Com inflação dos preços nas praias, o segredo dos cariocas e turistas é barganhar

A praia é de graça, mas reserva surpresas que podem pesar no bolso. Neste começo de verão, com muita gente de férias e a cidade cheia de turistas, um passeio pela orla tem um custo diferente dependendo de onde o visitante fincar o guarda-sol. O aluguel do equipamento para garantir a sombra, por exemplo, pode variar até 300% (de R$ 20 a R$ 80) no trecho de areia entre os postos 1 e 2, em Copacabana. Por ali, o valor mais caro foi encontrado em frente à Praça do Lido, curiosamente na mesma altura em que, na noite da virada, barraqueiros cobravam R$ 700 por uma mesa dentro de cercadinhos irregulares.

Após o réveillon, festa acompanhada por 3 milhões de turistas na capital fluminense, segundo cálculos da Riotur, as praias seguem cheias. Nesta quarta-feira, em que a temperatura máxima foi de 35,4°C, segundo o Sistema Alerta Rio, nem a aproximação de uma frente fria, que trouxe chuva no fim do dia, conseguiu desanimar quem queria sombra e água fresca diante do calor.

No entanto, na praia da Barra da Tijuca, na altura da Avenida Olegário Maciel, um dos mais badalados pontos do bairro, Irio Fiorentino questionou o barraqueiro que queria lhe cobrar R$ 20 por um guarda-sol pequeno:

— Está achando que eu moro na Barra? — questionou o morador do Méier, afirmando que sua realidade financeira não era compatível com o valor. — As coisas têm aumentado nos últimos tempos. Eu pagava R$ 5 no mate, hoje já está R$ 7. O negócio é trazer cadeira e guarda-sol de casa. Fui na barraca ao lado e consegui pagar R$ 10.

— Cobrar caro não é inteligente porque o cliente volta no dia seguinte e, se você for oportunista, ele vai gastar em outro lugar — observa Quitéria Barbosa, a Baiana, proprietária da barraca que leva o seu apelido e fica na altura da Olegário Maciel. Ela explica que o seu preço não foi alterado com o aumento no movimento:

— Nós temos esse cliente do réveillon e queremos tê-lo nos dias 1º, 2 e 3. Você pode ver que, mantendo o meu preço, eles voltam — completa Baiana, apontando para a areia. Segundo ela, nesta quarta, a previsão era atender 500 pessoas. Como parâmetro, nos dias de ano novo (31 de dezembro e 1º de janeiro), em que a barraca funcionou 24 horas seguidas, o número chegou a 4,5 mil clientes.

A equipe do EXTRA percorreu as praias de Barra da Tijuca, Copacabana, Ipanema, Leblon e Leme e constatou que há variação nos preços de vários produtos, como coco gelado, garrafa de água mineral e latão de cerveja, além do aluguel de cadeiras e guarda-sóis.

Na Praia do Pepê, também na Barra, entre os postos 12 e 13, a barraca Família Araújo cobrava R$ 7 pelo aluguel de uma cadeira. O preço contrasta com o cobrado pela barraca Mangueira Point 57, no Posto 2 de Copacabana, na altura da Praça do Lido, que cobrava R$ 30 pelo mesmo item, uma variação de 328%, a maior entre os produtos.

Diante do que sobrou do palco de shows montado em frente ao Copacabana Palace, que está sendo desmontado após a virada do ano, a barraca Mangueira Point 57 também é a que cobra R$ 80 pelo aluguel de um guarda-sol tamanho G. O valor é até quatro vezes maior que o praticado em outros pontos: nos postos 1, no Leme, e 5, na altura da rua Almirante Gonçalves, em Copacabana, o item era oferecido entre R$ 20 e 30, enquanto no Posto 9, na altura da Rua Joana Angélica, em Ipanema, o preço máximo chegava a R$ 50. Em outros pontos do mesmo Posto 2, a proteção contra o sol era encontrada a partir de R$ 30, mesma situação da Barra da Tijuca.

Na região em que guarda-sóis chegavam a R$ 80, barraqueiros montaram cercadinhos durante o réveillon pela "bagaleta" de R$ 100 por uma cadeira de praia e até R$ 700 por uma mesa de quatro lugares. Segundo a Secretaria municipal de Ordem Pública (Seop), em números desta terça-feira, 23 estabelecimentos — entre barracas e quiosques — serão multados pela ocupação irregular de espaço. O valor das punições partirá de R$ 3 mil, com aumento em caso de agravantes, como a reincidência. No entanto, até o fechamento desta reportagem, a pasta não divulgou quem já foi multado, nem se algum dos barraqueiros perderá sua licença de funcionamento.

Se turistas até pechincham, mas acabam ficando "nas mãos" dos barraqueiros, cariocas costumam encontrar alternativas para frequentar a praia sem gastar muito. Ceni Amorim, por exemplo, diz que é preciso ter estratégia. Moradora de Vila Isabel, ela estava na terça-feira no Leme, no Posto 1, acompanhada de dez pessoas da família, entre adultos e crianças.

— Quem é do Rio não dá esses moles (de pagar caro) porque a gente traz de casa — afirmou, enquanto seus familiares comiam um macarrão que chegou à praia em um pote de plástico. — Já o aluguel de cadeiras está praticamente o dobro. Mas, conversando direitinho, a gente consegue um desconto, ainda mais se vier muita gente.

Já nas areias do Leblon, mais especificamente no Posto 12, na altura da rua General Artigas, um grupo de amigos vindo de São Paulo foi surpreendido pelo preço do aluguel de cadeiras: R$ 10. — No ano passado, pagamos R$ 7 — afirmou Thyeza Dias, a "porta-voz" de um grupo de cinco pessoas. — Na barraca ao lado, era R$ 10 e não teve negociação. Por isso, indico a Barraca da Cristina, onde eles deram um desconto e fizeram a R$ 8.

O preço do mate e do biscoito Globo varia pouco. De R$ 7 a R$ 8, dependendo do vendedor. Já o milho cozido é vendido a R$ 10 por todos os ambulantes consultados pela reportagem.

— Eu trago água de casa, vou até lá almoçar e, só então, volto para a praia. Um simples queijinho custa R$ 10. Se eu comprar um para mim e outro para a minha amiga, já dá para comprar uma quentinha — ensinou Cleide Sousa, moradora de Copacabana

A amiga de Cleide é Luciana Gomes, que nasceu em São Paulo, mas mora em Roma, na Itália, desde 1990. Foi nas areias de Copacabana que as duas se conheceram e, a cada visita, mantêm o ponto de encontro. Desta vez, Luciana reclamou dos preços, que estão "uma facada", na sua opinião. A dupla, muitas vezes, consegue a cadeira de graça:

— Ontem eu ganhei o aluguel da cadeira do meu amigo Josué (barraqueiro do Posto 2) porque ele estava sobrecarregado. A barraca do lado não abriu e ele ficou com muitos clientes, até caixa eu fui e fiquei segurando o dinheiro dele, para ajudar — justificou Cleide.

A Seop informa que não pode fazer o controle dos preços dos produtos vendidos na praia, já que não é de sua competência, mas que os barraqueiros precisam deixar exposto o valor dos itens, prática que não é seguida por boa parte dos comerciantes, apesar da fiscalização dos agentes da prefeitura. Na caminhada entre os postos 1 e 2, em Copacabana, foi possível contar nos dedos as barracas em que havia tabela de preços, mesma situação da Barra da Tijuca e do Leblon. O Procon-RJ, por sua vez, disse que "não pode tabelar preços".