Com evento no Havaí cancelado pela Covid-19, dupla vai do RJ a SC de canoa polinésia

Louise Queiroga
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Dois estudantes de Educação Física e instrutores de canoa havaiana em Niterói, na Região Metropolitana do Rio, colocaram em prática no início do ano um intrépido projeto criado por eles durante o lockdown na cidade em 2020, quando ficaram sem aulas presenciais e sem poder trabalhar por causa da pandemia da Covid-19. Rodrigo Fernandez e Gabiel Mattos iniciaram no dia 4 de janeiro uma remada de mil quilômetros até Santa Catarina, com previsão de chegada ao destino no próximo dia 15, e retorno ao Rio no dia 26.

Embora possa ser considerada a maior remada do país, Rodrigo ressaltou que bater recordes não é um objetivo da dupla na iniciativa intitulada Hale Hoe, que em havaiano significa casa do remo. Esses dois meses para Rodrigo e Gabriel representam a oportunidade de interagir com profissionais que lidam com esportes aquáticos e trocar conhecimentos com eles, de uma forma que tem superado as expectativas.

— O intuito da viagem não é bater um recorde, ter a maior remada do Brasil, superar quem já tenha feito alguma expedição. Nosso intuito é aprender, aprender remando, tendo as experiências de fato indo na base, nos clubes, perguntando a quem já trabalha com isso há muito tempo, a quem veio de outros esportes e começou a trabalhar com isso agora. E juntar o maior número de informação possível para a gente se capacitar, tanto como atleta, profissional, quanto pessoa — disse, em meio à intensa rotina de remar durante o dia e procurar um lugar para descansar à noite, além de fazer compras de mercado para cuidar da alimentação.

Rodrigo, que pratica remo de canoa havaiana há quatro anos e trabalha como instrutor, costuma dizer que começou a remar quando ainda era bem pequeno.

— Eu já remava nandando com meu pai lá na praia de Copacabana, remei muito também nas aulinhas de body board, nos campeonatos — contou o carioca, que se mudou para Niterói após ingressar na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Depois de ensinar stand up paddle por dois anos em Copacabana, na Zona Sul do Rio, ele descobriu na cidade do outro lado da Baía de Guanabara o esporte da canoa polinésia, pelo qual ficou encantado. Somando isso à sua experiência em outros esportes, Rodrigo começou a trabalhar no Aloha Hoa em Charitas.

— Quando me mudei para Niterói, nessa de continuar nos esportes aquáticos, eu conheci a canoa polinésia e comecei a remar também de Wa'a, como é chamdada a modalidade — lembrou. — O que me atraiu foi essa relação íntima entre praticar esporte, ter qualidade de vida e fazer uma atividade ligada à natureza, que o único benefício não seja o desempenho físico. Tem o astral de estar praticando com seus amigos, tem o sol nascendo, os pássaros cantando, as tartarugas no mar, então há esse contato direto com a natureza, começa a valorizar de forma diferente a rotina e até a prática esportiva. Isso é o que mais me prende na canoa polinésia atualmente.

Por isso, para o co-criador da expedição, o que há "de mais bonito na viagem é conhecer pessoas e trocar experiências".

— A gente está somando tudo isso num caldeirão de informações — acrescentou.

Rodrigo comentou que a pandemia da Covid-19 influenciou o projeto a ser posto em prática. Afinal, ele e Gabriel tinham planos de ir ao Havaí no ano passado para fazer um intercâmbio de seis meses. Por isso, marcaram de entregar o apartamento que dividiam, estavam com passagens pagas e reserva feita numa casa dessa ilha no Pacífico. A ideia era aproveitar um campeonato mundial que aconteceria por lá para ficar por mais um tempo aprendendo sobre o esporte da canoa havaiana.

— Todos esses planos foram interrompidos por conta da pandemia, então a forma de replanejar a vida e repensar como a gente poderia continuar desfrutando de tudo que o Wa'a traz de benefício pra gente, sem ter tido a oportunidade de ir ao Havaí, foi projetar essa viagem.

De acordo com Rodrigo, apesar de terem conseguido sair pelo litoral brasileiro, "a pandemia afeta negativamente em todos os aspectos". O primeiro deles foi mobilizar uma vaquinha sem falar pessoalmente com os conhecidos do clube em Charitas.

— Foi difícil até produzir um sorteio virtual — contou.

Já o segundo empecilho são as próprias medidas sanitárias para evitar a propagação do conoravírus.

— Além de todo processo de embarcar, desembarcar e procurar um hostel, a gente tem que fazer isso munido de máscara e álcool. Às vezes a gente sai da água e vai ao mercado, tem que voltar e higienizar tudo que a gente comprou para tomar café no dia seguinte. Então, demanda mais trabalho — explicou — Apesar de ser uma coisa que complique e atrapalhe, a gente já está se adaptando a esse novo normal e está conseguindo enfrentar esses problemas de forma razoavelmente bem.

Na quinta-feira, dia 28, quando Rodrigo compartilhou suas experiências da expedição com o EXTRA, a dupla já havia feito 18 paradas, sendo algumas em campings, hostels ou nos próprios clubes de canoa polinésia que visitaram pela costa. Entre os pontos mais marcantes, aparece a área depois de Santos (SP), até então nunca visitada por ambos.

— De momento marcante posso citar o caminho Bertioga a Santos, que a gente fez por dentro do canal da Bertioga, um trajeto que a gente já tinha passado uma vez numa competição, mas passar remando numa expedição tem outro valor — disse.

Uma situação desafiadora foi quando a dupla precisou desembarcar em Mongaguá enquanto seguem caminho com bastante peso — são cerca de 30 quilos de bagagem. A praia, conforme descreveu Rodrigo, tinha ondas quebrando longe da faixa de areia.

Mas segundo Rodrigo, foi próximo à Reserva da Jureia-Itatins onde enfrentaram o ponto mais difícil da viagem. Ao completarem a travessia entre Barra do Una e Ponta da Jureia, remaram por 55 quilômetros direto. Apesar disso, ele considerou esta região como uma das mais impressionantes.

— Outro momento marcante foi no final da Reserva da Jureia aqui no extremo Sul de São Paulo — disse. — Também era uma experiência nova pra gente. A gente nunca tinha navegado por essas águas. Tinha uma apreensão com relação aos animais, os insetos e tudo que a gente poderia enfrentar ali no caminho.

Rodrigo destacou ainda um encontro inesperado que ocorreu na terça-feira, dia 26, na Ilha Comprida.

— A gente encontrou alguns atletas do para-Wa'a brasileiro que vão representar o Brasil nas Olimpíadas de Tóquio desse ano — lembrou.

Os estudantes conheceram o Centro de Treinamento dos atletas, onde tiveram "uma troca de experiências muito rica".

— A gente já era fã desses atletas, já acompanhava nas redes sociais e estava sempre lá interagindo, torcendo. Poder encontrá-los e remar com eles, trocar algumas informações de detalhes técnicos de remada e também receber a energia e o carinho deles pra continuar remando essa expedição foi uma coisa que a gente nunca vai esquecer.