Com futuro incerto, Sergio Moro engole o choro e rasteja por voto bolsonarista

Brazil's President Jair Bolsonaro talks with Brazil's Justice Minister Sergio Moro during a ceremony at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil December 18, 2019. REUTERS/Adriano Machado
Jair Bolsonaro com seu então ministro Sergio Moro. Foto: Adriano Machado/Reuters

Faz alguns dias que o portal UOL revelou que a família Bolsonaro adquiriu mais de meia centena de imóveis comprados, total ou parcialmente, em dinheiro vivo.

Sergio Moro, ex-juiz da Lava Jato que entrou na corrida ao Senado, pelo Paraná, vestido de xerife contra a corrupção, não escreveu uma linha a respeito.

E olha que de imóveis ele entende: por considerar que houve corrupção na compra, não realizada, de um tríplex no Guarujá, ele condenou o ex-presidente Lula (PT) à prisão e o tirou da corrida eleitoral em 2018.

A corrida foi vencida por Jair Bolsonaro (PL), a quem Moro serviu como ministro da Justiça.

A aliança foi rompida no segundo ano de mandato, quando o ex-juiz acostumado a dar ordens e ser obedecido descobriu que estava lá para obedecer aos caprichos do presidente –entre os quais, o desejo de trocar o comando da superintendência da Polícia Federal no estado onde seus filhos eram investigados.

Moro deixou o posto atirando. Desde então saiu batendo às portas do mercado de trabalho.

Veja como foram as últimas pesquisas eleitorais de 2022:

Ele virou alvo ao atuar em uma consultoria dos EUA responsável por botar em dia as contas e processos das empresas investigadas pela Lava Jato em seus tempos de magistrado.

Ensaiou uma candidatura à Presidência que jamais decolou.

O prêmio de consolação foi a candidatura ao Senado após trocar o Podemos pelo União Brasil.

Desde então, como candidato, tem se saído um ótimo comentarista de portal.

Moro tem usado o Twitter para mostrar que ainda é o pesadelo do ex-presidente Lula, tema de um a cada três tuítes escrito pelo ex-juiz no Twitter (a estatística é incerta pois está em atualização permanente).

O leitor desavisado fica em dúvida se Lula está concorrendo ao Senado ou se Moro ainda está na pista na corrida pelo Planalto.

No dia em que o candidato petista foi entrevistado pelo Jornal Nacional, Moro escreveu aos seguidores: “Espero que Lula seja perguntado com firmeza no @jornalnacional sobre Mensalão, Petrolão, triplex e Atibaia. Se precisarem de ajuda, sou voluntário. Tenho experiência”.

Não se sabe se Moro confunde só agora entrevista para a TV com julgamento ou se já confundia julgamento com entrevista para a TV na época em que Lula prestou depoimento a ele.

Até o eleitor com dificuldade de entender por que o ex-magistrado foi considerado parcial em sua sentença sabe que a um juiz não cabe “apertar com firmeza” uma pessoa acusada, e sim tomar ciência das acusações e argumentos da defesa para só então julgá-la. Na Lava Jato, como mostrou o hacker de Araraquara, os papeis de acusador e julgador se confundiam.

Moro sempre negou que a perseguição fosse algo pessoal. Até se tornar candidato e provar o contrário em cada post.

No papel de ombudsman das postagens do petista, Moro já compartilhou tuíte de Lula sobre a Lava Jato dizendo para ele parar de “mentir ao povo”.

Também já mostrou preocupação com a vida após a morte de Lula ao aconselhar confissão e arrependimento ao pecador. “Não ganham a eleição, mas são passos necessários para a redenção da alma”, escreveu o ex-juiz, para quem “Lula não tem condições morais de participar de um debate sobre corrupção”.

Alguém certamente deve ter alertado o ex-juiz que ele estava em busca de uma vaga ao Senado, e não de analista político em algum programa da Jovem Pan. Hoje a corrida é liderada pelo ex-amigo e ex-colega de Podemos Álvaro Dias, com quem rompeu ao cobiçar sua vaga.

Avisado que não dá para atacar a Rússia e a França sem deixar as fronteiras desguarnecidas, já que quase 80% dos eleitores concentram suas preferências hoje a Lula ou a Bolsonaro, Moro tomou um lado da batalha e focou os esforços em se mostrar um candidato que pode até não ter ideia do que fará em Brasília, mas ao menos estará contra Lula e o PT.

O esforço exigiu uma mensagem de paz ao presidente que o enxotou do governo em 2020 e ainda colou em suas costas o adesivo de “traidor”.

Em um vídeo, Moro disse que ele e Bolsonaro seguem juntos na trincheira porque ao menos têm algo em comum: o adversário. E que estará sempre do lado oposto deste inimigo.

Como resumiu o sociólogo Celso Rocha de Barros no Twitter, Moro queria ser Giovanni Falcone, o todo-poderoso juiz da Operação Mãos Limpas na Itália, mas virou Frederick Wassef, o advogado da família Bolsonaro.

A estratégia explica o silêncio sobre o modus operandi da família do ex-chefe em conseguir dinheiro e pagar imóveis em cash.

Rosângela Moro, "conje" do ex-juiz, certa vez disse que o marido e Bolsonaro eram uma coisa só.

Seguem sendo, a se levar em conta a indignação seletiva que une ex-ministro e ex-chefe. Quem disse mesmo que a batalha era contra a corrupção?