Com Bolsonaro, MEC vira centro de polêmicas e perde credibilidade com estudantes

João de Mari
·6 minuto de leitura
“É um governo que não nos representa, não tem ações na Educação como toda pluralidade social que o Brasil precisa”, diz professora da UneAfro (Foto: Arquivo pessoal)
“É um governo que não nos representa, não tem ações na Educação como toda pluralidade social que o Brasil precisa”, diz professora da UneAfro (Foto: Arquivo pessoal)

Faz alguns anos que a estudante Thaís Nazário da Silva, 20, estabeleceu uma meta: cursar Relações Públicas. Para isso, a moradora da Favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio de Janeiro, se matriculou no cursinho pré-vestibular Nica (Núcleo Independente Comunitário de Aprendizagem), localizado na própria comunidade. A ideia era intensificar os estudos para ingressar no ensino superior.

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A rotina, no entanto, foi interrompida com a chegada do novo coronavírus no Brasil. Em março deste ano, as aulas foram suspensas e Nazário passou a estudar à distância, cumprindo o isolamento social.

Seu irmão mais novo, de oito anos, também não está indo à escola e a carga de trabalho de sua mãe, que atua como enfermeira em hospital público atendendo pacientes com a Covid-19, aumentou. A estudante se viu obrigada a tentar conciliar os estudos com o cuidado de casa e do irmão mais novo.

“Eu saia às 21h30 do cursinho e só precisava estudar e prestar atenção nas aulas. Agora tudo mudou. Preciso ajudar meu irmão nos deveres e, quando vou estudar, a internet cai, é horrível”, explica a estudante.

Segundo ela, o esforço para ingressar na faculdade de Relações Públicas na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), não seria necessário caso ela “confiasse no Enem”, como ela mesma diz. A UERJ é a única instituição pública do Rio que conta com vestibular próprio - outras faculdades possibilitam bolsas com base na nota do Enem.

“Esse ministério dificulta muito a confiança da gente que é jovem, que precisa fazer essas provas. Como vamos entregar nosso futuro na mão de uma pasta que não é preparada para atender os jovens?”, indaga a estudante.

Sem ministro

Há quase três semanas sem ministro no Ministério da Educação, o Brasil enfrenta dificuldades para lidar com a elaboração de políticas voltadas à pasta. Em meio à pandemia, não houve planos de governo para dar suporte aos estudantes, que perderam aulas, sobretudo do sistema público.

Desde a saída de Abraham Weintraub, Bolsonaro chegou a indicar Carlos Alberto Decotelli, que ficou apenas cinco dias no cargo e sequer tomou posse devido a inconsistências no currículo.

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Depois, Bolsonaro chegou a convidar o secretário de Educação do Paraná, Renato Feder, que, ao ser bombardeado pela ala ideológica do governo, anunciou pelas redes sociais que recusara o convite. Agora, o presidente busca uma solução que contenha possíveis reações da ala ideológica.

Para se ter ideia, o atual Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação), é temporário e será extinto em dezembro deste ano.

Em vigor desde 2007, o órgão é o principal mecanismo de financiamento à educação básica do país. A Câmara dos Deputados estuda votar novo Fundeb neste mês. Segundo especialistas, a não renovação pode levar o sistema educacional a um colapso.

Para Laerte Breno, professor do cursinho pré-vestibular UniFavela, localizado no Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, isso não acontece por ignorância.

“Esse processo é arquitetado pelo novo presidente, o que está acontecendo hoje é um planejamento que tenta excluir a camada social preta, pobre e periférica”, avalia ele, que comandava as aulas, até antes da pandemia, na laje da própria casa.

No primeiro ano de cursinho, em 2019, todos os alunos da primeira turma passaram para universidades públicas no Rio de Janeiro. Laerte, no entanto, conclui que por conta da pandemia e das incertezas e frequentes trocas no poder do MEC, alguns alunos estão desmotivados.

“Tenho alunos que desistiram do Enem, que tiveram familiares com Covid-19, que entraram na taxa de desemprego. Como que esses alunos vão ter condições psicológicas para efetuar essa prova? Ainda que seja adiada para maio, como vão lidar com isso? Infelizmente, estão tornando a barbárie normal e, se isso acontecer, esses alunos serão ignorados”.

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De acordo com a ex-aluna e agora professora de História do cursinho UneAfro em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, Arlene dos Santos Ramos, péssimas escolhas para os cargos de ministro da Educação são fatores que agravam problemas na confiança dos alunos.

“A gente herda do Abraham Weintraub uma afirmação do conservadorismo e nenhum plano que atuasse de maneira efetiva dentro do campo da educação básica. A última notícia que a gente soube era uma ação muito forte dentro de cotas na pós-graduação”, diz. “Os alunos ficam perdidos”.

Ramos defende a ideia de que o atual governo não dá voz a especialistas. Ela explica com uma analogia. “Como vamos chamar um confeiteiro para fazer uma casa, por exemplo? É um governo que não nos representa, não tem ações na Educação como toda pluralidade social que o Brasil precisa.”, afirma.

Ela acredita que até o governo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) funcionava, garantindo que educadores de todo país e de todas as áreas acadêmicas fossem ouvidos. “Dá uma tristeza pensar que em 2020 a gente veio com Weintraub, um economista, e agora estamos sem ninguém no cargo”.

Desgaste psicológico

“Aqui são sete pessoas. Minha irmã foi demitida no trabalho. Se mais alguém perde o emprego, não sabemos o que vamos fazer, porque essa casa é alugada” (Foto: Arquivo pessoal)
“Aqui são sete pessoas. Minha irmã foi demitida no trabalho. Se mais alguém perde o emprego, não sabemos o que vamos fazer, porque essa casa é alugada” (Foto: Arquivo pessoal)

As constantes trocas no cargo mais alto da pasta da Educação também parece ter deixado estudantes ansiosos com o futuro que os aguarda. É o caso de Brenda Vieira, 16, matriculada no cursinho popular pré-vestibular UneAfro.

Moradora de Poá, na Grande São Paulo, Vieira diz não conseguir se manter informada sobre as trocas no poder. “Você acaba ficando perdido mesmo e isso gera muita preocupação, principalmente emocional”, avalia.

Segundo ela, o que a tem ajudado é se consultar com psicólogos disponibilizados gratuitamente pela UneAfro por conta da pandemia. “Já tive algumas consultas e seu não me cuidasse eu iria surtar”.

Vieira, que faria o Enem pela primeira vez esse ano como teste, avalia desistir do exame, pois não consegue estudar em casa. Para ela, a crise sanitária escancarou os problemas.

“Aqui são sete pessoas. Minha irmã foi demitida no trabalho. Se mais alguém perde o emprego, não sabemos o que vamos fazer, porque essa casa é alugada”, afirma ela.

Na segunda-feira (6), um novo nome cotado ao MEC surgiu com o deputado Major Vitor Hugo (PSL-GO), após ele afirmar ter sido sondado por Bolsonaro ao cargo. O Major do Exército é mestre em operações militares, pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e é formado em Ciências militares pela Academia Militar das Agulhas Negras e em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade Nacional de Direito, Universidade Federal do Rio de Janeiro, entre outros títulos.

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