Com Lula ou Bolsonaro, clima deve pautar agenda internacional

Em matéria de política externa e suas prioridades, um tema concentra as atenções dos que assessoram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente Jair Bolsonaro: o combate às mudanças climáticas. Na campanha de Lula, articulações foram feitas para iniciar, em caso de vitória, ações sobre clima imediatamente após a eleição, como principal agenda no contato com a comunidade internacional. No governo Bolsonaro, o Ministério das Relações Exteriores aposta na agenda ambiental como oportunidade para melhorar a desgastada imagem do país. O problema, neste caso, é a falta de resultados positivos em matéria de desmatamento e, por tanto, a escassa credibilidade do Brasil quando se fala em preservação do meio ambiente.

Entre 6 a 18 de novembro, será realizada na cidade egípcia de Sharm el Sheikh, a 27ª Conferência da ONU sobre o Clima, que, segundo confirmaram fontes da campanha de Lula ao GLOBO, poderia contar com a participação do ex-presidente, caso seja reeleito. Dependerá da chegada de um convite oficial e da avaliação interna sobre a conveniência de ir ao Egito, onde o Brasil é hoje representado pelo embaixador Antonio Patriota, ex-chanceler do governo Dilma Rousseff e próximo do ex-chanceler Celso Amorim, principal assessor internacional de Lula.

De qualquer forma, irá até Sharm el Sheikh a ex-ministra do Meio Ambiente de governos do PT Izabella Teixeira, Co-Chair do Painel Internacional de Recursos Naturais da ONU Meio Ambiente (IRP/UNEP) e principal assessora da campanha de Lula para temas ambientais. Izabella vem preparando o terreno para contatos do ex-presidente com interlocutores internacionais e nacionais, entre eles o secretário geral das Nações Unidas, Antonio Guterres.

— Existe um clima muito positivo internacionalmente — aponta Izabella.

Na visão da ex-ministra, encontros como a COP 27 serão fundamentais para que o Brasil retome o diálogo "nas bases de uma agenda climática que possa ser compartilhada e objeto de credibilidade junto à comunidade internacional".

Seis meses após a última Cúpula do Clima (COP-26), os principais compromissos assumidos pelo Brasil em Glasgow não saíram do papel, e o desmatamento não diminuiu. Na Escócia, o Brasil assinou entendimentos para zerar o desmatamento ilegal até 2028, reflorestar 18 milhões de hectares até 2030, reduzir emissões de metano e recuperar 30 milhões de hectares de pastagens. Também se comprometeu a cortar pela metade gases de efeito estufa até 2030, atingir a neutralidade climática (leia-se zerar emissões carbono) em 2050 e a ter, em 2030, de 45% a 50% de suas fontes de energia renováveis.

— Se Lula for eleito, vejo um interesse muito grande em ajudar o Brasil no que o país precisar — frisa Izabella.

Uma das ideias de Amorim (seja como futuro chanceler ou assessor especial da Presidência), em caso de volta ao poder, é propor a realização de uma cúpula sobre clima no Brasil, convidando todos os países da região — não apenas os amazônicos — e, também, governos de outros continentes, como a França de Emmanuel Macron e os Estados Unidos de Joe Biden.

O Itamaraty atual sabe que chegará ao Egito sem nada para mostrar, mas aposta, em caso de reeleição de Bolsonaro, em mudanças de nomes e políticas para, em palavras de uma fonte do governo, “recalibrar nossas relações externas”. O futuro da política externa num eventual segundo mandato de Bolsonaro não traria grandes surpresas e, nessa matéria, ao contrário de Lula, o atual presidente dedicou poucos esforços nos últimos tempos, focando, quase unicamente no cenário interno.

— No caso de Lula, a intenção é virar o jogo em matéria de clima, como o Brasil fez em 1992. Sair da defensiva. A vantagem do ex-presidente é que Bolsonaro foi tão desastroso que Lula será muito bem recebido pelo mundo — aponta o embaixador José Alfredo Graça Lima, membro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).

Em caso de reeleição de Bolsonaro, afirma o embaixador, “o Itamaraty precisa continuar resistindo e buscando equilíbrios”.

— O melhor cenário seria a continuidade de Carlos França como chanceler — frisa Graça Lima, que coordenou a edição de recomendações do Cebri para todos os candidatos, em matéria de comércio exterior.

Fontes do governo confirmam que esse é o desejo de França, mas, também, que a decisão dependerá de Bolsonaro. Num eventual segundo mandato do presidente, o que se espera, ampliaram fontes do governo, é que países que foram até agora críticos e distantes em relação ao Brasil “superem suas resistências e sejam pragmáticos”. Mas não há previsão de grandes mudanças, e muito menos guinadas radicais em matéria de política externa.

Uma das apostas do governo Bolsonaro é ocupar a presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O ministro da Economia Paulo Guedes lançou a candidatura do ex-presidente do Banco Central Ilan Goldfajn, resistida pela campanha de Lula. A eleição será no próximo dia 20 de novembro e, em caso de eleição de Lula, se transformará numa das primeiras grandes batalhas entre lulismo e bolsonarismo.

— Se Lula vencer e Paulo Guedes insistir na candidatura de Ilan, ele não terá o apoio de Lula e o mais provável é que perca para as candidatas do México ou da Costa Rica. O Brasil perderá uma oportunidade importante — afirma Ricardo Carneiro, professor da Unicamp e ex-diretor do Brasil no BID.

Se vencer a eleição, Lula deve buscar uma rápida retomada do diálogo com os países da região, com a ideia, consolidada na agenda de Amorim, de reativar a União de Nações Sul-americanas (Unasul). Entre esses países, Argentina, Chile, Colômbia e México ocupam um espaço central. Nos últimos dias circulou a informação, confirmada por fontes argentinas, de que o presidente Alberto Fernández poderia vir ao Brasil imediatamente após a eleição, em caso de vitória de Lula.

Com Lula, o Brasil poderia propor a rápida incorporação plena da Bolívia ao Mercosul, processo atualmente em banho maria pelas divergências entre os governos brasileiro e boliviano. Com Bolsonaro, nada mudará. Se o ex-presidente vencer, o Brasil retomará o diálogo com o governo venezuelano de Nicolás Maduro e enviará um embaixador da Caracas (todas as representações diplomáticas do Brasil foram retiradas da capital venezuelana em 2019). Com Bolsonaro, no máximo será reaberto um consulado e, mais pelo desgaste de Juan Guaidó do que por uma decisão do governo brasileiro, o reconhecimento do dirigente opositor como presidente legítimo chegaria ao fim.

Na visão de Paulo Nogueira Batista, ex-diretor do Brasil no Fundo Monetário Internacional (FMI) e ex-vice presidente do banco dos Brics (formado por Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul), “retomar a Unasul será importante, mas não podemos ter uma única plataforma de cooperação internacional”.

— Reforçar os Brics será natural — frisa Nogueira Batista.

Para Mathias Alencastro, cientista político e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), próximo de Fernando Haddad, com Lula “o Brasil deve abraçar o multilateralismo com três elementos estruturantes:

— O elemento democrático, o clima como elemento comum em todos os diálogos e, na era da competição entre grandes potências, assumindo a dianteira, mas reativando a integração na América Latina.

Semana passada, por convite do presidente do Equador, o direitista Guillermo Lasso, o chanceler brasileiro fez uma visita oficial a Quito. Se reeleito, confirmaram fontes do governo, Bolsonaro continuará priorizando relações com países com os quais têm afinidade política e ideológica.