própria capital, Macapá. Dos processos abertos, cinco já resultaram em titulação, o derradeiro passo no processo de regularização. A Coordenação Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) estima uma quantidade bem maior do que o número de processos abertos no Incra. Conforme a Conaq, o Amapá tem 258 áreas de quilombo identificadas. São comunidades onde os moradores carregam a ancestralidade de escravos fugidos da opressão e refugiados em regiões de difícil acesso. Vários quilombos estão bem próximos do núcleo urbano de Macapá, no próprio perímetro da cidade, com bons acessos por estrada asfaltada e de terra. Outros estão em áreas mais isoladas, de difícil acesso. Em todos eles, o apagão foi mais prolongado do que o verificado nos bairros da capital. No quilombo Conceição do Macacoari, a 60 km do centro de Macapá, o apagão durou uma semana, sem direito ao racionamento iniciado bem antes na cidade. As cerca de 40 famílias que vivem na comunidade, em casas espaçadas, só viram a luz elétrica na segunda-feira (9). O rodízio de energia, de seis em seis horas, começou a valer para a região, mas sem previsibilidade. A reportagem esteve na comunidade na noite de ontem. Havia energia quando a reportagem chegou. Poucos minutos depois, todo mundo ficou no escuro. A interrupção de energia se repetiu em todas as comunidades quilombolas mais próximas ao núcleo urbano de Macapá. Doralice Jesus Picanço, 63, acendeu as duas lamparinas que tem em casa. Ela improvisou os utensílios com frascos de desodorante. "Voltamos ao tempo antigo da lamparina. Vela está muito cara", diz ela. A vela passou a ser um item básico de sobrevivência nos bairros de Macapá e nas comunidades mais afastadas. Todo mundo reclama do preço inflacionado na pandemia, a exemplo dos garrafões de água mineral. Por isso, a empresa Sankofa Quilombo Cultural, que organizou a distribuição de cestas básicas nas comunidades quilombolas mais próximas do núcleo urbano de Macapá, incluiu kits com maço de vela, fósforo e álcool. Sem energia, não há bombeamento de água. Picanço precisa buscar água com baldes em um poço na comunidade. Um filho a ajuda na tarefa. "Com uma certa idade, ficando doente, a gente esperava viver de uma forma mais confortável. Mas não, tudo é uma dificuldade pra gente", afirma. Sobrinha de Picanço, Ana Rita, 44, já preparava polpa de bacuri -fruta típica do norte do Brasil e muito apreciada na região- para os festejos de Natal. Perdeu tudo, junto com as polpas de maracujá, mangaba e caju. Ela também perdeu carne, frango e peixe mantidos refrigerados. A comunidade vive de criação de animais e pequenas plantações. Sem energia, os moradores estão precisando voltar a usar técnicas mais arcaicas de conservação dos alimentos. "Antes, a gente tinha essas técnicas, e elas estão sendo necessárias outra vez", diz Rita. Os moradores de São José do Mata Fome, uma comunidade quilombola mais próxima do núcleo urbano de Macapá, também perderam comida em razão do apagão. "A gente armazenava galinha, carne. Estragou tudo. Agora a gente pega peixe, mas estraga, porque não dá para armazenar", afirma Raimunda Neri de Souza, 61. O rodízio de energia vem ocorrendo na comunidade. Mas, com a bomba de água queimada, os moradores precisam buscar água, com balde, num poço artesiano. "Meu braço está doído de tanto carregar água no balde", diz Souza. Para compensar a perda de alimentos, os moradores de Mata Fome vão a Macapá para comprar processados. Eles percorrem a pé a estrada de chão até chegarem à rodovia, onde pegam um ônibus. "Desde que a energia chegou aqui, eu nunca tinha passado por esse sacrifício", afirma Souza.