Com boa vacinação, por que Chile ainda não conseguiu controlar pandemia da covid-19?

Anita Efraim
·6 minuto de leitura
SANTIAGO, CHILE - MARCH 19: People who were already vaccinated wait 30 minutes for reactions on March 19, 2021 in Santiago, Chile. The Andean country already inoculated over 5.5 million people, which represents 18% of its population.  (Photo by Marcelo Hernandez/Getty Images)
Chile já aplicou mais de 10 milhões de doses da vacina; 3,8 milhões de pessoas receberam "imunização completa" (Foto: Marcelo Hernandez/Getty Images)
  • No Chile, 44% da população já recebeu pelo menos uma dose da vacina contra a covid-19

  • País, no entanto, vive uma segunda onda forte e tem boa parte da população confinada

  • Especialistas estimam que mais de 80% dos habitantes do país tenham que ser totalmente imunizados para diminuir transmissão

O Chile é um dos países que mais vacina no mundo. Até a manhã desta segunda-feira (5), são 10,7 milhões de doses aplicadas contra a covid-19. No país, 6,9 milhões de pessoas já receberam pelo menos uma dose, equivalente a 44% da população. Entre elas, 3,8 milhões já estão com a imunização “completa”, ou seja, com as duas doses.

Ainda assim, os números de novos casos no país são altos. No último domingo (4), foram registradas 7.304 infecções em 24 horas, com taxa de positividade média de 10,29% nos exames RT-PCR feitos no período.

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A pergunta que intriga a muitos é: por que, mesmo com uma boa vacinação, o país vive o pior momento da pandemia da covid-19?

Isso quer dizer que a vacinação não está funcionando?

Na última quinta-feira (1º), em contato com o Yahoo Notícias, o médico Jaime Labarca, chefe de infectologia da rede de saúde UC Christus, explicou que menos de 10% da população do Chile já completou duas semanas da segunda dose.

“ A primeira dose tem uma resposta discreta na transmissão do vírus. Com as duas doses, a resposta é maior, mas ainda são poucas [pessoas vacinadas com as duas doses]”, explicou o médico. Apenas após duas semanas da imunização completa, a resposta imunológica chega no índice esperado.

“Mesmo assim, temos uma porcentagem importante com a primeira dose, por isso, temos visto uma mudança importante no perfil das internações. São poucos os idosos que estão sendo internados, temos indícios que a vacina está funcionando. Quem foi vacinado está mais protegido”, afirmou Labarca.

Ao fim desta semana, o Chile já terá vacinado todas as pessoas com mais de 50 anos, além de profissionais da saúde e da educação.

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Até o momento, o Chile vacinou 83% da população com mais de 80 anos. Entre os que tem de 65 a 79 anos, o índice de vacinação é de 85%. O país pretende vacinar toda a população até 30 de junho.

Deslocamentos e férias

Jaima Labarca atribui a segunda onda da covid-19 no país se deve, também, aos deslocamentos da população durante o verão.

“O Chile está vivendo uma segunda onda muito intensa, em um contexto de vários fatores: o primeiro é que houve muita mobilidade nos meses do verão, pessoas saindo da Região Metropolitana (capital) para o sul e para o norte”, diz. “Essa mobilidade das regiões influenciou, provavelmente, o aumento de números no mês de março.”

“Outro fator importante é que houve um fluxo importante de pessoas que chegam e fora do país. Relacionado a isso, temos a chegada de novas cepas, que supostamente são mais contagiosas”, aponta. A partir desta segunda-feira (5), o Chile fecha as fronteiras para evitar a propagação das variantes do coronavírus.

Particularidades da Coronavac

A vacina mais utilizada no Chile é a Coronavac, produzida pelo laboratório chinês Sinovac. Nos estudos feitos no Brasil, a vacina mostrou ter 50,4% de eficácia para prevenir contra a covid-19.

Como explica a epidemiologista Denise Garrett, o país ainda não chegou na imunidade coletiva. Para chegar a esse objetivo, é preciso vacinar uma porcentagem maior da população e, quanto menor a eficácia da vacina, mais gente precisa ser imunizada.

“A Coronavac, por exemplo, precisa de mais pessoas sim para você começar a ver um impacto na transmissão. Uma vacina com uma eficácia de 50%, ela precisa de quase 100% da população vacinada para haver um impacto na transmissão”, afirma.

“Por isso, o que se espera no momento da vacinação é uma redução no número de mortes e hospitalizações”, coloca Denise Garret.

Labarca estima que seja necessário ter 80% da população do Chile vacinada com duas doses, “porque a vacina da Sinovac tem um efeito menos potente que a da Pfizer”. O país também está aplicando o imunizante da Pfizer, mas em proporções muito menores. Até o momento, chegaram ao Chile 13 milhões de vacinas, sendo 11 milhões da CoronaVac e 2 milhões da Pfizer.

O infectologista confirma que as pessoas que estão vacinadas, se são contagiadas pelo coronavírus, desenvolvem casos menos graves da doença. “Com as duas doses, é muito raro ter formas graves da doença.”

Lockdown em grande parte do país

Aerial view of Santiago in lockdown, on March 27, 2021, amid the COVID-19 pandemic. - Almost 16 million people, about 80% of the population, began a new quarantine in Chile due to a sharp increase in new cases of Covid-19, despite an impressive vaccination campaign. Chilean authorities have been implementing, among other measures, a selective quarantine in areas with a high incidence of infection and have placed an emphasis on controlling the pandemic by mass screening. (Photo by MARTIN BERNETTI / AFP) (Photo by MARTIN BERNETTI/AFP via Getty Images)
Toda a cidade de Santiago está em lockdown, devido ao alto número de casos de covid-19 (Foto: MARTIN BERNETTI/AFP via Getty Images)

Grande parte do Chile está em lockdown, ou seja, em confinamento. Toda a capital, Santiago, está na fase mais restritiva do chamado “Plan Paso a Paso”.

Denise Garrett explica que o lockdown impacta a transmissão do vírus e permite que o número de casos caia muito mais rapidamente. “É o caso de Israel”, lembra. “Israel fez lockdown junto com a vacinação. E uma vez que você para a transmissão, você vai relaxando o lockdown.”

“Aqui nos Estados Unidos, estados que estão relaxando as medidas restritivas – e isso não é só necessariamente o lockdown, é evitar aglomeração, usar máscara. Tem estado que estão relaxando e nesses locais, vemos uma tendência de alta, mesmo com a vacinação. Nos estados em que as medidas foram mantidas, não há essa tendência de subida.”

Apesar da tentativa de aumentas as medidas de isolamento social, Jaime Labarca faz críticas às estratégias do governo. “A quarentena não foi efetiva, porque as pessoas mantiveram diversas atividades laborais”, aponta.

“Teve muita ênfase para que as pessoas mantivessem seus trabalhos, e a verdade é que isso fez com que as medidas de prevenção não fossem efetivas. Você vê, pelos números que temos hoje, que a quarentena não parece quarentena.”

Volta à normalidade

A promessa do governo chileno é vacinas 15 milhões de pessoas, toda a população alvo, até 30 de julho.

Para Jaima Labarca, o país, apesar de ter vacina 44% da população com pelo menos uma dose, ainda deve demorar dois ou três meses para ver o índice de transmissão cair. “Acredito que no fim de junho poderemos tem uma queda dos casos por efeito das vacinas”, pondera.

O Chile tem acordo de compra de vacinas da Janssen e da CanSino, ambas de dose única. Mas o Instituto de Saúde Pública do país ainda não aprovou o uso emergencial dos imunizantes.