Com mais de 90% de cancelamentos, turismo prevê fechamento de hotéis e demissão em massa

Glauce Cavalcanti e Luciana Casemiro

Hotelaria e parques temáticos terão estabelecimentos fechando as portas já a partir da semana que vem e dispensando funcionários se não houver ajuda financeira do governo federal, afirma Sérgio Souza, presidente da Associação Resorts Brasil. Nos últimos sete dias, houve uma interrupção quase total na geração de receita do setor após o cancelamento de todos os eventos e de mais de 90% das reservas feitas por viajantes corporativos e de lazer.

A medida anunciada nesta quarta-feira pelo governo federal que vai permitir reduzir jornadas e salários de colaboradores pelas empresas durante a crise não surtirá efeito para o setor, sustenta o executivo. 

— Redução de jornada e salário ajudam numa atividade que continua a existir. A nossa atividade cessou. O governo está socorrendo o setor aéreo, o que tem de ser feito. Mas é preciso também apoiar hotelaria e turismo — defende Souza. — Se houver pelo menos mais três meses de crise, como se prevê, é impossível resistir. Isso coloca os 400 mil empregos gerados diretamente pelo setor em xeque.

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Nesta quarta-feira, o governo anunciou ainda um pacote de medidas de socorro ao setor aéreo. Ele prevê que as companhias terão mais prazo para pagar taxas ao governo e poderão adiar por um ano o reembolso devido aos passageiros que cancelarem viagens. As outorgas dos contratos aeroportuários também foram adiadas, podendo ser quitadas até dezembro pelas concessionárias sem cobrança de multa.

O governo avalia ainda permitir a suspensão temporária dos contratos de trabalho dos segmentos mais atingidos pela crise causada pelo novo coronavírus, como bares, restaurantes e cinemas, informou uma fonte próxima ao assunto ao GLOBO. A suspensão do contrato poderia valer três ou quatro meses, período em que os trabalhadores receberiam um pagamento equivalente ao seguro-desemprego, para evitar demissões em massa.

Ao todo, oito entidades do setor de hospedagem e parques temáticos enviaram uma carta aberta ao governo federal por meio do Ministério do Turismo, num esforço para obter recursos. Além da Resorts Brasil, participam a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) e a Associação das Empresas de Parques de Diversões do Brasil (ADIBRA), entre outras.

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O segmento tem uma receita anual de R$ 31,3 bilhões, gerando ao todo 1,3 milhão de empregos entre diretos e indiretos, segundo dados da Resorts do Brasil. 

— No Brasil, 90% dos hotéis são independentes. Não há como resistir a um mês sem receita. Nossa mão de obra é qualificada e queremos manter os empregos. Mas precisamos de recursos para, durante essa queda total da demanda, afastarmos os trabalhadores mediante pagamento de um seguro-desemprego proporcional. Assim, passada a crise, eles poderão retornar ao trabalho — explica ele.

O fechamento de hotéis, continua Souza, pode derrubar a economia de municípios e regiões inteiras, sobretudo em áreas de intensa atividade turística como Porto de Galinhas, em Pernambuco, ou Gramado, no Rio Grande do Sul. Também cidades como Ribeirão Preto, portão de entrada para o agronegócio, sentiriam impacto pela falta de hospedagem para viajantes corporativos.

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Alfredo Lopes, presidente de Associação de Hotéis do Rio (ABIH-RJ), estima perda de R$ 25 milhões no estado até o momento com os cancelamentos por conta da pandemia de coronavírus.

— São muitos os cancelamentos de grupos de turistas e de eventos. Mas a maior perda ainda está por vir, no feriadão de abril quando haverá quase uma semana de folga — avalia.

Lopes diz que os hotéis do Rio estão seguindo a orientação da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), órgão do Ministério da Justiça, de reembolsar integralmente aqueles consumidores que quiserem cancelar a sua reserva.

— A nossa primeira tentativa é transferir a reserva para o segundo semestre. Os eventos, quase 100% transferem, mas ainda não tenho os números dos turistas individuais — diz Lopes.

O Airbnb, de aluguel de imóveis por temporada, anunciou a ampliação do cancelamento sem ônus para reservas feitas até 14 de março, com check-in até 14 de abril. A medida isenta de punição tanto hóspedes, quanto os donos do imóveis caso desistam do negócio.

Luciano Timm, titular da Senacon, reafirma que a orientação do Ministério da Justiça é de remarcação sem custo. E recomenda que quem sofrer cobranças abusivas deve registrar reclamação no portal de intermediação de conflitos do governo federal, o consumidor.gov.br.

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