Com falta de estoque, apenas oito capitais iniciaram vacinação contra Covid de crianças menores

Ao menos oito capitais do Brasil já começaram a aplicar a vacinação contra a Covid-19 para crianças de 3 a 5 anos. Outras dez esperam o envio de nota técnica pelo Ministério da Saúde ou abastecimento de doses para dar início à imunização, mesmo após a pasta ter recomendado, na sexta-feira, a ampliação da CoronaVac para esta faixa etária.

O GLOBO consultou todas as capitais do Brasil sobre o tema. Até agora, Rio de Janeiro, Boa Vista, Belém, Manaus, Salvador, Fortaleza, São Luís e Vitória já iniciaram a vacinação para as crianças dessa idade. As secretarias de Cuiabá, Belo Horizonte, Aracaju, Teresina e Palmas informaram que aguardam novas remessas de doses.

Outras seis cidades relataram que esperam nota técnica da pasta para orientar a vacinação: Macapá, Goiânia, Recife, Curitiba e Distrito Federal. As prefeituras de São Paulo e de Porto Velho indicaram que aguardam orientações estaduais, e Campo Grande justificou que analisa a melhor estratégia para efetuar a vacinação deste público.

De acordo com dados do sistema de vigilância Sivep-Gripe atualizados até junho e compilados pela Rede Análise Covid-19, desde o início da pandemia 5.513 crianças de 3 a 5 anos foram internadas no país com quadros da doença. Foram 202 mortes nessa faixa. Para os médicos, o número revela a gravidade da infecção na população infantil.

Na semana passada, a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o uso da CoronaVac em crianças de 3 a 5 anos. A recomendação da agência é que o esquema seja aplicado em duas doses com intervalo de 28 dias. O Ministério da Saúde afirmou que deve enviar a nota com orientações às secretarias de saúde até hoje.

Segundo especialistas que assessoram a pasta em relação à vacinação, a estimativa é de que sejam necessárias cerca de 12 milhões de doses para dar conta de completar o esquema em todo o público alvo. Atualmente, o ministério não tem estoque de doses, que foram repassadas a estados e municípios. O Instituto Butantan já enviou ao órgão informações a respeito da venda do imunizante, mas ainda não obteve resposta sobre a compra. Como a coluna de Lauro Jardim mostrou, a pasta avalia a possibilidade de comprar CoronaVac do Covax Facility, consórcio da Organização Mundial de Saúde (OMS), considerada uma transação mais vantajosa.

— O Ministério está avaliando todas as opções disponíveis. Assim como aconteceu durante a pandemia, não faltarão vacinas para aqueles que desejarem se vacinar — afirmou ao GLOBO o secretário-executivo da pasta, Daniel Pereira.

Desde o início da vacinação, o Butantan forneceu cerca de 110 milhões de doses ao Ministério da Saúde. Ao GLOBO, o instituto afirmou que está em tratativas com a pasta e espera que o imunizante seja incorporado pelo ministério.

Diante da escassez temporária de doses na rede pública, especialistas alertam que os locais que iniciaram a imunização tenham planejamento para garantir a segunda dose, já que o esquema da CoronaVac tem intervalo de apenas 28 dias.

— A gente precisaria de cerca de 12 milhões de doses de vacina, que o país não tem. O Brasil comprou aquelas 110 milhões de doses do Butantan, e em alguns estados que não atingiram a cobertura sobrou uma quantidade residual, que vai ser insuficiente. Quem está começando a aplicação precisa guardar a segunda dose, porque não há nenhuma perspectiva de curto prazo — analisa o diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Renato Kfouri, membro da Câmara Técnica de Assessoramento em Imunização da Covid-19.

Atualmente, a CoronaVac é usada nessa faixa etária no Chile, na China, na Colômbia, na Tailândia, no Camboja, no Equador e em Hong Kong. Para autorizar a vacina no país, a Anvisa analisou dados produzidos em estudos realizados no Brasil e em outros cinco países, que demonstraram o benefício do imunizante. Uma dessas pesquisas, conduzida pelo Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes (Hucam), da Ufes, em parceria com o Instituto René Rachou (Fiocruz Minas), mostrou que a vacina gera três a quatro vezes mais anticorpos neutralizantes no grupo de 3 a 5 anos em relação aos adultos.

Professor da Santa Casa de São Paulo e presidente do departamento de imunização da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o infectologista Marco Aurélio Sáfadi afirma que é preciso ampliar a vacinação para crianças menores. Segundo ele, é preciso que haja celeridade por parte do Ministério da Saúde para garantir a proteção nessa faixa etária.

— Existe uma tendência de maiores taxas de mortalidade nas crianças menores quando comparadas às das crianças de maior idade. Então, não há dúvida de que estender o benefício da vacinação a crianças de todos os grupos etários é importante — explica Sáfadi. —No mundo ideal, a gente imaginava que houvesse preparo das autoridades para que, uma vez que essa autorização fosse anunciada, que era algo iminente e mais ou menos previsto, houvesse mobilização no sentido de implementá-la o mais rápido possível. Já vimos que com essa doença perder tempo é perder oportunidade.

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