Com medo e sem saída: como está a situação dos professores de SP na volta às aulas presenciais na pior fase da pandemia

João de Mari
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Marilene de Oliveira Paixao checks the temperature of students entering the EMEF Sylvia Martin Pires public school in Sao Paulo, Brazil, Monday, March 8, 2021. Paixao, the mother of a student at the school, was hired for a temporary job as part of a program by the city's education secretary to help mothers who lost their jobs during the pandemic. (AP Photo/Andre Penner)
Marilene de Oliveira Paixão verifica a temperatura dos alunos que ingressam na escola pública EMEF Sylvia Martin Pires em São Paulo, Brasil, segunda-feira, 8 de março de 2021. Paixão, mãe de um aluno da escola, foi contratada para um emprego temporário no âmbito do um programa da secretaria de educação da cidade para ajudar mães que perderam o emprego durante a pandemia (Foto: AP Photo/Andre Penner)

O estado de São Paulo entrou na fase vermelha no último sábado (6) e ficará durante duas semanas na nova e mais restritiva classificação. Pela primeira vez, no entanto, as escolas seguem abertas — sejam particulares ou das redes municipal e estadual — diante da pior fase da pandemia.

Para se ter ideia, no primeiro mês de retorno das aulas presenciais, as escolas públicas e particulares do estado registraram 4.084 casos confirmados de Covid-19. As mortes de alunos e professores pela doença chegam a 21, de acordo com a Secretaria Estadual de Educação.

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Diante deste cenário, Ronaldo Bispo dos Santos, professor de filosofia e sociologia na E.E. Araci Zebral Teixeira, no Lageado, na periferia da Zona Leste da cidade, se viu obrigado a reforçar os cuidados para não se infectar. Ele, que é mestre em ciências sociais pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), afirma que nada garante a própria segurança e que manter os protocolos das autoridades de Saúde é a única solução.

"Nunca vimos isso acontecer, é um momento atípico e todos fomos pegos de surpresa. Mas estamos circulando, portanto, não existe uma estratégia exata. O que existe é que as pessoas se expõem ao risco todos os dias", diz ele, que é professor da rede estadual há nove anos.

Dos Santos acredita que manter as aulas presenciais durante a pior fase do Plano São Paulo é "um equívoco do governo". Mas, ele conta que para tentar driblar o vírus e não levar a doença para a esposa e a filha de apenas três anos, adotou como primeira medida o respeito às normas bem recomendadas pelos órgãos de segurança. 

"A gente vai mantendo o distanciamento em sala de aula e vai tendo um trabalho até mesmo complicado, porque nem sempre todas as pessoas estão dispostas a manter os protocolos de segurança. Seja por esquecimento de um aluno ou outro, ou um funcionário, nós mesmo em algum momento podemos nos distrair, mas a ideia é essa: vigilância o tempo inteiro tentando entender que estamos vulneráveis ao vírus", resume.

Motivação dos alunos

O professor de ciências Wagner Américo Isidoro, que dá aulas no CEU EMEF Jambeiro, no Jardim Helena, também periferia na Zona Leste de São Paulo, concorda com a avaliação de Dos Santos. Ele conta que embora a escola forneça equipamentos de proteção individual, não é o suficiente e muitas vezes os próprios professores têm que comprar os materiais com dinheiro do "próprio bolso", como ele mesmo diz. 

"Mesmo com todos estes aparatos, todos adotando as medidas profiláticas e de segurança, os profissionais voltaram com muita insegurança, com uma sensação de medo constante e isso ocorre das duas partes, dos profissionais e dos estudantes, ocasionando um desconforto geral", resume.

Por este motivo, ele conta que vem adotando estratégias diversificadas para atender a todos os estudantes. "Eu acabo utilizando vídeos orientativos, reportagens sobre a atual situação na capital, debates e tudo isso atrelado ao conteúdo que o educando deve aprender dentro do seu período letivo, trabalhando de forma holística os conceitos científicos e suas relações com o nosso cotidiano".

Além das aulas presenciais, o governo João Doria (PSDB) mantém o chamado Centro de Mídias da Educação de São Paulo, que é um programa da Secretaria da Educação do Estado que tem como finalidade contribuir com a formação de professores e garantir que os alunos tenham uma educação onde a tecnologia esteja presente.

O site, disponível gratuitamente online, disponibiliza videoaulas que podem ser acompanhadas ao vivo, tanto pelo próprio Centro de Mídias ou pelo canal TV Cultura Educação (canal 2.3 da TV digital), diariamente, das 06h às 23h. Ele permite que os alunos interajam entre si e com o professor no momento da aula, esclarecendo possíveis dúvidas.

Para as aulas presenciais, o governo de São Paulo adotou uma rotina de rodízio de alunos, mantendo dentro da sala de aula 20% dos estudantes. Em uma escola com capacidade máxima de 40 alunos por sala, por exemplo, isso corresponderia a 8 alunos por dia. Como é o caso da escola do professor Dos Santos.

"A gente tenta manter um acompanhamento pelo Centro de Mídias SP, que mantém uma sincronia com as aulas que estão passando lá. Aí a estratégia que a gente adotou é a seguinte: a cada cinco semanas que o aluno aparece para nós, a gente vai tentar acompanhar o máximo o desenvolvimento dele. Ou seja, entender se ele está acompanhando as aulas online, estimular que ele acompanhe as aulas pela plataforma, que é onde vai ser fornecido todo conteúdo e, dentro desta plataforma, tentar orientá-lo da melhor forma possível para que ele não perca o conteúdo", diz Dos Santos.

