Com mais de 54 mil casos, SP abrirá mais um hospital de campanha para Covid-19

PATRÍCIA PASQUINI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O estado de São Paulo passa por um momento crítico da pandemia de Covid-19, segundo avaliação do diretor do Instituto Butantan e coordenador interino do Centro de Contingência de Coronavírus, Dimas Covas.

O estado chegou nesta quinta-feira (15) a 54.286 casos --3.189 a mais que o dia anterior--, alta de 6,24% em 24 horas.

Em relação às mortes, houve 197 novos casos no mesmo período, passando de 4.118 para 4.315 óbitos --alta de 4,78%.

"Os números de hoje refletem o que aconteceu há duas, três semanas atrás. O índice de isolamento social daquela época era maior do que o observado nos últimos 15, 20 dias. O índice de isolamento é uma medida indireta da taxa de contágio, ou seja, quanto mais elevado, menor a taxa de contágio; quanto menor, maior a taxa de contágio. Não é uma relação direta, mas tem um paralelismo. Como caíram os números de isolamento, a taxa de contágio nesse período aumentou e transmitiu-se mais a infecção. Isso vai começar a se refletir 15 dias depois, quando estaremos observando o efeito dessa redução na taxa de isolamento", explica Covas.

A piora dos indicadores, como números de casos, mortes e leitos, é uma consequência das baixas taxas de isolamento social. Nesta quarta-feira, o índice ficou em 48% na Grande SP e 47% no estado. "É importante que as pessoas entendam que existe uma relação indireta do aumento da taxa de mobilidade com a transmissão do vírus. Se eu fico em casa, diminuo a circulação do vírus e a taxa de transmissão", diz Covas.

A taxa de ocupação dos leitos de UTI está em 69% no estado e 85,5% na Grande São Paulo --cerca de 10 mil pacientes confirmados ou com suspeita da doença estão internados nas UTIs e enfermarias.

O AME Luiz Roberto Barradas, localizado ao lado do Hospital de Heliópolis (zona sul), está em processo de adaptação (94% já concluídos) e será o quarto hospital de campanha voltado a pacientes com Covid-19.

A previsão é de que o serviço entre em funcionamento no dia 20 de maio. O AME terá 200 leitos, sendo 148 de enfermaria, 28 de estabilização e 24 de UTI. O investimento foi de R$ 915 mil de custeio e R$ 30 milhões divididos em seis meses.

Desde 1º de maio, o Hospital de Campanha do Ibirapuera (zona sul) recebeu 224 pacientes. Destes, 87 receberam alta, 27 foram transferidos e 114 permanecem internados, sendo 105 em enfermarias e 9 em leitos de estabilização e/ou intubados, representando 40% de ocupação.

O local recebeu pacientes de Barueri, Cotia, Diadema, Embu-Guaçu, Ferraz de Vasconcelos, Francisco Morato, Itapecerica da Serra, Itaquaquecetuba, Jandira, Osasco, Rio Grande da Serra, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo e São Paulo.

Até a metade de junho, serão implantados mais 154 leitos de UTI no estado. O Instituto Emílio Ribas, que abre dez leitos a cada cerca de dez dias, também receberá um novo tomógrafo para exames de imagem de pacientes de Covid-19. A partir do dia 22 de maio, o serviço funcionará com dois tomógrafos. O exame de imagem por tomografia é importante para reforçar o diagnóstico e avaliar a evolução da doença.

Segundo o coordenador da Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, Paulo Menezes, a doença provoca a morte de 8% dos infectados, segundo dados desta quinta-feira. Ele ressalta que os óbitos não ocorreram por falta de leitos de UTI.

"Cada dia que passa entendemos que o vírus é mais agressivo do que parecia no início da pandemia. A gente vai compreendendo mecanismos de como o vírus ataca os diferentes sistemas do indivíduo e hoje está ficando claro que a infecção causa uma doença sistêmica e não só pulmonar. A gente olha para países com muitos recursos onde não houve aquelas cenas que vimos em Nova York, Itália, Espanha, Bélgica, Holanda para dar alguns exemplos. Em cada dez pessoas diagnosticadas, uma foi a óbito, ou seja, a doença é mais grave do que as pessoas estão imaginando. A gente precisa também entender que o isolamento social não é só em função de dar tempo de ter leitos com respiradores, mas é a única coisa que podemos fazer para evitar que as pessoas peguem o vírus, venham a óbito ou tenham lesões irreversíveis, com sequelas que depois que a pandemia passar vão continuar trazendo um impacto na vida das pessoas e na sociedade como um todo", afirma Menezes.

De acordo com o diretor do Instituto Emílio Ribas, Luiz Carlos Pereira Júnior, a taxa de mortalidade em UTI é de 20%, em média.

Segundo Júnior, a cada 5 pacientes que vão para a UTI, 1 não volta para casa e a cada 10, 4 evoluem para um quadro de insuficiência renal. Dos que recebem alta, alguns continuarão com a diálise e outros terão sequelas pulmonares.

"Não faltam leitos de UTI para receber a demanda. Estamos correndo com compra de equipamentos, capacitação e contratação de recursos humanos e instalação de novos serviços. Independentemente desta corrida, de quem já está internado em leito de terapia intensiva, um não volta para casa. Isso é bastante importante para que não se tenha a falsa sensação de que não faltarão leitos de UTI. A questão é que estamos diante de uma doença nova, que surpreende a cada dia com novas manifestações clínicas, neurológicas, vasculares, cutâneas. Queremos que a população colabore para que não tenham pacientes graves e com sequelas", ressalta Júnior.