Com dois mil animais abrigados, Suipa luta para aumentar doações e adoções

bandono é a palavra mais repetida por Sylvia Rocha, diretora social da Sociedade União Internacional Protetora dos Animais (Suipa), em seu dia dia. Não que ela —há 30 anos voluntária da instituição sem fins lucrativos, sediada em Benfica — tenha alguma afeição pelo verbo que traduz o ato de agir com descaso. Pelo contrário. Mas a sua rotina de trabalho na entidade, de 79 anos de existência, está intimamente ligada aos mais de dois mil animais abandonados que vivem lá. É a arquiteta, que divide o seu tempo entre a profissão que escolheu e o seu amor incondicional pelos animais, quem está à frente do projeto “Adote um focinho carente”, que, aos sábados, leva cães e gatos acolhidos pelo abrigo para eventos espalhados pela cidade em busca de pessoas que queiram levá-los para casa para dar morada, alimentação e carinho.

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— Quase 90% dos animais que chegam à Suipa estão em estado crítico, seja por terem sido vítimas de maus-tratos, por atropelamento ou por abandono de ninhada. Muitos tutores não têm a consciência de fazer a esterilização dos seus pets, para evitar uma procriação indesejada, e, quando os filhotes nascem, simplesmente jogam fora, abandonam. Alguns recém-nascidos são encontrados ainda com o umbigo pendurado. Apesar de todo o nosso esforço para salvá-los, alguns não sobrevivem. Todos os animais abandonados que chegam a nossa sede são acolhidos e submetidos a uma avaliação clínica. Só quando estão com condições de saúde adequadas são colocados para adoção. Mas para a Suipa, a adoção deve ser sempre responsável — frisa.

A diretora social da Suipa explica o que é exatamente uma adoção responsável:

— Em primeiro lugar, adoção é amor. Depois, é preciso que o animal caiba na vida, ou seja, na disponibilidade de tempo, no orçamento e no espaço físico onde se vive. É fundamental também que todos da família que morem neste lar também desejem a chegada deste pet que vai fazer parte da vida dos envolvidos por um bom tempo.

Com todos os pré-requesitos conferidos, o próximo passo para os interessados em adotar cães e gatos abrigados na Suipa é entrar em contato com a instituição.

— No site suipa.org.br, temos uma galeria de adoções com fotos dos animais. A pessoa faz a escolha do pet através desta ferramenta, preenche um formulário e aguarda o nosso contato. Na sequência, fazemos uma entrevista, pedimos os documentos necessários e a adoção pode ser concluída. Quem não quiser fazer o processo de adoção pela internet pode comparecer aos nossos eventos “Adote um focinho carente” (a agenda de datas e locais fica disponível no site) ou ir pessoalmente à Suipa — diz a gestora.

A sede da entidade fica na Avenida Dom Hélder Câmara 1.801, em Benfica. Sylvia faz um apelo para que quem deseja ser um tutor se permita adotar cães e gatos que já estejam em idade adulta.

— A grande maioria só quer filhotes, e isso é um problema. Muita gente acha que o animal adulto não vai trocar afeto, mas isso não é verdade. Por outro lado, há pessoas que amam tanto os animais que escolhem para adotar os amputados ou os com qualquer outro tipo de necessidade especial. Há ainda uma preferência maior por cachorros do que por gatos, mas, felizmente, está aumentando o interesse por felinos, que, aliás, se adaptam muito bem com pessoas que moram sozinhas e passam o dia fora. Os cães têm mais dificuldade de ficar muitas horas sem a companhia dos seus tutores — observa.

Sylvia alerta que os casos de abandono de animais aumentaram após a retomada da vida social que estava em suspenso durante o período mais crítico da pandemia de Covid-19:

— Por incrível que pareça, algumas pessoas queriam adotar animais só para a pandemia porque estavam isoladas, em depressão, e gostariam da companhia de um animal nesta fase solitária. Mas adotar é para a vida, não para a pandemia.

Ela diz que não houve um aumento significativo de adoção nos últimos dois anos, mas, sim, de abandonos. Num momento em que muitas pessoas estavam com menos tempo livre e renda reduzida, explica, os casos de abandonos aumentaram pelo menos em 20%.

— Devido à superlotação da Suipa, não fazemos recolhimentos de animais nas ruas, mas não conseguimos fechar os olhos e o coração para os que chegam lá. Tem gente que amarra o animal no portão da Suipa. Esta é uma triste realidade que presenciamos com frequência — lamenta.

Lar provisório ou definitivo de tantos animais, a Suipa, que não conta com o apoio de verbas públicas para arcar com os seus custos mensais, precisa de doações de pessoas físicas e jurídicas para não fechar as portas:

— Sobrevivemos de doações espontâneas. Recebemos rações, medicamentos, material de limpeza, camas e roupas para pets, assim como colaborações em dinheiro. Temos seis mil associados que contribuem regularmente conosco, mas nem todo mundo pode nos ajudar sempre. Pedimos aos associados uma doação mensal mínima de R$ 30, mas toda colaboração é bem-vinda. Nosso custo é muito alto porque alimentamos dois mil animais todos os dias, e os nossos 102 funcionários são remunerados e têm carteira-assinada. Apenas a direção e a equipe que participa dos eventos de adoção são formadas por voluntários. Além das doações, a nossa outra pequena fonte de renda são os atendimentos veterinários que fazemos a preços populares. Nossa luta é muito grande, mas o nosso amor pelos animais é maior ainda.

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