Com aumento da Covid, procura de médicos pelo serviço de psicologia quadruplica em Porto Alegre

FLÁVIO ILHA
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PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) - A procura pelo serviço de atendimento psicológico no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), referência no tratamento da Covid-19 na cidade, por parte de seus funcionários quadruplicou durante a pandemia. Segundo a administração do hospital, foram registradas 4.467 consultas psicológicas individuais, presenciais ou a distância, nos últimos 14 meses, incluindo para pessoas na linha de frente anti-Covid-19 e profissionais de retaguarda que atuam no apoio das atividades intensivas. Em 2019, quando ainda não havia pandemia, foram 1.088. A demanda cresceu tanto que o HCPA precisou reforçar a equipe de atendimento com a contratação temporária de 11 profissionais da saúde mental para o setor de psicologia, que agora conta com 31 funcionários. Além disso, o hospital criou um sistema de intervenção coletiva para amenizar os impactos da pandemia em seus trabalhadores. O serviço reúne profissionais de um mesmo setor, em seus locais de trabalho, para proporcionar escuta e acolhimento. "As equipes estão muito impactadas, especialmente com o aumento de casos graves entre jovens. O trabalho se intensificou demais nas últimas semanas", disse a psicóloga Márcia Ramos, que atua na área da saúde do trabalhador do HCPA. O hospital realizou, desde abril do ano passado, mais de 500 dessas mediações, com grupos de no máximo oito profissionais a cada sessão. A média é superior a uma sessão por dia, medidas por profissionais de cinco áreas diferentes do hospital. "O pânico de contágio e, principalmente, o sentimento de culpa por levar a doença para a família são as preocupações dominantes", afirmou Ramos. A pandemia, além disso, também atua como "disparador" de fragilidades psíquicas que já existiam em alguns profissionais, mas que estavam ocultas. Uma parcela grande de queixas entre os funcionários envolve também atendimento de colegas e eventuais perdas dentro das equipes. "Ver um colega numa situação de fragilidade, ou até mesmo lidar com a perda, é muito mobilizante em termos emocionais", completou Ramos. A técnica em rouparia Alexandra Machado Schander, 36, usou o serviço de psicologia do HCPA durante seu período de confinamento. Ela contraiu Covid no final de fevereiro e ainda se recupera de uma hepatite pós-viral causada pela contaminação. Schander está há um mês em casa, sendo que, desse período, passou 15 dias isolada da família. "A solidão do confinamento é muito difícil. Tem dias que a dia gente fica pra baixo mesmo, os sintomas psíquicos mudam a toda hora. Então, falar por telefone com as psicólogas foi importante para manter a tranquilidade", disse a funcionária. Antes mesmo de contrair Covid-19, Schander já havia usado o serviço devido à sobrecarga de trabalho. O Setor de Rouparia é responsável por prover a UTI de uma almofada indispensável para a pronagem, em que os pacientes intubados são deitados de barriga para baixo, para facilitar a respiração. "Tínhamos que parar tudo para fornecer esse equipamento. O esgotamento pegou forte", completou. A rouparia do HCPA conta com 150 funcionários. Schander contou que recebia duas ligações do serviço de psicologia por semana, que duram entre 30 e 45 minutos. A conversa envolvia estratégias para driblar a saudade dos filhos e do marido, durante o confinamento, e para amenizar o sentimento de culpa que envolve os positivados, já que podem contaminar pessoas próximas. Prestes a voltar ao trabalho, a técnica em rouparia também passou a fazer consultas semanais, por vídeo, com uma psiquiatra para preparar seu retorno. A profissional quer saber as condições de saúde física e mental de Schander para esse regresso. "Querem saber se estou dormindo bem, se estou com ânimo. Durante o isolamento cheguei a pensar em me desligar, em não voltar para aquele ambiente de tensão absoluta. Mas os retornos que recebemos de pacientes recuperados são gratificantes", disse. Os pedidos de demissão no HCPA aumentaram 20,8% em 2021, segundo a Coordenadoria de Gestão de Pessoas (CGP) do órgão. Das 775 vagas temporárias autorizadas pelo MEC no início da pandemia, 150 já pediram para sair. O hospital tem 6.843 funcionários, segundo dados de 2020 da CGP.