Com falta de profissionais e lotadas, UPAs de SP viram hospitais improvisados

ALINE MAZZO
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Feitas para prestar um primeiro atendimento aos pacientes em caso de urgência e emergência, as UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) da capital paulista acabaram sendo transformadas em hospitais improvisados para abrigar doentes de Covid-19 que necessitam de internação. Diante da escassez de vagas na rede, algumas dessas unidades viram a quantidade de leitos praticamente triplicar, ocupando até consultórios. As instalações, feitas para atender casos de baixa e média complexidade, agora têm de abrigar doentes graves --muitos intubados--, mesmo sem ter estrutura completa e profissionais habilitados e em quantidade para tal, segundo funcionários e especialistas ouvidos pela reportagem. Nesta quarta-feira (31), a capital registrou 92% de ocupação dos 1.375 leitos de UTI para Covid. Já das 1.286 vagas de enfermaria, 83% tinham pacientes. "É uma improvisação perigosa, mas não há outra saída", avalia Gonzalo Vecina Neto, professor de saúde pública da Faculdade de Medicina da USP. Profissionais de saúde relataram, sob condição de anonimato, que têm se desdobrado para aprender a cuidar de pacientes mais graves, lidando com equipamentos e procedimentos com os quais nunca haviam tido contato. "Eu nunca tinha trabalhado com um respirador. É um equipamento complexo, qualquer vacilo você pode até descompensar um paciente", diz uma enfermeira que trabalha há quatro anos em uma UPA na zona sul. Relato parecido com o de um técnico em enfermagem que atua em UPA da zona leste. "A gente tem se desdobrado para fazer o que é possível, mas temos uma limitação de conhecimento, de estrutura e de pessoal. Eu mesmo não sabia como pronar um paciente, mas estou tendo que aprender na raça", diz ele a respeito do procedimento que coloca o paciente intubado de barriga para baixo, para que o pulmão possa se expandir com mais eficiência, melhorando o padrão respiratório. O presidente do Coren-SP (Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo), James Santos, diz que a entidade tem recebido muitas queixas de quantidade insuficiente de profissionais, além da falta de condições de trabalho. "Os profissionais da UPA são capacitados para estabilizar o paciente em uma emergência. Eles não têm capacidade técnica para dar os cuidados específicos que um doente grave demanda", afirma. Para Karina Calife, sanitarista e professora do departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina da Santa Casa, a falta de profissionais habilitados para cuidar de casos graves nessas unidades é extremamente preocupante. "Cada paciente grave mobiliza um grupo de ação multidisciplinar com médicos, enfermeiros, técnicos e fisioterapeutas. Sem esses profissionais, o atendimento fica comprometido e pode aumentar a letalidade." As UPAs --há 15 em São Paulo-- foram criadas para desafogar os hospitais, prestando um atendimento inicial a fim de estabilizar o paciente e mantê-lo internado, se necessário, por até 24 horas. Em casos graves, o doente deveria ser transferido para um hospital. Assim, essas unidades não possuem uma rede estruturada de gás, por exemplo, nem espaço e condições para implantação de leitos de UTI. No entanto, alguns pacientes têm permanecido internados mais de 20 dias. No último dia 20, dez pacientes atendidos na UPA Ermelino Matarazzo, na zona leste, tiveram de ser transferidos às pressas a hospitais da região por risco de falta de oxigênio. Segundo servidores, três pacientes teriam morrido em decorrência da falta do gás --a prefeitura nega. Dois dias depois, seis doentes tiveram de ser removidos da UPA Tito Lopes, também na zona leste, e levados a outras unidades. Funcionários também chamam atenção para a sobrecarga da rede de gás, já que muitas vezes utilizam equipamentos que permitem conectar dutos que serão usados por dois pacientes em uma única saída de oxigênio. "A pressão da rede de gás pode cair e o paciente não receber a quantidade de oxigênio indicada", explica o presidente do Coren. Como os leitos não são de unidades intensivas, os profissionais se queixam também de dificuldade para fazer alguns procedimentos. "Grande parte desses leitos improvisados têm aquela cabeceira fixa. Se precisar intubar, não dá para o profissional se posicionar corretamente. As condições são muito adversas", aponta Domingos Costa Hernandez Junior, especialista em gestão de serviços públicos de saúde pela Fundação Getúlio Vargas que trabalhou na Secretaria Municipal da Saúde até 2016. Embora critiquem a redução de leitos habilitados pelo Ministério da Saúde em 2021, os médicos ouvidos pela reportagem afirmam que a gestão municipal deveria ter estruturado melhor a expansão de leitos quando a pandemia dava sinais de arrefecimento, em outubro, e já se sabia da possibilidade de uma nova alta de casos. "Tínhamos de ter investido na ampliação de leitos. São Paulo já precisava de mais leitos de UTI, independente da pandemia. Também deveríamos ter estruturado decisões a serem tomadas em caso de uma segunda onda, como um lockdown de verdade. Mas não fizemos isso e agora ficamos sem opção, em uma situação muito triste", afirma Calife. OUTRO LADO Procurada, a Secretaria Municipal da Saúde informou que tem tomado as medidas necessárias para atender a todos os pacientes do município. Em nota, afirmou que "desde o início da pandemia, entregou nove hospitais, ampliou os leitos para 1.375 de UTI e 1.286 de enfermaria", destacando que São Paulo apresentava 570 leitos de UTI antes. Informou que realiza adaptações nas UPAs e que, para atender pacientes de alta complexidade, elas tiveram aumento no número de equipamentos. Também escreveu que "os colaboradores recebem capacitação e têm expertise em pacientes graves e, realizam visitas diárias de tele UTI com a equipe de referência do [Hospital Albert] Einstein.