Mas, para ele isso funciona apenas para um parcela dos alunos, aqueles que contam com internet em casa. De acordo com dados da Rede Enem, durante a pandemia no Brasil, alunos de escola pública tiveram 75% a menos de aulas em relação ao estudante da rede privada. Enquanto o oferecimento de aulas online foi quase integral na rede privada (99%), o mesmo não aconteceu nas instituições financiadas pelo poder público (57%).

"O que acontecendo é que o aluno vem para sala de aula e aí você passa todo conteúdo que está disponível ali e faz uma orientação de estudos. No fundo, a qualidade das aulas caiu muito. Existia um ideal que a gente pretendia alcançar, em condições normais, e em condições anormais não chega nem perto de que o ideal aconteça. No fundo, as escolas estão abertas apenas para dizer ‘olha, a educação está funcionando’", desabafa.

Maioria dos casos são em escolas estaduais

De acordo com o governo paulista, a maioria dos casos confirmados de Covid, ou 59% deles, estão em escolas estaduais, seguido pelos colégios particulares, com 37%, e pelas unidades municipais, que somam 3%. No total, foram registrados 24.345 casos suspeitos de coronavírus nas unidades escolares. 

No entanto, os dados da escolas municipais da capital não são registrados no sistema estadual. Isso porque a Secretaria Estadual de Educação criou o Simed, sistema de notificação obrigatório para as escolas particulares e estaduais para casos suspeitos e confirmados da doença. 

Com isso, apenas 400 cidades paulistas, das 645, são obrigadas a notificar os casos no Simed por terem seus sistemas de ensino regulados pelo estado. Dos 21 óbitos registrados, 19 foram de servidores e dois em alunos. A secretaria não informou se as mortes são apenas de escolas públicas ou particulares. 

Os números observados nas escolas mostram uma incidência de 41 casos por 100 mil habitantes — em São Paulo, a proporção geral é de 1.393 por 100 mil. Ou seja, cerca de 33 vezes menor do que em todo o estado.

Por este motivo, a gestão do governador João Doria (PSDB) diz acreditar que "tal fato está em consonância com as evidências científicas que apontam que os números de contaminação relativos àqueles que frequentam o ambiente escolar são sempre inferiores aos da transmissão comunitária".

Greve dos professores

Mas, para o professor de geografia Samuel Chaves, também da escola CEU EMEF Jambeiro, no Jardim Helena, periferia da Zona Leste de São Paulo, a realidade não é exatamente essa. O professor está em greve, assim como mais de 50% dos profissionais da rede pública do estado, de acordo com o SINDSEP (Sindicato dos Trabalhadores na Administração Pública e Autarquias no Município de São Paulo).

"Minha decisão de aderir a greve é porque estamos no pior momento da pandemia no nosso país, está fora de controle e totalmente pela ausencia de gestão por parte do poder público", explica. Para ele, os gestores do estado se baseiam em experiências que não "condizem com a realidade brasileira" — como escolas abertas na europa durante a segunda onda da Covid — e isso pode prejudicar tanto professores quanto alunos.

"O governo faz isso sabendo que a gente tem nas escolas públicas todos os tipos de dificuldades estruturais, de infraestrutura de pessoas, equipes de limpeza reduzidas e uma questão social muito complicada que se agravou pela forma que a pandemia foi gerida no nosso país. As mesmas pessas que têm que escolher entre morrer de fome ou morrer de Covid são expostas diarimanete ao vírus são aquelas que vão levar as crianças para as escolas".

De acordo com o levantamento do SINDSEP, 256 escolas públicas da rede municipal registram 577 casos de Covid-19, entre alunos e profissionais da educação. Na rede pública estadual, são 908 escolas com 1.952 casos de coronavírus e, na rede privada, são 231 escolas infectadas — não há o número de quantos casos da doença. Os dados são do último sábado (6).

O professor Chaves conta que parece que está vivendo uma "tragédia anunciada", referindo-se à falta de fiscalização do cumprimento dos protocolos nas escolas. Ele conta que está em alguns grupos de WhatsApp com professores da rede pública e que "todos os dias chega notícia de colega morrendo e crianças e adolescentes adoecendo".

"Estamos à deriva do poder público, está uma bagunça completa. A gente está vendo a pandemia fora de controle e o que está sendo indicado pelas autoridades de saúde, inclusive pelo secretario de saude de São Paulo, é o fechamento das escolas", diz.

Na terça-feira passada (2), o secretário estadual de Saúde de São Paulo, Jean Gorinchteyn, defendeu a supensão das aulas presenciais nas escolas diante do aumento de casos de Covid-19 e o avanço da pandemia no estado. Em entrevista à CBN, ele chegou a afirmar que o tema seria discutido nos próximos dias, mas que, na opinião pessoal, manter escolas abertas pode favorecer a propagação do vírus devido aos descolamentos fora das aulas.

De acordo com dados da Saúde, o estado de São Paulo tem 2.117.962 casos confirmados de Covid-19 e 61.584 mortes até esta segunda-feira (8). Cidades da Região Metropolitana estão com lotação máxima nas UTIs. Em Taboão da Serra, 11 pessoas morreram esperando pela liberação de leitos nesta terça-feira (9).

Os professores da rede estadual estão em greve desde o início do ano letivo em 8 de fevereiro. Nesta segunda (8), os docentes de escolas particulares também aprovaram paralisação a partir de quinta (11) diante da escalada de casos de Covid-19.