Com mortes que podem chegar a 3 mil por dia, país esbarra em rejeição de Bolsonaro a medidas de restrição

Lisandra Paraguassu
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Surto da Covid-19 no Brasil. Parentes e colegas carregam caixão de idoso que morreu em decorrência do vírus. 05/03/2021. REUTERS/Diego Vara.

Por Lisandra Paraguassu

BRASÍLIA (Reuters) - O número de mortes causadas pela Covid-19 pode chegar a 3 mil por dia se medidas de restrição não forem adotadas mas, apesar de concordar com as estimativas apresentadas pelo gabinete de crise da Covid-19, o Ministério da Saúde não vê chances de propostas restritivas serem aceitas pelo presidente Jair Bolsonaro, disseram à Reuters fontes que acompanharam as discussões.

Em meio à aceleração de mortes no país, a conta feita pelo gabinete de crise --formado pela Casa Civil, Ministério da Saúde, representantes de estados, municípios e sociedade civil-- leva em conta a velocidade do aumento de casos, das mortes e a lotação das UTIs no país, em que 26 das unidades da Federação têm hoje mais de 80% dos leitos ocupados, de acordo com uma das fontes ouvidas pela Reuters.

Apesar de alegar que não faz estatísticas e esse acompanhamento seria responsabilidade dos Estados e municípios, os representantes do governo que compõe o comitê concordaram que esse era o cenário mais provável. O Brasil vem quebrando recordes sucessivos de mortes diárias. Na quarta-feira, chegou ao número mais alto: 1.910. A média móvel dos últimos 14 dias é a maior desde que a epidemia começou, 1.250

A resposta do Ministério da Saúde aos números recordes foi, segundo uma das fontes, que havia pouco a se fazer nesse momento, mas o ministério iria investir na reativação de hospitais de campanha nos Estados e na habilitação de novos leitos de UTI, onde fosse possível.

Oficialmente, o ministério nega que trabalhe com a possibilidade de o país chegar a 3 mil mortes por dia. Procurado pela Reuters, a informação é que "o ministério não faz estimativa, apenas recomenda cuidados, mas caberá aos Estados e municípios determinarem suas necessidades".

As medidas de restrição de circulação, propostas pelos secretários estaduais de Saúde em uma carta entregue na terça ao ministro da Saúde, Eduardo Pazuello --entre elas, um toque de recolher nacional das 20h às 5h, fechamento de aeroportos e de viagens interestaduais--, disse a fonte, seriam levadas ao presidente Jair Bolsonaro.

"Foi dito que iriam tentar medidas de restrição. Mas sabemos que o presidente jamais aceitaria", disse uma das fontes.

Recentemente, Bolsonaro voltou ao ataque a prefeitos e governadores que decidiram adotar medidas mais duras de restrição de circulação. Chegou a cobrar que lhe "devolvessem o poder" de decidir sobre essas medidas, acusando, mais uma vez, o Supremo Tribunal Federal de ter lhe tirado poderes --na verdade, a decisão da corte diz que Estados e municípios podem determinar restrições independentemente da posição do governo federal.

"No que depender de mim, nunca teríamos lockdown. Nunca. É uma política que não deu certo em lugar nenhum do mundo", disse a apoiadores na frente do Paládio da Alvorada, na quarta-feira.

Na semana passada, em outra reunião, técnicos do ministério da Saúde já tinham dito a secretários de Saúde que não podiam indicar medidas mais restritivas por proibição de Bolsonaro. De lá para cá, o presidente subiu o tom contra as quarentenas. Na quinta, chegou a dizer que era preciso parar com "frescura" e "mimimi" e que é preciso enfrentar o problema "de peito aberto".

O Ministério da Saúde tem apenas uma aposta para reverter a situação: acelerar a compra de vacinas. A política, que também havia sido deixada de lado até o final do ano, agora aparece como salvação para o Brasil.

Esta semana, o ministério anunciou que as negociações para a compra das vacinas da Pfizer e da Janssen, subsidiária da Johnson & Johnson travadas há meses, avançaram, e devem trazer 138 milhões de doses de vacinas ao país até o final do ano. O ministério também anunciou negociações para a compra de doses da vacina da Moderna.

O ministério vê a possibilidade de ter todo os principais grupos prioritários --cerca de 70 milhões de pessoas-- vacinados até junho deste ano.