Com bomba no colo, Bolsonaro largou Salles na estrada da boiada

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Brazil's Environment Minister Ricardo Salles gestures next to Brazil's President Jair Bolsonaro after a motorcade rally amid the coronavirus disease (COVID-19) pandemic, in Sao Paulo, Brazil, June 12, 2021. REUTERS/Amanda Perobelli
Até outro dia, Ricardo Salles era atração nas caravanas da morte do chefe Jair Bolsonaro. Foto: Amanda Perobelli/Reuters

Ricardo Salles não caiu quando falou em voz alta que as atenções da mídia na pandemia (507 mil mortos e contando) era uma grande oportunidade para passar desapercebida a boiada sobre as normas brasileiras de proteção ambiental.

Ou quando as primeiras patadas do agora ex-ministro esvaziaram os recursos de um fundo de proteção ambiental financiados por Alemanha e Noruega.

Nem quando desfilou seu despreparo intelectual ao criar a figura do boi bombeiro para conter as queimadas recordes no Pantanal.

Ou quando a divulgação de índices, também recordes, de devastação na Amazônia correram o mundo e transformaram o país em párea ambiental.

Ou quando ele peitou a ala militar do governo, entrou em rota de colisão com vice, Hamilton Mourão, e chamou Eduardo Ramos, hoje na Casa Civil, de “Maria Fofoca”. Menos ainda quando criou uma crise institucional ao chamar o ex-presidente da Câmara, Rodrigo Maia, de Nhonho.

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Salles permaneceu intocado em seu trator mesmo quando um delegado da Polícia Federal acusou o ministro do Meio Ambiente de prejudicar uma investigação sobre venda ilegal de madeira no Amazonas.

Nada isso abalou a moral do ministro com Bolsonaro.

Como ensina Eduardo Pazuello, missão dada é missão cumprida. E a missão de Ricardo Salles era servir como raposa na guarita do galinheiro. Ou da floresta, para ser preciso.

Ricardo Salles só foi demitido depois que um deputado da base bolsonarista, Luis Miranda (DEM-DF), rompeu com o governo e decidiu trombetear, em diversas entrevistas, a mais enfática delas à CNN Brasil, que grupos criminosos se aboletaram do Ministério da Saúde para desviar recursos destinados à compra de vacina. A principal suspeita recai sobre o contrato de importação da Covaxin, o imunizante indiano que mobilizou grandalhões do governo numa corrida que só agora ganha sentido.

Miranda é irmão de um funcionário do Ministério da Saúde que relatou uma pressão incomum para acelerar a compra da vacina indiana. Mesmo tendo apontando uma série de irregularidades no contrato de importação. 

A vacina, que não tinha autorização da Anvisa (a desculpa de Bolsonaro para não adquirir outros imunizantes), era mais cara e menos promissora do que outras que foram solenemente ignoradas pelo governo. Caso da Pfizer, numa história de mensagens deixadas no vácuo até hoje mal explicada.

Bolsonaro e equipe reagiram como sempre: atirando contra o mensageiro. Bolsonaro agora promete acionar a polícia, mas para investigar o deputado dissidente.

O mesmo aconteceu com superintendente da PF no Amazonas, Alexandre Saraiva, exonerado depois de passar de frente com o ministro.

Ainda assim, o caso avançou. 

Ao que se conta, Bolsonaro sabia que o fio puxado na operação Akuanduba se transformou num cipoal a enforcar o aliado e riscos de respingar no seu gabinete.

Enquanto pode, o presidente fez que não sabia e seguiu levando Salles na garupa de sua moto para mostrar quem é quem manda.

Puro jogo de cena.

A suspeita levantada por Luis Miranda, segundo a qual Bolsonaro foi alertado sobre possíveis desvios na Saúde e nada fez, colocou uma encrenca a mais no colo de um presidente que já sacolejava. Foi quando o soldado ferido Ricardo Salles começou a pesar no lombo.

Embora mau militar, conforme atestou Ernesto Geisel sobre o capitão rebelde, os tempos de caserna devem ter ensinado ao hoje presidente que o sistema de defesa fica vulnerável quando sofre ataques simultâneas em duas frentes.

Salles era uma carga-morta pesada demais para o governo carregar e equilibrar enquanto um projeto de homem-bomba promete acionar os detonadores nas bases do Palácio do Planalto. Foi jogado na estrada da boiada.

Com Salles, o governo notabilizado pelo amadorismo na condução da coisa pública chega agora a 17 baixas (número cabalístico) desde a posse.

Salles sai de cena, mas a boiada segue na estrada aberta a mando do presidente. O agora ex-ministro toma o mesmo rumo de Abraham Weintraub, Vélez Rodriguez, Sergio Moro, Eduardo Pazuello, Marcelo Álvaro Antônio, Fabio Wajngarten e grande elenco responsável por dinamitar dois dos maiores mitos alimentados pelo capitão: o de que seu governo contaria uma equipe técnica e sem amarras ideológicas e o de que o combate à corrupção seria a sua prioridade um.

Em vez disso, o que ele entrega é um processo avançado de deterioração e desmonte com um grande pano para passar e acobertar amigos e, no caso de Salles, o desastre ambiental.

As atenções agora se voltam ao que diz Luis Miranda. 

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