Com ‘Armageddon time’, James gray critica ‘mercado todo-poderoso’ e desigualdades sociais e raciais

No início dos anos 1980, a ideia do fim do mundo como o conhecíamos parecia pairar sobre o Ocidente. A crise dos reféns na embaixada americana no Irã se arrastava perigosamente, e a então agonizante Guerra Fria ainda era motivo de tensões. Até a campanha do republicano Ronald Reagan à presidência dos Estados Unidos alertava para a ameaça de uma guerra nuclear. É desta mesma época a canção “Armagideon time”, da banda de punk rock britânica The Clash, com versos que diziam coisas como “muitas pessoas não terão jantar esta noite/ muitas pessoas não terão justiça esta noite”.

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Sim, segundo o diretor americano James Gray, aquele período turbulento, marcante de sua juventude, prenunciava transformações que levariam à sistematização das desigualdades raciais e sociais que perduram até hoje. Tais referências foram determinantes na escolha do título de “Armageddon time” (“Hora do juízo final”, em tradução livre), drama sobre amadurecimento, de inspiração autobiográfica, que estreia no país nesta quarta-feira e tem produção do brasileiro Rodrigo Teixeira.

— Minha mãe dizia constantemente que iria acontecer uma guerra nuclear. Bastava olhar os sinais em volta. O sentimento de juízo final pairava sobre a nossa família, o que, para uma criança de 12 anos, era um pouco assustador — lembrou Gray, 53 anos, durante o Festival de Cannes, onde o longa disputou a Palma de Ouro. — Mas aquele momento também foi o início da implantação da ideia do mercado como um deus todo-poderoso, que estimulou o aumento da desigualdade social. Uma questão mundial que, na verdade, começou lá atrás, por volta de 1979, 1980, um ponto de virada na História que acho bastante subestimado.

“Armageddon time” leva Gray de volta ao Queens, região que serviu de cenário para seus primeiros filmes, como “Fuga para Odessa” (1994) e “Caminho sem volta” (2000), agora resgatada por memórias mais pessoais. A trama é centrada na figura de Paul (Michael Banks Repeta), inegável alter ego de Gray, um garoto de família de classe média operária, inquieto e sonhador, e cuja maior paixão é desenhar. Seu melhor amigo é Johnny (Jaylin Webb), menino negro que sonha em ser cientista e visitar a Nasa, na Flórida. Os dois são vistos pelos professores como rebeldes, Johnny ainda mais.

Um incidente, envolvendo um cigarro de maconha na escola, acaba gerando uma crise, e os pais de Paul transferem o filho para uma escola particular. A instituição é financiada por Fred Trump (John Diehl), patriarca da família Trump, e tem como objetivo formar futuros líderes. Paul se sente um peixe fora d’água em um mundo de uniformes impecáveis, regras de comportamento rígidas e noções de produtividade que não cabem em sua imaginação fértil, e não foram feitas para estudantes como o seu amigo negro e pobre.

— Escolas como aquela são parte de uma estrutura que reforça o privilégio racial — disse Gray. — É um sistema que permite que o mesmo grupo chegue ao topo, permaneça lá, e cuide para que todos os outros fiquem de fora. É impossível olhar para o mundo, pelo menos o ocidental, ou ao menos para o meu próprio país, e não enxergar o privilégio branco como um dos mecanismos orientadores na construção da sociedade. Quebrar esse ciclo é uma questão norteadora.

Ucranianos e o Holocausto

Mesmo dentro da família de Paul, oriunda de judeus ucranianos que fugiram do Holocausto, é possível enxergar diferenças. Esther (Anne Hathaway), a mãe, é presidente de uma associação de pais de alunos e planeja concorrer ao conselho escolar local; o pai, Irving (Jeremy Strong, da série “Succession”), trabalha com consertos domésticos, um sujeito pragmático, de temperamento explosivo — especialmente em relação ao comportamento rebelde do filho e seus pendores artísticos. O único capaz de entendê-lo é o avô (Athony Hopkins), que acolhe e conforta o garoto diante dos abusos.

— A infância como algo a ser protegido é uma ideia antiga, que remonta à Inglaterra vitoriana. Ainda hoje, porém, existem crianças que crescem em condições brutais. Não consigo ver uma criança ser espancada por seus pais, mas posso dizer que isso era uma coisa comum e até um sinal de boa educação paternal — observou Gray. — Não pretendo reescrever a história e dizer que meu pai leria um livro para eu dormir, ou que me daria um doce para compensar algo que eu fizesse de errado. Devemos lembrar que, na era napoleônica, havia nos navios meninos chamados de “macacos de pólvora”, designados para carregar as armas.