Bolsonaro e a "confusa mescla de ambições, aspirações e valores menores"

·4 minuto de leitura
Brazilian President Jair Bolsonaro speaks during a press conference to launch the Public Integrity System, aimed to combat corruption in the fedetal government, at the Planalto Palace in Brasilia, on July 27, 2021. - Nogueira was appointed by Bolsonaro as the new Chief of Staff. (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
Evaristo Sá/AFP (via Getty Images)

Tempos atrás, o desenhista Paul Noth publicou na revista “New Yorker” um cartum que capturou o espírito da servidão voluntária dos eleitores em relação aos seus líderes populistas do nosso tempo. No desenho, ovelhas pastam mansamente perto de um outdoor de campanha onde um lobo candidato a presidente avisa: “eu vou comer vocês”.

Logo abaixo, uma das ovelhas candidatas a virar jantar comenta sua admiração: “ele diz as coisas como elas são”.

Foi mais ou menos isso que fez lobo eleito presidente em 2018 durante sua live semanal na qual prometia entregar as provas de que as últimas eleições foram fraudadas.

Em uma longa transmissão, Jair Bolsonaro desfilou uma coletânea de platitudes misturadas a teorias da conspiração e ataque às instituições que jurou defender. Não apresentou prova nenhuma, mas usou a mesma tática para vender cloroquina ao dizer que, se não dá pra afirmar que existe fraude eleitoral, também não dá pra afirmar que não teve.

Assim fica fácil governar.

Bolsonaro tem conclamado a população a ir às ruas para pedir voto impresso. Os atos serão um teste para sua popularidade. Se não for, tem sempre alguma manifestação antiga, de arquivo, para ser compartilhada nas redes bolsonaristas como se fosse ontem.

Leia também:

Como o lobo de Paul Noth, Bolsonaro deu data e hora para o golpe. O ataque está pré-agendado desde que afirmou: ou tem voto impresso ou não tem eleição.

Bolsonaro sabe que, a menos de um ano e três meses do pleito, é quase impossível mudar agora o sistema, que além de caro é um atraso.

O que ele quer é uma desculpa caso seja derrotado em outubro de 2022. Quer deslegitimar desde já o sistema eletrônico que o elegeu durante todos esses anos.

A precariedade com que anuncia o projeto “Golpão 2022: eu fui” leva parte de seus eleitores a admirar, como as ovelhas do cartum, a franqueza do próprio algoz.

Para parte do público, ali reside as qualidades do ex-capitão: ele não esconde seus princípios com belas palavras. Fala tudo enquanto come com a boca aberta.

A ironia é que esse mito do presidente que fala as coisas como são está sendo construído, desde sempre, com base em mentiras.

As da última live ultrapassaram a linha do bom senso e comeram as bordas da responsabilidade. Para “provar” a fraude no sistema que o elegeu, Bolsonaro citou até um vídeo de denúncias sobre o pleito de 2014 protagonizado por um astrólogo especialista em acupuntura em árvores.

Ele ainda mentiu ao dizer que os responsáveis por garantir a segurança das urnas são os mesmos que tiraram o ex-presidente Lula da cadeia (não são), inventou um padrão inexistente da apuração de votos em 2014 (desmentida até pelo partido derrotado naquela disputa).

Fosse uma entrevista de emprego, qualquer CEO ou líder empresarial que em 2018 acreditava estar diante de uma escolha muito difícil mandaria o postulante à vaga para casa por insuficiência técnica. Ou em razão do “tratamento agressivo dispensado a seus camaradas”, da “falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de argumentos” ou pela “confusa mescla de ambições, aspirações e valores menores” —assim Bolsonaro era descrito por seus superiores quando era ainda um tenente indisciplinado no Exército.

A live de quinta-feira 29 mostra que entre o militar indisciplinado do fim dos anos 1980 e o presidente despreparado de 2021 pouco mudou.

Com um país triturado por 14 milhões de desempregados e mais 550 mil mortos pela covid-19, a única preocupação de Bolsonaro parece ser encontrar um pretexto para dormir em outubro 2022 e acordar ainda na cadeira de presidente em janeiro de 2023.

Para isso ele já deu a hora e o local onde pretende jantar as ovelhas. Há, no rebanho, quem ainda admire a franqueza com que expõe sua (má) intenção.

Em tempo. Uma rápida pesquisa em qualquer sistema de busca direciona qualquer leitor a um número infinito de alertas sobre os riscos de a Cinemateca Brasileira simplesmente desaparecer em meio ao descaso dos responsáveis por sua gestão e manutenção. Um problema elétrico em um dos galpões levou a um incêndio noticiado como tragédia anunciada.

O secretário de Cultura estava fora do país com seu chefe, o ministro sanfoneiro do Turismo. O responsável por vigiar a secretaria em sua ausência era um diretor de reality B numa emissora Y.

O alcance da tragédia ainda está por ser computado.

Um povo sem espírito crítico, memória e inteligência é um povo que engole qualquer conversa, inclusive as baseadas nas teorias de quem faz acupuntura em árvore. A destruição da memória cultural, assim como a devastação das universidades e programas de pesquisa, não é descuido. É projeto.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos