Com menor taxa de isolamento de SP, Presidente Prudente tem idosos no centro e parque cheio

PAULO BATISTELLA
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PRESIDENTE PRUDENTE, SP (FOLHAPRESS) - A poucos metros da sede da Prefeitura de Presidente Prudente (a 556 km de São Paulo), na região central da cidade, o aposentado Nilson Vieira, 73, assiste ao movimento de pessoas, crescente mesmo em meio à pandemia do novo coronavírus. Sentado em um banco na praça Nove de Julho, ele conta que mantém o hábito anterior à Covid-19 de visitar o local todos os dias --a diferença é que agora usa máscara, algo obrigatório no estado, e só joga conversa fora, não mais truco, já que a prefeitura lacrou o espaço com mesas para a jogatina. Apesar de pertencer ao grupo de risco para a doença infecciosa, diz não temê-la e se sentir acolhido na praça central. "Se não vier aqui, não tem aonde ir." Furar a quarentena na maior cidade do Oeste Paulista, com 228 mil habitantes, segundo projeção do IBGE, no entanto, não o torna exceção. Com 62 casos confirmados e 5 mortes pelo coronavírus, Presidente Prudente já registra a menor taxa de adesão ao isolamento social imposto no estado entre os municípios monitorados pelo governo paulista, 38%, junto com Catanduva e Limeira, segundo dados divulgados nesta sexta-feira (8). No mesmo dia, a reportagem testemunhou movimento intenso no perímetro central da cidade. Para a gari Maria de Fátima Almeida, 55, que trabalha na varrição rotineira do calçadão local, o fluxo parecia estimulado pela busca por serviços bancários, algo comum aos primeiros dias de cada mês. Em frente às agências dos bancos, longas filas com pessoas próximas entre si compunham o cenário. Havia pequenas aglomerações em frente a lanchonetes e comércios habilitados a funcionar, além da presença de grupos de idosos, que, tal como Vieira, pareciam apenas passar o tempo livre. A taxa de isolamento baixa também se reflete em outras partes da cidade. O Parque do Povo, principal área verde e de lazer da cidade, com 6 km de extensão, continua com intensa circulação aos finais de tarde, com procura, principalmente, por práticas esportivas. A cidade ainda registra relatos de superlotações em ônibus. Por decreto municipal, assinado pelo prefeito Nelson Bugalho (PSDB), a frota de circulares foi reduzida em 50%. O documento ainda proibia a circulação de passageiros em pé, o que a prefeitura tenta coibir com a mobilização de fiscais. A fiscalização também tem atuado contra comerciantes que, ainda que desautorizados, mantêm suas atividades, algo comum na cidade, segundo afirma o secretário de Saúde da cidade, Valmir Pinto, à reportagem. Em decreto anterior, o prefeito tentou flexibilizar a atuação do comércio, mas acabou barrado pela Justiça a pedido do Ministério Público. O secretário associa a baixa adesão ao isolamento a uma percepção equivocada dos prudentinos sobre o potencial da pandemia, devido ao descompasso entre a realidade local e a de cidades metropolitanas, com alto número de casos e de mortes pela Covid-19. Ele cita um estudo recente da Unesp que identificou um atraso de três semanas na explosão de casos no interior em relação à capital paulista. "Criou-se talvez uma imagem de que isso não chegaria aqui e, se chegasse, não seria tão relevante como tem sido em outros lugares", diz. Questionado sobre as medidas adotadas pela prefeitura, Pinto elenca a criação, em parceria com uma universidade privada local, de um serviço telefônico de esclarecimento de dúvidas e de um centro de triagem para síndromes respiratórias, para acompanhar potenciais casos de Covid-19. A cidade ainda conta com o HR (Hospital Regional), segundo maior hospital do interior do estado e sob gestão João Doria (PSDB), como referência para casos de alta complexidade relacionados ao coronavírus. A instituição precisa atender, no entanto, outros 44 municípios além de Presidente Prudente. Preocupado, o secretário de Saúde prudentino celebrou a extensão da quarentena no estado até 31 de maio, anunciada por Doria nesta sexta. "Nós não alcançamos o pico da pandemia, principalmente aqui no interior. Não é o momento para um afrouxamento." Ele considera ao menos superado um outro surto na cidade, de dengue. Do início do ano até a última terça (5), o município contabilizou 2.754 casos.