Com impasse no Leste ucraniano, analistas veem conflito mais violento e que poderia se arrastar 'por anos'

A violência da ofensiva russa no Leste ucraniano, agora com combates concentrados nas cidades de Severodonetsk e Lysychansk, as últimas na região de Luhansk ainda sob controle parcial de Kiev, levanta algumas questões sobre os próximos passos da guerra, além do tempo durante o qual os dois lados conseguirão manter suas atuais estratégias.

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Os ucranianos sofrem dezenas de baixas diárias e dependem dos armamentos prometidos pelo Ocidente para tentar reverter a situação, enquanto os russos, embora sigam com a narrativa de sucessos nas batalhas, conseguem avanços a conta-gotas, e Moscou parece não saber — ou não revelar publicamente — o que realmente quer com a invasão.

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Nos combates pelo controle de Severodonetsk, os russos parecem perto de forçar uma retirada ou uma rendição das forças de resistência. Apesar de não ter grande importância estratégica, assumir o controle da cidade, que hoje está praticamente devastada, seria um passo importante para os russos controlarem Luhansk.

No final de março, a Rússia anunciou uma mudança nos planos para o conflito, abandonando o que parecia ser uma estratégia de controle total do país e passando a concentrar suas forças no Leste, onde aliados separatistas controlam, desde 2014, boa parte dos territórios de Luhansk e Donetsk.

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Teoricamente, na visão dos estrategistas militares russos, essa “correção de curso” poderia render algumas vitórias para Vladimir Putin — afinal, a resistência seria menor do que a enfrentada em Kiev e Kharkiv, e rotas de suprimentos através do Leste e da costa do Mar de Azov estavam perto de serem consolidadas.

A realidade foi mais complexa do que as previsões: os ucranianos, amparados por armas fornecidas inicialmente por aliados, como metralhadoras e foguetes antitanque, atrasaram o avanço dos russos em Mariupol, Izyum e, agora, Severodonetsk. Nos últimos dias, os russos conquistaram novas áreas, e destruíram todas as pontes de acesso à cidade, mas não a controlam totalmente.

Pedidos de armas

Neste cenário, há que se perguntar por quanto tempo os dois lados vão manter uma guerra que analistas militares dizem ser mais violenta do que os conflitos no Iraque e no Afeganistão.

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Pelo lado ucraniano, a resposta passa pelas armas prometidas por aliados ocidentais: em entrevista ao Financial Times, Andriy Zagorodnyuk, ex-ministro da Defesa ucraniano e hoje conselheiro do governo, considera que seus militares “não estão se saindo mal”, apesar das condições adversas.

— Estamos segurando [os russos] lá [em Donbass, no Leste] com uma desvantagem de equipamentos de 10 para um. E mesmo assim eles não conseguem se mover e estão perdendo pessoal — afirmou.

As autoridades ucranianas repetem, diariamente, que precisam receber armamentos mais potentes e modernos, incluindo sistemas de defesa aérea, obuses (equipamentos de artilharia), mísseis antitanque, metralhadoras e munição. Os itens foram incluídos em pacotes de ajuda militar anunciados por EUA, Canadá e União Europeia.

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Mas a entrega foi dificultada por questões logísticas, pela ameaça russa de atacar comboios de transporte e pela relutância de alguns governos em fornecer armas que pudessem ser usadas para atacar o território russo — existe o medo de uma ação do tipo ser encarada por Moscou como um ataque direto da Otan, aliança militar liderada pelos EUA, com consequências difíceis de prever.

No começo do mês, o chanceler russo, Sergei Lavrov, chegou a dizer que o fornecimento de um novo sistema de lançadores de foguete, vindos dos EUA, poderia ampliar o conflito ao criar o risco de arrastar um "terceiro país" para os combates.

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Nesta terça-feira, a vice-ministra da Defesa da Ucrânia, Anna Malyar, disse ter recebido apenas 10% do equipamento requisitado ao Ocidente.

— Por mais esforços que faça a Ucrânia, e por mais profissional que seja nosso Exército, sem a ajuda de nossos aliados ocidentais não poderemos ganhar essa guerra — disse Malyar, citada pela AFP, sem explicar se o número se refere a pedidos recentes ou envolve todo o período da guerra. Para ela, “cada dia de atraso é um dia a mais contra a vida dos soldados ucranianos e de nosso povo”.

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Em entrevista ao New York Times, o conselheiro do presidente Volodymyr Zelensky, Mykhailo Podolyak, disse que a Ucrânia precisa de 300 sistemas móveis de lançamento de foguetes, mil obuses, 500 tanques, 2 mil veículos blindados e mil drones para poder combater os russos em Donbass. O pedido foi feito dias antes de uma reunião de ministros da Defesa da Otan em Bruxelas.

— Os parceiros têm [os equipamentos]. Em quantidade suficiente. E nós trabalhamos diariamente pela vontade política para que nos deem essas armas apareça — disse ao New York Times. Alguns desses equipamentos, como os de artilharia, já estão chegando às tropas ucranianas, mas talvez isso não seja suficiente, ao menos para uso imediato.

Questão de tempo

Falando à Al Jazeera, Konstantinos Loukopoulos, especialista grego que atuou na Otan e lecionou em academias militares russas e ucranianas, apontou que itens como blindados ou obuses não podem ser usados sem treinamento prévio, “e isso não muda em tempos de guerra”.

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— Para que a Ucrânia absorva as armas do Ocidente e as torne operacionais, formando as unidades corretas e as treinando, seriam necessários oito, nove meses, e eles não podem retirar unidades do front para treiná-las — declarou à Al Jazeera.

Em abril, os EUA começaram a treinar militares ucranianos na Alemanha para que usem “sistemas-chave contra a agressão russa”, afirmou o Departamento de Defesa.

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Enquanto as armas não chegam, os ucranianos tentam causar o maior dano possível ao inimigo.

— Se os ucranianos conseguirem arrastar os russos para um combate urbano, há uma maior chance de causarem mais mortes do que os russos poderiam esperar — declarou ao New York Times Gustav Gressel, especialista do Centro Europeu de Relações Exteriores.

A presença das forças russas em combates nas ruas poderia ainda inibir o uso de artilharia pesada, parte central da invasão. Para os especialistas, um comandante pensaria duas vezes antes de atacar uma área onde suas próprias tropas estão presentes.

Pelo lado da Rússia, saber até quando Moscou está disposta a lutar passa menos pelo campo de batalha, onde o Kremlin não parece disposto a desmobilizar seus esforços de guerra e ainda conta com grande apoio interno, e mais pelas hoje estagnadas negociações diplomáticas.

Em artigo publicado no começo de julho na Foreign Policy, Tatiana Stanovaya, fundadora da consultoria R.Politik, afirma que Putin não considera que esteja perdendo a guerra e avalia que, neste momento, mais importante do que ganhos territoriais é manter a presença militar na Ucrânia e atacar a infraestrutura de Kiev.

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Ele também aposta em fissuras no apoio internacional aos ucranianos, e em um eventual acordo mais amplo com o Ocidente, onde a Ucrânia seria apenas uma parte — antes do início do conflito, Putin exigia “garantias de segurança” relacionadas à expansão da Otan no Leste Europeu e sobre o status de Kiev. Hoje, não há qualquer movimentação, seja em Bruxelas, seja em Washington, nesse sentido.

“E isso dá uma ideia de quanto tempo o conflito poderá durar: anos, no melhor dos casos”, afirmou Stanovaya.

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