Com boates mais caras, bares com karaokê viram o novo ‘point’ dos universitários que querem economizar

Preparar o gogó só para entrar redonda a cerveja gelada ou para soltar a voz no karaokê? Para os jovens que estão voltando a apreciar a noitada carioca, bom mesmo é curtir os dois. Quem é dos anos 90 sabe bem: reunir a turma, escolher “Evidências” de Chitãozinho & Xororó e começar a cantoria até era um hobby apreciado por poucos, só que era difícil encontrar um lugar que tivesse karaokê disponível. Agora, o cenário está bem diferente: por conta da inflação nas alturas, para se divertir numa casa noturna — passatempo favorito dessa geração — é preciso desembolsar, no mínimo, R$150. Então, os bares têm investido cada vez mais em outros atrativos.

O orçamento fica mais barato, por exemplo, quando o destino é a Feira de São Cristóvão, na Zona Norte, que está se consolidando como point musical e de “rolés” da cidade. Desde a sua reabertura em janeiro deste ano, o âmbito de tradições nordestinas deixou de carregar esse título e passou a ser reconhecido pelos universitários como a “Feira dos karaokês”.

De janeiro a junho, o local recebe cerca de 4 mil jovens por final de semana, segundo Magno Pereira, diretor administrativo da feira. Dos 100 bares e restaurantes em funcionamento, 60 são de karaokês, sendo 10 deles inaugurados este ano. Essa nova roupagem tem atraído público de todos os lugares. A vantagem vem agradando os donos dos estabelecimentos, que estão cada vez mais investindo nessa modalidade.

Edvaldo Farias Lira, de 57 anos, é um deles. Trabalhando no ramo de eventos há 30 anos, abriu mão das festas que promovia para iniciar o próprio negócio em agosto de 2021. O projeto saiu do papel em janeiro, com o aluguel de um bar dentro da feira. Com um investimento de 5 mil reais — em bebidas e acessórios — o piauiense, inicialmente, pensava em lucrar oferecendo os serviços tradicionais de um boteco. A percepção mudou com a chegada dos públicos universitário e LGBQIA+, que buscavam cantar e beber. E foi aplicando R$ 2 mil na compra de uma Jukebox (máquina de karaokê) que Edy, como é conhecido, viu seu plano dar certo. Abrindo todos os sábados e domingos, com média de 80 a 90 pessoas por dia, o lugar se tornou ponto certo de quem passa por lá.

— Eu interajo muito com meu público. Eu danço com eles e me divirto. Faço isso como uma forma diferente de engajamento para que eles retornem ao meu bar. Sem problemas, sem preconceito e sem olhar quem está do lado. O jovem que gosta de virar a noite vem para ficar se divertindo. São os melhores bêbados que eu já conheci. São educados e brincam com tudo. Não é um ambiente de briga. São calmos e divertidos. Eles só querem beber, cantar e pagar barato — afirmou Edvaldo, que já conseguiu cobrir os custos, tendo um retorno financeiro de 70% a 80% do valor investido, fez contratação de dois funcionários no mês passado para dar conta da alta demanda de público e já está planejando a abertura de um segundo estabelecimento para daqui a 6 meses.

Para o empreendedor, os novos colaboradores precisam fazer um atendimento diferenciado. Por medo do cancelamento, Edy aposta na parceria e na descontração para atrair novos clientes.

— Meu público domina as redes sociais, sabe se posicionar. Se eles se sentem mal atendidos, vão para o Instagram reclamar, e afeta o negócio.

Acostumado a sair e gastar de R$ 50 a R$ 60 em baladas, antes da pandemia, Rodrigo Loureiro, de 24 anos, saía do Vidigal — bairro onde reside—, na Zona Sul, para curtir a noitada na Lapa, Centro, e na Zona Oeste. O barman, que há um ano e cinco meses transformou a paixão por bebidas em profissão, não via a hora de sair e voltar à rotina. Entretanto, um “susto” na primeira saidinha o fez sentir o peso da boêmia no bolso.

— Está tudo muito caro. O karaokê virou uma alternativa por ser mais barato. É um ambiente mais tranquilo, com valor mais em conta e com fichas de graça. Um balde de cerveja com 10 latas custa R$ 40. E a ficha custa R$ 2 . Ainda dá para pedir petisco e pagar menos de R$ 30. Antes, numa noite de balada, eu gastava R$ 150. Agora eu gasto R$50 com um grupo de 4 a 5 pessoas. É uma alternativa boa para quem não bebe também. A água na balada custa quase R$10, e no barzinho, menos de R$6 — completou o jovem, que agora não abre mais mão de curtir uma cantoria com os amigos.

Amigos de copo e de microfone, os cariocas Vitória Pena, de 25 anos, bacharel em direito, Rebeca Marques, de 27, advogada, Leonardo Ferreira, 23, publicitário, e Juliana Medina, 21, estudante de publicidade, sabem bem como aproveitar a noite economizando. Para Juliana, o pós-pandemia encareceu muitos lugares que eles frequentavam, levando-os a buscar opções favoráveis ao bolso e ao gosto:

— A quantidade de vezes que eu fui na balada é muito inferior à quantidade de vezes que fui a bares com karaokê. Descobri que gosto mais de cantar do que ficar ouvindo um DJ tocar um único ritmo a noite toda, pagando uma bebida extremamente cara. Antes, no mês, eu ia para balada duas vezes no mês. Agora, eu consigo ir no bar 5 vezes e ainda sobre dinheiro.

Quando o assunto é cantar e se divertir, o administrador Gabriel Pires, de 29 anos, é especialista. Apaixonado por karaokê desde a infância, o carioca sentia falta de lugares que oferecessem o serviço no Rio. Após o período de isolamento, escolher um local com karaokê para curtir com a família se tornou fácil. Para ele, a nova geração está resgatando costumes de épocas passadas.

— Se eu tiver que escolher entre um bar comum, uma balada e um karaokê, já sabem o que eu vou escolher, né? Eu estou adorando ver os bares investindo nessa modalidade. Esse era um hábito muito comum em São Paulo, mas o Rio está começando a ver que esse mercado tem tudo para crescer. Sempre que posso, levo alguém para conhecer e pegar o gostinho da cantoria. Além de aproveitar para tomar umas — brincou Gabriel, que no início do ano investiu cerca de mil reais para montar um equipamento de karaokê em casa: — Se eu quisesse abrir um negócio desses agora, poderia. Os donos de bares não precisam investir muito, é um serviço bem acessível. Eu costumo reunir uma turma de 10 pessoas e sair para curtir um bar musical. É muito bom — completou o administrador.

Cardápio de preços e média de valores

Um levantamento feito pelo EXTRA calculou a média de preço de produtos comercializados em bares com karaokês localizados na Feira de São Cristóvão, comparando com as cinco principais casas noturnas do Rio de Janeiro.

KARAOKÊS DA FEIRA DE SÃO CRISTÓVÃO

porção de batata frita - R$ 17

Porção de frango a passarinha - R$ 20

porção de petisco - R$ 15

balde de cerveja - R$ 45 a R$ 60

copo de drink - R$ 18

água - R$ 3,50

Energético - $ 10

Fichas - R$ 2

Entrada - R$ 10

Um total de R$ 140,50

BALADAS E CASAS NOTURNAS

porção de batata frita - R$ 20

porção de petisco - R$ 30

balde de cerveja - R$ 80 a R$110

copo de drink - R$ 37,90 a R$ 40

água - R$ 9,90

Energético - $ 19,90

Entrada - R$ 50

Um total de R$ 277,7

Diferença de R$ 137,20

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos