Com isolamento social, animais saem da toca no Rio

Letícia Lopes
Capivaras são vistas no Bosque do Marapendi, atrás do Shopping Downtown na Barra da Tijuca

Enquanto estamos cada dia mais reclusos em casa por conta da pandemia do coronavírus, eles parecem estar mais à vontade, circulando entre nós, sem grandes preocupações: o isolamento social humano tem feito os animais aparecerem com mais frequência nas cidades, causando surpresa e curiosidade.

Em Niterói, espécies silvestres como cachorros-do-mato e aves de rapina agora caminham sem timidez pelas ruas. Na semana passada, um tucano deu às caras e chegou a entrar no quarto de uma moradora. A ave colorida foi filmada pela família, e o vídeo viralizou nas redes sociais. A visita na casa da estudante Beatryz de Sá Costa, de 19 anos, em Itaipu, durou cerca de dez minutos, entre uma voltinha e outra pelo quarto que será de José, filho da jovem que ainda vai nascer.

— Foi um susto, porém extremamente emocionante. Ele chegou bem perto da gente, pousou ao lado do meu padrasto e no muro. Comecei a “conversar” com o tucano, e o bichinho foi se aproximando até entrar no quarto. Foi lindo — conta a jovem que, familiarizada com outros animais que já apareceram no bairro, como maritacas e um mico-leão-dourado, planeja estudar Biologia.

Em Copacabana, na Zona Sul do Rio, um trio de urubus fez uma pausa no voo e aproveitou para tomar sol à beira da piscina da cobertura de um prédio. Na Barra da Tijuca, outro flagra: uma turma de capivaras é vista com certa frequência sempre à tarde nas proximidades da lagoa perto do Shopping Downtown. E até diferentes espécies de tubarões têm se aproximado mais da costa com as praias vazias. No período de quarentena, desde meados de março, a Patrulha Ambiental, da Prefeitura do Rio, já resgatou 355 animais. Gambás, micos, gaviões, cobras e jacaré são os campeões da lista.

De acordo com a pesquisadora Lena Geise, professora do Departamento de Zoologia do Instituto de Biologia da Uerj, os animais estão se sentindo realmente mais à vontade para sair de suas tocas com os seres humanos cada vez dentro de suas casas:

— Aqui na minha casa tenho visto um ouriço-cacheiro andando na grama como se fosse o dono do pedaço. Isso tem total relação com a nossa movimentação nas ruas estar relativamente menor, e não está acontecendo só no Rio, mas no mundo inteiro. Na capital fluminense, nós temos a Floresta da Tijuca, o Parque da Pedra Branca, que têm uma fauna enorme, animais que têm uma área de vida muito grande, mas eles ficam restritos por conta das nossas atividades. Agora, os bichos estão mais soltos — explica ela.

No mar, os efeitos do isolamento social humano também estão sendo sentidos e podem até se tornar mais intensos. No início do mês, um tubarão-baleia foi visto de pertinho por pescadores na entrada da Baía de Guanabara. Outro animal da mesma espécie também apareceu no fim de semana em Guaratiba, na Zona Oeste, e na última terça-feira, tubarões do tipo galha-preta circularam à vontade perto da Praia do Laboratório, em Angra dos Reis.

— O barulho das embarcações afeta muito a fauna. Como até isso diminuiu, com certeza há mais animais se aproximando — avalia a pesquisadora da Uerj.

Na capital fluminense, a Secretaria municipal de Meio Ambiente orienta a população a acionar os agentes ambientais através da Central 1746, caso encontrem animais silvestres em área urbana ou em situação de risco fora do seu habitat para um resgate seguro. Já em Niterói, o resgate é feito pela Coordenadoria Ambiental da Guarda Municipal, que pode ser acionada através do telefone 153.