Com falta de plano, milhões investidos por Bolsonaro para salvar Pantanal são 'desperdício de dinheiro', diz especialista

João de Mari
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A jaguar walks at an area recently scorched by wildfires at the Encontro das Aguas park in the Pantanal wetlands near Pocone, Mato Grosso state, Brazil, Sunday, Sept. 13, 2020. Firefighters, troops and volunteers have been scrambling to find and rescue jaguars and other animals before they are overtaken by the flames, which have been exacerbated by the worst drought in 47 years, strong winds and temperatures exceeding 40 degrees centigrade (104 fahrenheit). (AP Photo/Andre Penner)
Uma onça passeia em uma área recentemente queimada por incêndios florestais no parque Encontro das Águas no Pantanal, no Mato Grosso (Foto: AP Photo/Andre Penner)

O governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) anunciou, nesta terça-feira (15), que irá repassar R$ 3,8 milhões para ações de combate a incêndios no Mato Grosso do Sul, com foco na região do Pantanal, que está sendo destruído pelas chamas. No entanto, a ausência de planos efetivos contra as queimadas por parte dos órgãos responsáveis pode significar, além da perda de um dos biomas mais importante do mundo, um desperdício de dinheiro.

Na visão de Carina Pensa, doutora e pesquisadora em ciências ambientais, a ajuda do Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR) para auxiliar o enfrentamento às chamas é importante, porém, ela enxerga que o governo deveria realizar um monitoramento global da situação e aplicar estes recursos “de forma inteligente”.

“Já foram muitos meses com incêndios e, com isso, perdemos cerca de 15% do bioma do Pantanal. Quanto mais demora menos eficiente vai ser, pois o problema será maior. Essa ajuda demorou muito e a verdade é que o valor do recurso fica cada vez menor em comparação ao tamanho do problema”, avalia.

De acordo com o ministério, os recursos repassados vão custear 37 ações que serão implementadas durante 90 dias. Entre elas, estão incluídas a contratação de 200 horas de voo para auxiliar o combate às chamas, locação de helicópteros e a compra de equipamentos para a contenção e extinção do fogo, como mangueiras, esguicho, abafadores, sopradores e piscinas flexíveis, entre outras medidas.

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No entanto, o órgão não especificou, na publicação do Diário Oficial da União nesta quarta-feira (15), como cumprirá a promessa de combater os incêndios. O ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, disse apenas que a verba “permite uma maior agilidade para combater esses incêndios”.

“Até agora eu não vi nenhuma sinalização do governo federal de ter um planejamento real no sentido de como vão lidar com essa situação. Você precisaria ter uma equipe de resgate de fauna, que até agora esta sendo praticamente voluntária. Tem que ter apoio para as comunidades locais que estão sendo afetadas. Como essas pessoas vão sobreviver depois disso, com o bioma danificado?”, indaga a bióloga Carina Pensa.

Biomas em chamas

A firefighter rides a motorcycle past a burning area next to the Transpantaneira road at the Pantanal wetlands near Pocone, Mato Grosso state, Brazil, Monday, Sept. 14, 2020. A vast swath of the vital wetlands is burning in Brazil, sweeping across several national parks and obscuring the sun behind dense smoke. (AP Photo/Andre Penner)
Um bombeiro passa de moto por uma área em chamas próximo à estrada Transpantaneira no Pantanal (Foto: AP Photo/Andre Penner)

Dados do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) mostram que o fogo vêm atingindo o Pantanal há meses. Foram registrados mais de 15 mil focos de incêndio na região, entre janeiro e 16 de setembro. No mesmo período do ano passado foram pouco mais de 5 mil. A estimativa é que a área devastada é de quase 3 milhões de hectares, equivalente a todo país da Bélgica.

A Polícia Federal (PF) afirmou, nesta segunda-feira (14) que o fogo que está consumindo o Pantanal “não pode ser acidente” e os investigadores ainda veem indícios das queimadas serem criminosas para a criação de área de pasto onde antes era mata nativa.

A bióloga Carina Pensa aponta que as mudanças climáticas e o desmatamento desenfreado podem ser fatores que contribuem para o período de secas no Pantanal durarem por mais tempo e dificultar o trabalho de contenção do fogo.

“Provavelmente as mudanças climáticas estão desempenhando papel de períodos de seca mais longos e críticos do que o normal. Além disso, o desmatamento na Amazônia acaba encurtando os períodos de chuva no Pantanal e em muitas regiões do Brasil, porque ela é responsável pela chuva em muitos biomas brasileiros”, destaca.

Além das queimadas que estão devastando o Pantanal neste mês de setembro — e cujas origens podem ser criminosas —, a Amazônia também está sofrendo com devastação gerada pelo fogo. Em apenas 14 dias, setembro de 2020 já registrou mais queimadas na Amazônia do que em todo o mesmo mês do ano passado, segundo o INPE.

Falta investimento

Há pouco investimento do Ministério do Meio Ambiente (MMA) em ações para preservação desses biomas. Segundo o Observatório do Clima, o MMA gastou pouco mais de R$ 105 mil em ações orçamentárias diretas neste ano até o dia 31 de agosto. O valor, que seria empregado ao combate à mudança do clima, a prevenção dos efeitos da desertificação e à proteção da biodiversidade, equivale a apenas 0,4% do orçamento autorizado para 2020.

“A gente vê isso na pratica, que a falta de planejamento e prevenção causa esse tipo de desastre e depois você precisaria de muito mais dinheiro para conseguir conter”, diz Carina Pensa.

A reportagem procurou o Ministério do Meio Ambiente solicitando saber quais sãos os planejamentos estratégicos do órgão para combater e fiscalizar os incêndios no Pantanal e na Amazônia. No entanto, não obteve resposta até a publicação.