Com Biden na Casa Branca, Arábia Saudita tenta limpar sua imagem

Anuj CHOPRA
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(ARQUIVO) O rei saudita Salman bin Abdulaziz Al-Saud durante a cúpula do G20, realizada virtualmente, na capital Riade. Foto de 22 de novembro de 2020, divulgada pelo Palácio Real Saudita.

Diante da nova política externa dos Estados Unidos, a Arábia Saudita tenta limpar sua imagem, manchada pela repressão, libertando alguns presos políticos e amenizando as tensões com países rivais da região.

As coisas mudaram em Washington: o ex-presidente Donald Trump fechou os olhos para o assassinato de um jornalista crítico e para a prisão de dissidentes na Arábia Saudita, mas seu sucessor Joe Biden prometeu tornar o reino saudita um estado "pária" por suas violações do direitos humanos.

Washington deseja, porém, segundo analistas, preservar suas relações estratégicas com Riad e, ao mesmo tempo, reativar as negociações nucleares com o Irã, outro peso-pesado da região e grande rival da Arábia.

Depois de selar uma reconciliação com o vizinho Catar, que pôs fim a uma longa cisão, o reino saudita acaba de conceder liberdade condicional a prisioneiros políticos, incluindo a militante feminista Lujain al Hathlul.

A Arábia Saudita também busca diminuir as tensões com outro adversário regional de peso, a Turquia, e "baixar a temperatura mantendo contato aberto" com o presidente Recep Tayyip Erdogan, segundo fonte próxima aos líderes sauditas.

- "Nova flexibilidade" -

Diante da disposição dos Estados Unidos em negociar com o Irã e rever suas relações com a Arábia, “os sauditas estão tentando se apresentar como aliados na resolução de conflitos na região”, segundo Kristin Diwan, do Arab Gulf States Institute.

Segundo o pesquisador, depois de anos de linha dura no "interesse nacional", a Arábia mostra uma "nova flexibilidade" perante o governo Biden, que anunciou recentemente a suspensão das vendas de armas para o país.

Joe Biden também anunciou o fim do apoio dos EUA à Arábia Saudita na guerra do Iêmen, na qual os sauditas apoiam militarmente as forças do governo contra os rebeldes Houthi, próximos ao Irã.

Ao se referir a essa guerra, Biden falou em "catástrofe", porque causou a pior crise humanitária do mundo, segundo a ONU.

A nova chefe dos serviços de inteligência dos EUA, Avril Haines, prometeu publicar um relatório confidencial sobre o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi em 2018.

A CIA já concluiu que o príncipe herdeiro Mohamed bin Salman está envolvido neste assassinato cometido no consulado saudita em Istambul.

- "Preservar os pilares" -

No entanto, Washington expressou seu apoio a Riade diante dos ataques dos houthis ao território saudita, onde há uma presença crescente do exército dos Estados Unidos.

O Wall Street Journal citou em janeiro projetos para portos e bases aéreas no deserto ocidental do reino saudita, que os militares americanos tentam desenvolver como posições utilizáveis em caso de guerra contra o Irã.

“Ao contrário do que se esperava, o governo Biden seguirá uma política de moderação em relação ao reino”, afirma o analista próximo ao poder, Ali Shihabi.

Segundo ele, Biden quer "preservar os pilares" da relação entre Washington e Arábia Saudita.

A chegada de Joe Biden "ajudou e contribuiu muito" para a libertação de Lujain al Hathlul na semana passada, após quase três anos de prisão, de acordo com sua irmã Alia al Hathlul. Mas a famosa militante tem uma sentença pendente com suspensão de pena e não pode deixar o território saudita.

As diversas libertações tem um caráter "simbólico" para tranquilizar o presidente dos Estados Unidos, mas há muitos outros detidos que estão trancados nas prisões do reino, disse à AFP um amigo próximo de um saudita preso.

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