Com aumento dos casos, vendas de remédios do ‘kit-Covid’ voltam a crescer

A procura por medicamentos sem comprovação científica contra a Covid-19, como ivermectina e hidroxicloroquina, voltou a crescer diante da nova escalada de casos da doença, mostra levantamento do Conselho Federal de Farmácia (CFF) fornecido ao GLOBO.

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De outubro para novembro, as unidades do vermífugo ivermectina vendidas, usado para piolhos e sarnas, saltaram de 793 mil para quase 1,8 milhão no país, uma subida de aproximadamente 56%. Já as compras da hidroxicloroquina, indicada para malária, foram de 89,4 mil para 97,4 mil, 8% a mais.

Os remédios integram o chamado “kit-Covid”, ou tratamento precoce, recomendado ferrenhamente pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e por profissionais de saúde alinhados a ele no auge da pandemia. Desde 2020, a hidroxicloroquina, a azitromicina, a ivermectina e a nitazoxanida, além das vitaminas C e D, saem mais rápido das prateleiras brasileiras conforme o avanço de casos do coronavírus.

Em 2021, a demanda por remédios do kit representou mais que o dobro do registrado no período pré-pandemia. Com a chegada da variante Ômicron na virada do ano de 2022, janeiro bateu 5,5 milhões de unidades vendidas de ivermectina. A demanda chegou a cair, com 676 mil caixas em abril, mas, em junho (mês com média de casos 67% maior em relação a maio), voltou a superar 1 milhão.

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Além de não reconhecida cientificamente, a bateria de remédios para tratar a Covid é contraindicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pela Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Os índices de vendas preocupam especialistas do setor, que apontam uso inadequado e excessivo de medicamentos que deveriam ter maior controle, prescrição médica de baixo conhecimento técnico-científico e insistência do usuário baseada em ideologias políticas.

— A procura por hidroxicloroquina para tratamento da Covid-19 expõe um grande problema na qualidade médica. Para alguns profissionais de saúde, a prescrição desses medicamentos adquiriu status ideológico. As bases e comprovações científicas são ignoradas, dando lugar aos princípios políticos —avalia o professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e consultor do CFF, farmacêutico Wellington Barros.

Ao contrário da hidroxicloroquina, a ivermectina pode ser adquirida sem retenção de receita, colaborando para o mau uso do fármaco. Para o farmacêutico, a baixa fiscalização na aquisição de medicamentos tarja vermelha sem prescrição médica é um facilitador para o consumo do coquetel:

— Há farmacêuticos que realizam vendas cientes do quadro médico do usuário e da ineficácia do produto. Infelizmente, essa parcela é grande e contribui para o descontrole existente — afirma Barros.

Riscos

Além de ineficaz, a ivermectina em excesso pode causar danos ao fígado do paciente, alerta a infectologista Ana Helena Germoglio:

— A automedicação da ivermectina pode causar desde uma simples reação alérgica e alteração gastrointestinal até quadros mais graves, como hepatite medicamentosa, uma inflamação do fígado que pode se tornar um quadro clínico muito grave. O perigo é ainda maior quando o paciente utiliza o mix do kit-Covid, com a possibilidade de gerar uma interação medicamentosa.

Do total de casos de hepatite aguda grave ou fulminante, problema que muitas vezes exige transplante de fígado, 27% são de origem medicamentosa, alerta a médica sanitarista e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Lígia Bahia.

— O principal risco é a aposta errada. Medicamentos não são produtos inócuos, devem ser usados racionalmente. Infelizmente muito praticada devido a dificuldades de acesso a serviços de saúde e ao modus operandi da indústria de varejo, a automedicação é responsável por hemorragias digestivas e hepatites agudas. É uma falácia dizer que ivermectina ou qualquer outro remédio que não necessite de receita é seguro ou pouco prejudicial —explica Bahia.

Os pacientes ainda se agarram ao coquetel por dois pontos, de acordo com a médica sanitarista: pela recomendação médica negligente e pelo apreço aos políticos responsáveis pela indicação.

—Houve muita confusão nas mensagens recebidas pela população. Esperamos que a nova gestão do Ministério da Saúde consiga estabelecer canais de comunicação mais efetivos e baseados nas melhores evidências científicas.