Com apoio eleitoral de Bolsonaro, Crivella ataca Fiocruz e libera escolas cinco dias após admitir 'hesitação'

Bernardo Mello
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Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo
Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

RIO - Às vésperas do primeiro turno das eleições municipais, o prefeito do Rio e candidato à reeleição Marcelo Crivella (Republicanos) vem alinhando o discurso de combate à pandemia da Covid-19 às ideias defendidas pelo presidente Jair Bolsonaro, de quem recebeu apoio formal na última quinta-feira. Em sabatina promovida pelo jornal "O Dia" nesta terça, Crivella atacou a Fiocruz e alegou que seus integrantes seriam "de esquerda", discurso falacioso que vem sendo reverberado pela militância bolsonarista nas redes sociais.

O prefeito do Rio também liberou nesta terça o retorno voluntário de escolas municipais a partir do 9º ano, mediante definição dos respectivos conselhos de pais e professores. A medida faz parte do chamado "período conservador" do plano da Prefeitura para retomada de atividades, que inclui também setores da economia e serviços. A fase atual já estava prevista para o começo de novembro. Há cinco dias, no entanto, durante visita à Vila Olímpica Oscar Schmidt, em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio, Crivella havia defendido que o retorno das escolas só poderia acontecer com vacina ou com "maioria sólida" da comunidade de ensino, citando inclusive riscos de judicialização.

Na sabatina desta terça, Crivella afirmou ter descumprido uma recomendação da Fiocruz para promover um "lockdown" no primeiro semestre, e afirmou que a instituição, vinculada ao Ministério da Saúde, "errou tudo" no combate à pandemia. Em maio, contudo, Crivella optou por um "lockdown parcial" em alguns pontos da cidade, após ter recebido relatório da Fiocruz que recomendava medidas mais duras de isolamento para conter o avanço de casos. Em julho, quando declarou que a "tendência" era manter a proibição de acesso às praias até que tivesse início a vacinação contra a Covid-19, Crivella destacou que a vacina "está sendo testada e pode ser produzida pela Fiocruz". A fase de reabertura iniciada nesta terça já prevê acesso às praias.

-- A partir de agora a praia está aberta, não tem mais problemas para ir à praia. Fiocruz errou tudo. Especialistas tinha eu: professores de universidades, membros da Academia Nacional de Medicina, do Cremerj, todo o meu corpo médico. O pessoal da Fiocruz é de esquerda, é o pessoal que quer derrubar o governo do presidente Bolsonaro e a economia. Não tem nada de científicos - declarou Crivella.

Em abril, após ataques da militância bolsonarista a seus pesquisadores pela falta de aval à cloroquina no tratamento da Covid-19, a Fiocruz divulgou nota afirmando que "a busca por soluções não pode prescindir do rigor científico e do tempo exigido para obtenção de resultados seguros e que as pesquisas devem se manter, portanto, fora do campo narrativo que constrói esperanças em cima de respostas rápidas e ainda inconclusivas". Atualmente, a Fiocruz colabora com estudos do Instituto Butantan, de São Paulo, para produzir a vacina Sinovac, e também atua no desenvolvimento da vacina de Oxford em outra frente.

'Repressão imensa'

Em outra sabatina nesta terça, na emissora "CNN", Crivella justificou que as medidas de reabertura foram tomadas após reunião com seu conselho científico no domingo, e alegou que a "repressão imensa" no início da pandemia teve pouca alteração na curva de casos, o que vai na contramão de estudos de autoridades científicas pelo mundo.

Na semana passada, Crivella havia admitido "hesitação" em determinar o retorno das aulas presenciais na rede municipal enquanto não houvesse vacina. O posicionamento diferia do adotado por Bolsonaro, que defendeu, em setembro, o retorno às escolas e afirmou que "não adianta se acovardar, ficar dentro de casa". Na ocasião, durante visita a uma vila olímpica, Crivella citou a morte de uma professora da rede municipal, de 27 anos, que teria sido vítima da Covid-19 após dar à luz, e afirmou que "essas notícias ainda trazem um abalo para os nossos 38 mil professores".

-- Enquanto a gente não tiver uma vacina, sempre teremos hesitação. Mesmo se eu autorizasse a volta agora, teríamos ações na Justiça, nos sindicatos... Enquanto não tiver maioria sólida para retornar, fica difícil. O ideal mesmo é que tenhamos essa vacina, e que todo o povo que queira seja vacinado -- disse Crivella na última quinta-feira.

Desde então, o prefeito já se reuniu para um café da manhã com Bolsonaro em Brasília, na sexta passada, e fez uma live nesta segunda-feira com três deputados federais que integram a base bolsonarista na Câmara: Márcio Labre (PSL-RJ), Carlos Jordy (PSL-RJ) e Otoni de Paula (PSC-RJ). Os três vinham defendendo medidas de flexibilização do distanciamento social nos últimos meses, e Otoni chegou a atacar Crivella, em maio, por "apoiar o isolamento vertical e o lockdown". Hoje, Otoni apoia a candidatura de Crivella.

A prefeitura do Rio chegou a prever originalmente a retomada das aulas presenciais na rede municipal em julho, mas Crivella voltou atrás à época alegando falta de consenso na rede de ensino. No fim daquele mês, a prefeitura reabriu refeitórios em 168 escolas em áreas mais vulneráveis, para reforçar a alimentação das crianças no período sem aulas.