Com enredos definidos, escolas têm desenhos de alegorias e fantasias prontos

Rafael Galdo
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Hoje, no segundo dia do show do Grupo Especial na Sapucaí, as arquibancadas estarão, assim como ontem, vazias em pleno carnaval, e a fábrica de sonhos que é a Cidade do Samba permanece interditada, com barracões irreconhecíveis num mês de fevereiro. Mas a produção artística do Reinado de Momo nunca parou, mesmo com as restrições da pandemia, e está guardada — a maioria a sete chaves — à espera do próximo desfile. Com todos os enredos escolhidos, a maioria das escolas tem os desenhos de fantasias e alegorias prontos ou em finalização. E também já se valem do talento de centenas de compositores: são 187 sambas que permanecem nas disputas das grandes agremiações, muitos com letras e melodias debatidas em reuniões virtuais, aptos a sacudir foliões quando for possível reviver essa emoção.

É verdade que são poucas, mas há agremiações que confeccionaram, inclusive, os protótipos dos figurinos de um carnaval que ficou para 2022. É o caso do Império Serrano e da Unidos de Padre Miguel, ambas da Série Ouro e assinadas, respectivamente, pelos carnavalescos Leandro Vieira e Edson Pereira. Já no Especial, a atual campeã, a Unidos do Viradouro, continuou a a produção dos modelos das fantasias apesar do fechamento da Cidade do Samba — está concluindo essa fase num ateliê da Zona Portuária, sob a batuta dos carnavalescos Marcus Ferreira e Tarcísio Zanon.

— No auge da pandemia, nós nos mudamos temporariamente para Saquarema, onde criamos quase 70% do carnaval — conta Marcus.

Tarcísio arremata, lembrando de uma máxima que deve valer para todos:

— Há uma escassez de materiais, principalmente importado. Então, vamos utilizar produtos da indústria brasileira, trabalhos artesanais.

Embora estreante como carnavalesco, os 18 anos de experiência nos bastidores dos barracões ajudaram Thiago Martins, da São Clemente, a já criar seus figurinos pensando nos planos A e B, diante dessa escassez. Estamparias e tecidos nacionais também ganharam destaque.

— Estamos com 90% do projeto pronto. A ansiedade para colocar tudo em prática é grande — diz Thiago, que montou escritório em casa.

Edson Pereira é outro artista que está com seus projetos inteiros desenhados. E são para suas três escolas: além da Padre Miguel, ele conduz a Vila Isabel e, em São Paulo, a Mocidade Alegre. E mesmo com o tempo mais elástico para completar a tarefa, ele está introduzindo uma novidade que promete otimizar, sobretudo, a construção das alegorias. É um software de animatrônica e uma máquina de impressão 3D que cria pequenas maquetes do que um dia vai encantar o público na passagem das três agremiações:

— Consigo fazer maquetes separadas da ferragem, da madeira, da escultura... Isso possibilita fazer testes e consertar erros no computador.

Não é de hoje que a tecnologia ajuda a aprimorar a arte da folia. A dupla Leonardo Bora e Gabriel Haddad, por exemplo, se conheceu nas edições do carnaval virtual — desfiles de escolas de samba com desenhos on-line. Atualmente na Grande Rio, eles não deixam de traçar seu carnaval à mão, da identidade visual do logotipo do enredo às alegorias. Mas, como a maioria dos carnavalescos, levam tudo para o computador, em projetos 3D. Esse processo para 2022, contam eles, está avançado, após intenso período de pesquisas e debates. Tanto que os dois deram uma parada nos últimos dias para voltar ao carnaval virtual, que terá edição especial hoje e amanhã, na internet.

Temáticas envolvendo questões raciais dominam

Não importa quando, os próximos desfiles já têm uma marca: será o “carnaval preto”. Das 27 escolas do Grupo Especial e da Série Ouro, 19 têm temáticas sobre questões raciais, personalidades negras e tradições culturais e religiosas afro-brasileiras.

Entre os enredos adiados para 2022, o Salgueiro clama “Resistência”, a Vila homenageia Martinho e, o Império Serrano, o capoeirista Mangangá. Tem Exu na Grande Rio, Oxóssi na Mocidade e Iroko na Unidos de Padre Miguel. E, de Nilópolis, vem “Empretecer o pensamento é a ouvir a voz da Beija-Flor”.

— Abordaremos a atuação de filósofos, escritores, artistas, ativistas... E vamos nos colocando como uma fileira a mais nessa luta — afirma o carnavalesco Alexandre Louzada.

Negro e integrante da comissão de carnaval da escola, André Rodrigues continua:

— O enredo vai dialogar com o que vivemos, sobre como somos marginalizados e como o pensamento preto é apagado. Se a gente morre por qualquer banalização da vida, é reflexo da repressão que ainda vivemos e que pauta o racismo ou a intolerância religiosa.

É uma safra de enredos que já suscita debates e atrai às disputas de samba artistas como Elza Soares, Carlinhos Brown, Sandra de Sá e Mariene de Castro, na Mocidade. E na Mangueira, que cantará Cartola, Jamelão e Delegado, o estreante é o ator Ailton Graça.

— Quando recebi o convite para integrar a parceria, confesso que me assustei. Estar nessa disputa é mágico — revela Graça.