Com faturamento de R$ 41 bi, mercado pet já vende mais que linha branca

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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Manuela, de seis anos, ficou muito triste com a suspensão das aulas na escolinha ano passado. Estudante do último ano da Educação Infantil, a menina tinha acabado se ser matriculada em uma nova escola quando a pandemia começou. Filha única, sem o contato com os antigos colegas, e privada da convivência com os novos, começou a ficar nervosa e a chorar com facilidade.

Manu sempre foi apaixonada por cachorros, mas a mãe, Dalila de Souza Bonfim, 42 anos, relutou o quanto pode em trazer um animalzinho para casa. "Eu era complexada com cachorro desde pequena, tinha medo", conta. "Mas achei que seria egoísmo não atender a Manu neste momento tão difícil". A solução foi pagar R$ 2 mil por um cachorro da raça shih tzu, que solta pouco pelo e era o mais indicado para a menina, que tem rinite alérgica.

Dalila estabeleceu uma série de regras para Floquinho, como não subir no sofá ou deitar na cama. Todas caíram por terra rapidamente. "Hoje nas videochamadas para ver a Manu e o meu marido, quando viajo a trabalho, também quero ver Floquinho, virou membro da família", diz a professora, lembrando que a convivência com o cãozinho ajudou Manu a superar a perda da avó paterna, no início do ano.

O amor de famílias como a Bonfim por seus bichinhos de estimação ajudou o mercado pet a movimentar R$ 40,8 bilhões no ano passado, segundo o IPB (Instituto Pet Brasil), que acompanha os setores de criação, produtos e serviços para pets. O montante é maior do que fatura o setor de linha branca (fogões, geladeiras, freezers, máquinas de lavar, por exemplo), que movimentou R$ 29 bilhões em 2020, segundo a consultoria Euromonitor.

"As pessoas queriam uma companhia durante o isolamento, sejam para elas mesmas ou para os filhos, que ficaram sem ir à escola", diz o presidente do conselho consultivo do IPB, Nelo Marraccini. Levantamento do IPB aponta que houve um aumento de 50% no número de animais adotados nas capitais do Sudeste durante a pandemia.

No mesmo período, segundo uma outra pesquisa, da consultoria Bain & Company, 18% dos consumidores brasileiros adotaram um pet. Hoje a população de animais domésticos no Brasil soma 144,3 milhões, entre cães, gatos, peixes e aves ornamentais, répteis e pequenos mamíferos.

"O segmento dos gatos é o que mais vem crescendo", diz Marraccini. "Possivelmente por ser um animal que se adapta bem a ambientes pequenos e é mais independente em relação ao cão, não precisa sair para passear, por exemplo", diz o executivo.

Ao tratar o pet como membro da família, o consumidor aumenta os gatos: este ano, segundo o IPB, o setor vai faturar R$ 46,5 bilhões, uma alta nominal de 14%, sem descontar a inflação.

Alimentação e saúde são os investimentos mais relevantes: só em clínicas e hospitais veterinários devem ser gastos R$ 8,3 bilhões este ano, segundo o IPB. E se, no passado, os tutores preparavam a comida para o cão com quirela, junto com as sobras do almoço ou da janta, agora existe uma preocupação com alimentação balanceada. "O dono vegano vai comprar ração vegana para o seu pet, porque acredita que isso é o melhor para ele", diz Marraccini.

A BRF, gigante dos alimentos, dona de Perdigão e Sadia, sabe disso. A empresa entrou no mercado há quatro anos, com a marca Balance. Mas este ano a aposta mais do que dobrou: por meio da subsidiária BRF Pet, o grupo investiu R$ 1,35 bilhão na compra de duas fabricantes de rações, a Mogiana Alimentos e o Grupo Hercosul. As compras fizeram a BRF Pet atingir 10% de participação em volume no mercado de ração, que tem forte presença de multinacionais como Mars (dona das marcas Pedigree, Royal Canin e Whiskas) e Nestlé (Purina).

A Nestlé Purina, por sinal, acaba de anunciar investimentos de R$ 1 bilhão em um novo parque industrial em Santa Catarina. Além de abastecer o mercado local, a nova planta vai exportar ração para Europa, Estados Unidos e outros países da América Latina. Em maio, a empresa já tinha anunciado um investimento de R$ 120 milhões para expandir em 30% a produção em Ribeirão Preto (SP).

"O mercado pet é uma das grandes oportunidades de crescimento da companhia para os próximos dez anos", diz Marcel Sacco, vice-presidente de novos negócios da BRF. As rações são o maior segmento do mercado pet, respondendo sozinhas por vendas de R$ 24,5 bilhões este ano, segundo o IPB.

Para a BRF, a produção de ração é vantajosa porque explora a verticalização da sua cadeira. A empresa conta com a BRF Ingredients, uma unidade de negócios que tem como principal cliente a própria companhia. Há um reaproveitamento dos resíduos industriais (coprodutos) de 32 fábricas, que são utilizados como matéria-prima em novos itens, como farinhas, gorduras animais e proteínas hidrolisadas para nutrição animal. "É uma maneira de alavancarmos a economia circular", diz Sacco.

Com as duas aquisições, a BRF passa a trabalhar desde marcas de alto valor agregado até as básicas. Estão no seu portfólio nomes como Guabi Natural, Gran Plus, Faro, Herói e Cat Meal.

"Agora vamos consolidar as marcas e deixá-las menos regionais, com maior atuação nacional", afirma o executivo. A Mogiana, por exemplo, tem presença mais forte no Sudeste e Centro-Oeste do país, enquanto a Hercosul é mais forte no Sul. A BRF Pet hoje tem cinco fábricas - duas em São Paulo, uma no Paraná, uma no Rio Grande do Sul e um no Paraguai. "Também pretendemos acelerar as exportações, aproveitando a presença da BRF em 140 países".

O foco da BRF Pet é a alimentação de cães e gatos. "A venda de rações para gatos cresce mais rapidamente que a de cães", diz Sacco, que destaca para ambas as raças a oferta de alimentos úmidos, os patês. "São produtos de alto valor agregado, que representam uma atenção a mais dos tutores para com os pets", afirma.

A marca premium Royal Canin, da rival Mars, por exemplo, acaba de apresentar dois novos alimentos úmidos para gatos com "sensibilidades específicas". O preço sugerido do sachê de 85 gramas no varejo gira em torno de R$ 12.

O mercado pet também chamou a atenção da Coala, fabricante de produtos de limpeza. A companhia anunciou em julho uma nova linha de xampus, condicionador, colônias e educador sanitário para animais de estimação, que começa a ser vendida em todo o país em outubro. "Esperamos chegar a 30% das nossas vendas totais dentro de quatro meses", diz Suzana Meneghetti, diretora executiva da Coala.

Nas duas maiores varejistas do setor -Petz e Cobasi-, a ordem tem sido ganhar escala no mundo digital, onde a Petlove é a maior rival de ambas. O petshop online recebeu no ano passado um novo sócio, o fundo japonês Softbank para a América Latina, que injetou R$ 250 milhões no negócio.

Para avançar ainda mais no mercado, Petz e Cobasi tem feito aquisições. No mês passado, a Petz anunciou a compra de 100% da plataforma Zee.Dog, de acessórios para pets, por R$ 715 milhões. Antes, em julho, havia fechado a aquisição de uma plataforma menor, a Cansei de Ser Gato. A empresa completa este mês um ano de oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês), quando levantou mais de R$ 3 bilhões, e continua analisando novas oportunidades de compra.

Em maio, a Cobasi adquiriu a Pet Anjo, uma plataforma que intermedia serviços como dog walker, pet sitter, hospedagem e daycare. A compra ocorreu após o investimento R$ 300 milhões feito pela Kinea Private Equity, gestora do grupo Itaú Unibanco, na varejista.É dinheiro para cachorro. Também.

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