Com mercado aquecido, carros de leilão ficam 30% mais caros

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Por muitos anos, comprar veículo em leilão, mesmo que batido e precisando de consertos, era vantajoso em relação a adquirir um automóvel de segunda mão. O preço — bem abaixo do mercado — tornava mais acessível andar a quatro rodas e possibilitava, até mesmo, obter algum ganho com a revenda. A falta de veículos novos nas concessionárias, no entanto, provocou uma corrida aos revendedores e também impulsionou o número de lances. Com isso, o preço para arremate nos leilões chegou a subir em torno de 30%.

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O leiloeiro Rogério Menezes diz que a demanda começou a aumentar no meio de 2020, mas disparou no ano passado. Ao invés de fazer cerca de 15 cadastros de interessados em participar, por dia, sua equipe passou a registrar aproximadamente 200 novos clientes diariamente. Segundo seus cálculos, com a disputa acirrada, os carros ficaram, em média, 20% mais caros. Porém, os mais conservados, recuperados de bancos por dívida, e com baixa quilometragem, ultrapassam os 30% de valorização.

— Além da falta de peças nas montadoras ter provocado o maior interesse pelos carros usados, acredito que o desemprego também puxou o interesse pelos leilões — opina Menezes: — Sem renda, muitas pessoas compraram carros para trabalhar como motorista de aplicativo ou pequenos carretos para fazer entregas.

A diretora do Grupo Superbid, Jacqueline Luz, acrescenta que o movimento da tabela Fipe também ajudou a elevar os preços dos carros de leilão. Os veículos de empresas em boas condições — os quais costumam ser os mais procurados — , que eram a vendidos por 82% da tabela Fipe, passaram a ser comercializados na plataforma por quase 100%, considerando o acréscimo do valor da comissão do leiloeiro. Automóveis retomados de financiamento ou de seguradoras, com pequenas avarias, subiam de 70% para 80% da tabela. Já o preço dos carros sinistrados, ou seja, batidos, passou de 45% para 60% da Fipe.

Jaqueline defende que, ainda com o preço tão próximo do praticado no mercado, vale a pena brigar pelo lance:

— Montadoras estão demorando até seis meses para entregar um carro e, quando não há opção nos canais de anúncio, o leilão é uma forma de ter um veículo a pronta entrega. Além do mais, com o mercado aquecido, esse comprador pode vender depois o carro por até 120% do preço da Fipe.

Isso não é o que o autônomo Arthur Lucas Alves, de 36 anos, tem enxergado na prática. Trabalhando há mais de dez anos com a revenda de veículos adquiridos em leilões, pensa em largar o negócio e empreender em outro ramo. Pelos seus cálculos, em 2019, conseguia lucrar em torno de R$ 3 mil por veículo vendido. Em 2021, entretanto, ganhou muito pouco e, algumas vezes, até saiu no prejuízo.

— Antes da pandemia, um Ônix saía por R$ 20 mil. Agora, o mesmo carro é vendido a mais de R$ 30 mil. O preço está muito compatível com o da rua. Fica complicado de comprar até mesmo para uso próprio. No ano passado, eu praticamente troquei dinheiro, porque não ganhei nada — lamenta o empreendedor.

O empresário Sérgio Henry, de 55 anos, diz que embora as pessoas achem quem quem frequenta leilão é só o público baixa renda, isso não é verdade. Comprar carro de luxo por esse meio, segundo ele, ainda é muito lucrativo porque não tem disputa:

— Você é o consumidor final. Na minha opinião, isso vale para automóveis acima de R$ 90 mil e motos que custam mais de R$ 50 mil. Outra vantagem é que veículos novos, de seguradoras, já vêm com IPVA quitado, sem débitos.

Frequentador de leilão há 22 anos, Henry conta a sua estratégia:

— Compro em janeiro, não pago tributos, e vendo o carro em dezembro. Consigo recuperar o que gastei de seguro e ainda obter lucro. Em 2019, por exemplo, comprei um Kia Sorento por R$ 130 mil e vendi depois por R$ 170 mil. Este ano, acabei de adquirir uma Toyota Hilux 2021 por R$ 238 mil, sendo que o preço na tabela Fipe é de R$ 370 mil. E após anunciar, costumo demorar só 30 dias para vender.

O leiloeiro Rogério Menezes diz que os veículos mais procurados costumam ser os populares, recuperados por bancos e financeiras por não pagamento, já que precisam apenas de pequenos reparos e têm alta liquidez no mercado. Também reúnem grande interesse os com malas espaçosas, como Corolla, da Toyota; Honda Civic; e Fiat Siena, que possibilitam a instalação do kit GNV — combustível mais barato e com melhor rendimento em relação ao etanol e à gasolina.

Num movimento contrário, estão as vans para transporte escolar. Segundo Menezes, a cada dez colocadas à venda, apenas uma é arrematada.

— As vans escolares até caíram de preço, ao contrário dos demais veículos — diz o leiloeiro: — Com a covid, muitas crianças passaram a estudar remotamente, de casa, e mesmo com o retorno, muitos pais passaram a levar os filhos para o colégio em carro próprio. A demanda por esse serviço diminuiu.

Antes de arrematar um automóvel, é indicado visitar o pátio, acompanhado de um mecânico que possa estimar os valores futuros a serem gastos com consertos.

Com a pandemia, a maioria dos leilões tem acontecido remotamente, de forma on-line — cenário que vira um prato cheio para os golpistas. Sites falsos se multiplicam, oferecendo veículos em bom estado e com preços menores que os praticados no mercado. Por isso, o consumidor precisa ter atenção.

Antes de fazer o cadastro em qualquer site de venda de automóveis, é necessário procurar o nome do leiloeiro e apurar se ele consta cadastrado na Junta Comercial do seu Estado, além de verificar nos Tribunais de Justiça se o portal é realmente homologado.

Outra medida de proteção é conferir em sites de reclamação de consumidores se há alguma queixa registrada contra o endereço.

Ainda que o site pareça confiável, não se pode relaxar. Em alguns casos, estelionatários clonam o endereço de uma empresa verdadeira para atrair vítimas. Portanto, desconfie se o preço estiver barato demais; se pedirem a transferência do dinheiro com muita urgência; e, por fim, jamais deposite o valor do carro para uma pessoa física. Se a empresa for séria, ela terá um CNPJ, e o correto é transferir para uma conta comercial.

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