Com ironia a rival e 'teaser político', Doria explora novas formas de marketing da vacina

FÁBIO ZANINI
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Grande Dia!", comemorou João Doria em uma mensagem disparada pelo WhatsApp e postada em suas redes sociais na manhã desta sexta-feira (26), ao reagir ao anúncio da criação da vacina do Butantan, que ainda depende de testes. Eufórico, o governador de São Paulo e presidenciável tucano produziu sua própria versão de um "apito para cachorro", como são chamadas as mensagens sutis direcionadas a públicos específicos que têm estado em voga entre os bolsonaristas ultimamente. Neste caso, a provocação é a seu inimigo que ocupa o Palácio do Planalto e com quem deve travar embate no ano que vem. "Grande dia" é um conhecido slogan da base conservadora do presidente nas redes sociais para celebrar algum fato positivo ou espezinhar algum adversário derrotado. A mensagem foi apenas o ápice de uma sequência de ações de Doria que surpreenderam mesmo os mais acostumados aos famosos dotes de marketing do governador. Começou na noite de quinta-feira (25), com um comunicado enigmático enviado pela assessoria do tucano convidando para um anúncio na manhã seguinte sobre "avanços na pesquisa contra o coronavírus no Brasil". Duas horas depois, um vídeo estrelado por Doria e pelo diretor do Butantan, Dimas Covas, apresentava uma nova modalidade de comunicação, o teaser político. "O Dimas nos trouxe aqui uma notícia espetacular, que nos enche de esperança em relação à saúde, à ciência e à vida dos brasileiros", disse o governador, em mensagem de cerca de 1 minuto distribuída a seus contatos no WhatsApp. Introdução feita, o tucano passou a palavra a Covas, que, em jogada ensaiada, apenas aumentou o clima de expectativa. "É isso, governador, amanhã mais um anúncio de uma grande contribuição que vai fazer a diferença no curso dessa epidemia aqui no nosso país e vai ajudar a combater essa epidemia no mundo também", afirmou. O mistério só foi desfeito às 23h15, quando a Folha antecipou do que tudo aquilo se tratava, sendo seguida por outros veículos de comunicação. Ao anunciar novidades como se fosse o Netflix antecipando uma nova série, o governador mostra estar buscando novos formatos para valorizar seu papel no combate à pandemia. Não é algo que teve início agora. No início da crise, ele já havia criado a entrevista coletiva diária no Palácio dos Bandeirantes no horário quebrado das 12h45, feito para coincidir com o telejornal SP1, da Rede Globo. Também é cada vez mais claro que o governador quer dominar a arte de amenizar as muitas notícias deprimentes da pandemia com o que dá para oferecer de novidades alvissareiras. Dificilmente terá sido coincidência o anúncio da conquista do Buntantan ter ocorrido pouco antes da prorrogação da fase emergencial do Plano São Paulo. Doria não parece se preocupar com acusações de que tem exagerado na marquetagem, feitas inclusive por correligionários como o deputado Aécio Neves (MG) e até o prefeito Bruno Covas, que recentemente defendeu "menos falação" no combate à pandemia. Com a entrada em cena de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o desgaste de Bolsonaro, o tucano parece avaliar que é hora de elevar o tom. Nas últimas semanas, ele passou a ser mais enfático contra figuras que até então eram relativamente poupadas de suas farpas, como o ministro Paulo Guedes (Economia). Também tem alfinetado em público a falta de produção em escala de outras vacinas, o que já incomoda a Fiocruz, responsável pela AstraZeneca. Doria parece dar de barato que Lula estará no segundo turno em 2022 e que o momento é de ir para cima de um presidente fragilizado para ficar com a outra vaga. Se der certo, será seu verdadeiro grande dia.