Com banho coletivo, cobertores e monumento apagado, Europa encara sacrifícios de inverno

MADRI, ESPANHA (FOLHAPRESS) - Cozinhar ou aquecer? Esse tem sido o mote das discussões na Europa nos últimos meses, prevendo as dificuldades que sua população vai enfrentar no inverno de 2022/2023 (época do verão no Brasil).

"Não vamos ter ilusões. Estamos em mares revoltos. Um inverno de descontentamento está no horizonte. Pessoas estão sofrendo, com os mais vulneráveis sofrendo mais", disse na Assembleia-Geral da ONU na terça (20) o secretário-geral António Guterres.

Para além de grandes medidas estatais, lá e cá, então, surgem situações inesperadas. A ministra do Ambiente da Suíça sugeriu há alguns dias que, para economizar 15% da energia, as pessoas poderiam tomar banho juntas. Depois de a declaração se tornar piada nas redes sociais, Simonetta Sommaruga voltou ao assunto e esclareceu que a dica era destinada às pessoas jovens —afinal, após certa idade, isso pode se tornar inconveniente.

Já no frio reino da Dinamarca, onde a temperatura interna de prédios governamentais foi estabelecida em 19°C, a medida foi seguida pelos bancos privados. Assim, para que os caixas e demais funcionários não passem frio, as empresas estão distribuindo cobertores para que se agasalhem no horário comercial —1.800 no caso do banco Arbejdernes, segundo seu porta-voz contou à Bloomberg.

Agora, com a chegada oficial do outono no hemisfério Norte nesta sexta (23), o tempo parece ter se esgotado. Apesar de o Reino Unido chamar a situação de "catástrofe do inverno", as temperaturas já começaram a cair de forma que o uso de aquecedores se torna premente. A mínima em Berlim nesta sexta (23) foi de 4°C.

A Guerra da Ucrânia e as sanções impostas ao regime de Vladimir Putin acabaram por, em resposta, fechar a torneira do gás russo, elevando à estratosfera os preços das contas de energia nas quatro maiores economias europeias —Alemanha (PIB de € 3,6 trilhões em 2021), Reino Unido (€ 2,7 trilhões), França (€ 2,5 trilhões) e Itália (€ 1,8 trilhão).

Outra grande economia da região, vale dizer, é a Rússia, o maior exportador de gás do mundo, com € 1,5 trilhão de PIB em 2021. Mas, a essa, não vai faltar gás.



ALEMANHA

Há quase 50 anos Moscou supre de gás a maior economia da Europa, fornecendo energia para empresas, residências e ruas. Muitos no Leste Europeu são ainda mais dependentes do que Berlim, mas há muito o mercado alemão é a joia da coroa do setor de gás russo, como ressaltou a rede Deutsche Welle.

A Guerra da Ucrânia acabou por fechar essa torneira, e o país se prepara para o pior inverno em décadas. "Mudanças para amortecer o aumento dos preços da energia e a redução de lucros no mercado de eletricidade" fazem parte do pacote anunciado pelo premiê Olaf Scholz há cerca de duas semanas.

"A Alemanha está unida em tempos difíceis", começa o comunicado do governo a respeito de um pacote de alívio de € 65 bilhões para a população. "O terceiro que montamos é maior em escopo do que os dois primeiros juntos", disse Scholz. Juntos, eles resultam em € 95 bilhões. E, segundo o ministro da Economia, Robert Habeck, a base é: quem ganha menos ganhará mais alívio.

Mas a pergunta que não calar é quando ligar o aquecedor. Nos últimos dias, os jornais têm trazido discussões sobre o tema, recomendando que, se a temperatura interna cair abaixo de 16°C sem perspectiva de aumento em dois dias, então é a hora do sistema de aquecimento.

Como forma de mitigar as contas, as concessionárias de energia estão recomendando aos consumidores ajustar o valor que se paga mensalmente —na Alemanha, o sistema funciona mais ou menos como o Imposto de Renda no Brasil. O cliente paga um valor fixo mensal, considerando o tamanho da residência, o tipo de aquecimento, número de moradores etc.; com um ano de contrato, a empresa calcula o gasto real e faz a restituição do que se pagou a mais (ou cobra o excedente).

O governo já está distribuindo nos salários a "taxa fixa do preço de energia", uma compensação para o aumento sugerido. São até € 300, dependendo do imposto salarial que cada um paga. Outras medidas são o auxílio até dezembro de € 415 por pessoa (mais €100 por familiar extra) que usa o subsídio habitacional, isenção de contribuição social para quem ganha até € 1.600, auxílio de € 200 para estudantes e aumento da ajuda a famílias de baixa renda: cada filho trará € 18 a mais por mês nos próximos dois anos

REINO UNIDO

Em um movimento que britânicos disseram parecer o de um futuro distópico ou de um episódio de "Black Mirror", o programa inglês "This Morning Show" passou a premiar telespectadores com o pagamento de contas de luz. Como um "Roletrando", quadro de Silvio Santos no SBT, alguém liga para participar e o apresentador Phillip Schofield roda a roleta, que pode parar em prêmios de 1.000 libras, 3.000 libras ou nas casas anotadas "contas de energia".

Em uma cena que ganhou as redes sociais, do último dia 5, o participante ganhou o pagamento dos boletos dos próximos quatro meses. A resposta foi: "Oh, meu Deus, obrigado".

No fim de agosto, a Ofgem, agência reguladora do mercado de gás e energia no país, anunciou um aumento de 80% nas contas a partir de outubro —algo menor do que em outros países europeus, já que o gás russo representa só 4% do consumo britânico.

Esperava-se que o boleto médio anual na Inglaterra, de cerca de 2.000 libras, saltasse para perto de 3.600 libras. E haveria ainda outro aumento em janeiro, no auge do inverno, para 4.500 libras. Dois dias após sua posse, em 6 de setembro, a nova primeira-ministra, Liz Truss, anunciou o congelamento das tarifas para a média de 2.500 libras anuais pelos próximos dois anos.

Sua ideia, em vez de dar dinheiro à população, como na Alemanha, é transferir diretamente às companhias de energia cerca de 150 bilhões de libras, para que as contas se mantenham assim. Na tarde daquele mesmo dia, porém, morreu a rainha Elizabeth 2ª, interrompendo todas as discussões políticas —inclusive sobre a crise energética.

FRANÇA

Se a Alemanha possui hoje só quatro usinas nucleares em funcionamento (após um plano de desligamento total de seus reatores), a França ainda conta com 56 (mesmo que muitas em situação delicada de manutenção). O uso dessa energia no país é o mais alto do mundo, respondendo por cerca de 70% do que é consumido.

Isso torna o país menos vulnerável à catástrofe. O presidente Emmanuel Macron declarou diversas vezes querer evitar cortes de energia, e no início do mês anunciou um acordo com a Alemanha para fornecer energia ao vizinho.

Mesmo assim, haverá alta de preços —e símbolos nacionais, como a Torre Eiffel, o Museu do Louvre e o Palácio de Versailles, estão tendo as luzes apagadas mais cedo, para conscientizar a população. A pirâmide do Louvre, por exemplo, que ficava acesa até 1h da manhã, agora se apaga às 23h.

ITÁLIA

"Nossa dependência [de gás russo], que era de 40% no ano passado, hoje está em 25%", afirmou o demissionário primeiro-ministro Mario Draghi há cerca de dois meses. A medida, no entanto, não foi suficiente para segurar os preços da energia remanescente, seja ela importada de outros países em substituição à russa (como a Argélia), seja produzida internamente.

Espera-se um aumento na ordem de 300% nas contas de luz, e um estudo do instituto Ecco, de Milão, estimou que, com novos contratos em mãos, medidas de armazenamento e as necessidades energéticas regulares, não deverá faltar gás em 2023. Na teoria —em dias críticos, os novos fornecedores podem não conseguir atender à demanda italiana.

Nada disso, porém, segura a onda de aumentos. Em um caso que ficou famoso no país, um sorveteiro de Modena postou um vídeo em que se dizia desmoralizado com sua conta de € 5.128,99 (cerca de R$ 26,7 mil), um aumento de 489% em relação ao mesmo mês de 2021.

Como no Reino Unido, a crise energética será o principal desafio do novo governo. O país tem eleições legislativas neste domingo (25).