Com enredo sobre Exu, Grande Rio é campeã do Carnaval carioca pela 1ª vez

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O jejum de 34 anos chegou ao fim. Com enredo sobre o orixá Exu, a Acadêmicos do Grande Rio se sagrou campeã do Carnaval carioca e conquistou o primeiro título de sua história. A Beija-Flor foi a vice-campeã, enquanto o terceiro lugar ficou com a Viradouro. Veja aqui como ficou a apuração nota a nota.

Na última edição, em 2020, a escola de Duque de Caxias chegou muito perto do título, mas perdeu para a Viradouro nos critérios de desempate.

Desta vez, porém, não teve quem parasse a agremiação, que fez um desfile considerado impecável.

Penúltima escola a entrar na avenida, a Grande Rio veio disposta a celebrar a potência de Exu e subverter a crença segundo a qual o orixá seria uma figura maligna, visão que é fruto da intolerância religiosa.

O que se viu na Marquês de Sapucaí foi um cortejo exuberante e cheio de simbolismo. A escola surpreendeu já na comissão de frente, que trazia como destaque o ator Demerson D'alvaro personificando Exu.

Na avenida, o artista se agarrava a um grande globo vermelho —representando a Terra— no qual havia quatro oferendas. Ao chegar ao topo, Exu se deliciava com os alimentos e gargalhava a plenos pulmões.

Especialistas e foliões rasgaram elogios à comissão de frente e à atuação de Demerson, considerada cheia de vigor e energia, como pede o orixá.

Batizada de "Câmbio, Exu", a comissão faz referência a Estamira, catadora de lixo que protagonizou um documentário que leva seu nome. No filme, ela usava um telefone para se comunicar com Exu e abria as conversas com a frase "Câmbio, Exu. Fala Majeté". Daí surgiu o nome do enredo deste ano, intitulado "Fala Majeté! Sete Chaves de Exu".

A Grande Rio também conseguiu traduzir na avenida todo o dinamismo de Exu, entidade que representa a mudança, a comunicação e o movimento. Exu, portanto, tem muitas faces. Foi pensando nisso que os carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Haddad decidiram colocar na avenida o orixá com múltiplas representações.

No sambódromo, havia Exu Caboclo, Exu Mirim, Exu feito Santo Antônio, Exu Bossa Nova, Exu Macunaíma. Embora fossem muitas, essas representações tinham em comum o tom vibrante e festivo que o Carnaval e o próprio Exu simbolizam.

Jayder Soares, patrono da Grande Rio, comemorou o título inédito após décadas de espera. "É Caxias, é o povo guerreiro. Chegamos lá!", disse.

Diretor de comunicação da escola, Antonio Ferreira afirmou que a conquista tem um sabor especial por ser o primeiro Carnaval após a pandemia e o primeiro título no grupo especial. "Muitos debochavam da gente. Todos podem contar com Caxias, com a Grande Rio", afirmou.

Ferreira também disse que o desfile passou a mensagem de que todos são iguais perante a Deus, independentemente da religião. "Cada um tem a sua opção. O ser humano é que cria o problema."

Rainha de bateria da Grande Rio, a atriz Paolla Oliveira encantou o público com fantasia inspirada na Pombagira, espécie de Exu feminino, entidade transgressora e insubmissa. Ao longo da avenida, Paolla se curvava para trás e ria como a Pombagira.

"Exu fala sobre potência, sobre comunicação, sobre tirar os conceitos que temos sobre determinadas coisas, abrir o coração, as mentes, para abrir os caminhos em volta", disse a atriz, ainda na concentração. "Tem festa, tem cultura, mas tem um pouco de crítica e política também."

Durante boa parte da apuração, a Beija-Flor e a Acadêmicos do Grande Rio disputaram o título décimo a décimo. Com um desfile sobre a contribuição de pessoas negras para a humanidade, a escola foi muito elogiada por foliões e especialistas.

Os julgadores, porém, deram o título à tricolor​ de Caxias.

Já a São Clemente, que neste ano homenageou o ator Paulo Gustavo, foi rebaixada para a série ouro.

O desfile da Grande Rio reflete em larga medida o tom do Carnaval deste ano no sambódromo, que foi pautado pela temática social. É o caso do Salgueiro, da Beija-Flor e do Paraíso do Tuiuti, que homenagearam as populações negras.

A Mangueira também celebrou figuras negras, com enredo sobre Cartola, intérprete Jamelão e mestre-sala Delegado, os três baluartes da verde e rosa.

A Vila Isabel também prestou homenagem a Martinho da Vila, principal representante da agremiação.

A Unidos da Tijuca fez um belo desfile sobre a lenda do guaraná, que celebrou os povos indígenas.

A exemplo da Grande Rio, a Mocidade também deu destaque às religiões de matriz africana, com enredo sobre as peripécias do orixá Oxóssi.

Neste ano, três escolas foram penalizadas. A Paraíso da Tuiuti perdeu dois décimos por causa de atraso no desfile. A Mocidade perdeu um décimo em razão de falhas em uma alegoria, já a Mangueira foi multada em R$ 60 mil por causa de atraso na saída dos carros. ​

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