Com ayahuasca no roteiro, Erykah Badu busca inspiração no Brasil: 'Me sinto em paz aqui'

Espontânea e pouco afeita a convenções, Erykah Badu cria um ambiente tão imprevisível em seus shows que até mesmo um encerramento abrupto, com o som do Memorial da América Latina sendo cortado enquanto ela e banda ainda estavam no palco, pode parecer parte da performance. A diva do soul contemporâneo abriu sua quinta turnê no Brasil no último domingo, em São Paulo, diante de 12 mil pessoas, antes de subir ao palco do Vivo Rio nesta terça-feira.

Os shows seguem a celebração pelos 25 anos de “Baduizm” (1997), álbum que lançou Badu no cenário pop com um dos trabalhos mais importantes daquela década. A mistura de visão artística, inquietação e espiritualidade deu à americana de 51 anos seus dois primeiros Grammys e revolucionou a música pop preta. Em São Paulo, porém, apenas três faixas entraram no repertório: “On & on”, “Appletree” e “Other side of the game”.

— Não gosto de fazer shows pensados para álbuns, cantar a íntegra deles. Prefiro ser espontânea, mas é uma celebração — justifica Erykah Badu, em entrevista na véspera da chegada ao Brasil.

A interrupção da apresentação sem bis ou uma despedida apropriada se deu pelo atraso do início do show, marcado para 20h15. Badu só foi subir ao palco quase 45 minutos depois. Como a apresentação era ao ar livre, precisou seguir a lei do silêncio em São Paulo e chegou ao fim 75 minutos depois, meia hora antes do previsto. O público, porém, não chiou.

Aliás, a passagem por São Paulo já tinha superado uma polêmica anterior: anunciadas como atrações de abertura, a cantora paulistana Céu e a banda carioca Bala Desejo desistiram de participar do evento após reclamações nas redes sociais por eles serem artistas brancos. No lugar, entraram cantoras como Larissa Luz, Anelis Assumpção e Majur. Badu soube da polêmica, mas não precisou intervir:

— A música é uma coisa única, independentemente de cor. Mas entendo que era um evento especial e que os próprios músicos ouviram outros artistas pretos e decidiram fazer as mudanças. Houve um entendimento entre eles.

No palco, diante de olhares famosos na plateia como os de Liniker, Majur e Gilsons, Badu e banda construíram uma sequência infalível de canções, improvisos, interlúdios e ambiências, sublinhada pelo alcance vocal invejável da cantora e pelas batidas criadas por ela ao vivo. Ao casamento entre elementos do jazz e do hip hop, com breve menção à bossa nova, os fãs reagiam como se estivessem em transe, conectados pelo lado espiritual das canções.

— Decido como vai ser o show na hora, com minha banda, e observando o calor da plateia. No Brasil, é sempre diferente. É muito alinhado à minha natureza e me sinto livre, em paz — conta a cantora, que ainda não sabe quantos dias vai ficar no país, mas tem “rituais de ayahuasca, visitas a cachoeiras, performances de percussão e encontros com pessoas espirituais” em seu roteiro obrigatório por aqui.

Em entrevista ao GLOBO em 2019, quando esteve no país pela última vez, Badu afirmou que “meu melhor trabalho ainda está dentro de mim”. De lá para cá, a cantora ainda não lançou um disco, e lá se vão 13 anos desde que o último, “New Amerykah part two (Return of the Ankh)”, foi lançado.

— Não tenho planos, mas espero me inspirar com a música do Brasil. Eu tenho meu tempo. Não me considero uma artista de gravação, mas de palco. Gravo as coisas que eu faço, mas a prioridade é a criação no palco. Por isso, não tenho problema em fazer turnês sem músicas novas para mostrar — explica.

Enquanto a inspiração musical não vem, Badu botou a mão na massa em outra linguagem: a dos documentários. Recentemente, ela produziu dois: “Hargrove”, sobre o trompetista de jazz e r&b Roy Hargrove, morto aos 49 anos, em 2018, e “The DOC”, sobre o aclamado rapper que teve sua voz profundamente afetada por um acidente de carro, em 1989. O primeiro estreou no festival de Tribeca, nos Estados Unidos, em junho passado, e o segundo ainda não tem data de lançamento confirmada.

— São pessoas muito próximas do meu coração. Roy foi meu melhor amigo na escola e tocou em álbuns meus, enquanto The D.O.C. é o pai da minha filha (Puma Curry, de 18 anos, que a acompanha na viagem ao Brasil). Ele tem uma história muito cativante e foi importante contá-la para o legado da minha filha e para reforçar sua importância no hip hop. Ambos tiveram experiências trágicas e precisaram superá-las para encontrar paz — narra Badu, que pretende, “um dia”, produzir um documentário sobre a sua própria história.