Duas mortes na Rocinha acendem alerta para coronavírus; favela é amostra de como doença pode ser devastadora em comunidades

A crise da pandemia do coronavírus se torna mais um grande problema de devastação populacional que os moradores de favelas como a Rocinha estão sujeitos (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Por Rennan Leta

As mortes por COVID-19 de Antônio Edson Mesquita Mariano, 67 anos, e Maria Luiza Santana do Nascimento, 70 anos, na última segunda-feira (30), acenderam uma forte luz de alerta na favela da Rocinha, Rio de Janeiro.

De acordo com o último Censo do IBGE, a Rocinha é a maior favela do Brasil, com 69.161 habitantes e 23.357 domicílios - dados de 2010. Entretanto, estimativas dizem que hoje em dia a população local já ultrapassou 100 mil pessoas. Destes moradores, 45% tem renda entre um e três salários mínimos, 30% não contam com renda fixa e cerca de 10% vivem em situação de extrema pobreza.

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Além disso, há a questão da guerra entre tráfico e Estado e a situação das chuvas, que fizeram grandes estragos com enchentes e desmoronamentos, deixando diversas famílias até mesmo sem casa. A crise pandêmica, então, se torna mais um grande problema de devastação populacional que os moradores de favelas estão sujeitos.

Localizada na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, a imensa Rocinha não surgiu de uma hora para outra. Segundo o Sistema de Assentamentos de Baixa Renda (SABREN), foi em 1938 a primeira ocupação registrada na área, que teve como primeiros moradores operários e comerciantes portugueses. O asfaltamento da Estrada da Gávea e a construção do Túnel Dois Irmãos - hoje Túnel Zuzu Angel - contribuíram muito para a expansão territorial da Rocinha, que tem 838.648m² de extensão. É 3,5 vezes maior que a área do novo Maracanã. E conta com uma estrutura interna com inúmeros tipos de comércios: bancos, lojas, restaurantes, bares, lojas de roupa e muito mais estão distribuídos pelo Largo do Boiadeiro, Via Ápia e outras localidades internas da Rocinha.

Essa grandeza da maior favela do Brasil atraiu turistas com o passar dos anos e o lugar passou a ter um fluxo cada vez maior de pessoas, indo muito além dos próprios moradores. Em tempos de COVID-19, isso se tornou um grande risco e a associação de moradores orientou os guias turísticos a não fazerem esse tour pelas ruas e vielas.

Ainda assim, há a preocupação com a questão do isolamento social, que se torna muito necessária porque a Rocinha já acumula casos suspeitos:

“Uma sirene da prefeitura toca todos os dias pedindo para que as pessoas fiquem em casa. Faz duas semanas que estou em isolamento e na primeira semana eu vi que muita gente ficou assustada e realmente ficou em casa. Nessa segunda semana, aparentemente, mais pessoas estavam nas ruas. Não necessariamente as que precisavam sair só para trabalhar. Isso me deixou bastante preocupada, especialmente no fim de semana passado. Mas, ainda assim, percebo um movimento menor do que o normal aqui na parte alta”, relata Bruna Dias, moradora da Rocinha desde que nasceu, há 25 anos.

Falta estrutura e UPA não é suficiente

A Rocinha é um lugar enorme, que reflete e externa os problemas existentes em todas as favelas do Brasil, que abrigam milhões de pessoas (Reprodução)

Um dos grandes problemas de ter um vírus tão contagioso quanto o novo coronavírus em favelas como a Rocinha é que falta estrutura essencial, como saneamento básico e abastecimento de água. Bruna diz que outro ponto que deve ser levado em consideração é a dificuldade de fazer isolamento com muitas pessoas morando em casas que não são grandes.

“Alguns lugares não têm água, e isso não é de hoje. Essa situação dificulta bastante uma das principais formas de combate ao vírus, que é o simples ato de lavar as mãos. As casas são muito próximas umas das outras, muitas famílias moram com mais de três pessoas em um mesmo ambiente. Como fazer isolamento dessa forma? Além disso tudo, estamos falando de uma população que a maioria precisa trabalhar, alguns precisam sair todos os dias, com muitos trabalhadores informais que não podem ficar parados. O próprio comércio local é difícil de ser interrompido”, afirmou a moradora.

Os casos suspeitos são direcionados a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) que há no interior da comunidade. Os relatos são de que o atendimento não tem sido suficiente, com a triagem acontecendo na parte externa da Clínica da Família da Rocinha.

Há a preocupação com o pico de contaminação, que pode chegar causando grandes estragos para a população local. A Rocinha é um lugar enorme, que reflete e externa os problemas existentes em todas as favelas do Brasil, que abrigam milhões de pessoas.

Apesar de todo o combate e campanhas, nossos territórios ainda sofrem diariamente com a tuberculose, subnutrição, pneumonia e outras mazelas existentes. Um exemplo disso é que, de acordo com dados da Prefeitura do Rio, em 2014 a Rocinha registrou uma taxa de incidência de 372 casos de tuberculose por 100 mil habitantes.

Este número é 11 vezes mais alto que a média nacional, que ficou em 33,8 casos por 100 mil habitantes no mesmo ano. Essa realidade mostra que o poder público precisa agir de maneira mais presente para que os danos populacionais e econômicos sejam reduzidos.